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quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Conheça o Empresário Que Deixou Stanford para Digitalizar a Economia Atacadista do Brasil

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Samuel Carvalho cresceu dentro de uma indústria e, apesar da pouca idade, sabe que um olhar imediatista e ambições de curto prazo podem ser fatais. A família, em Recife, construiu negócios nos setores de açúcar, sorvete e sucos, e foi a sua primeira escola. A lógica sempre foi de longo prazo, disciplina operacional e foco em eficiência — características que hoje aparecem na forma como conduz a Praso.

“Eu sempre soube que queria empreender”, afirma. O chamado, no entanto, estava em outro lugar — na tecnologia. Aos 16 anos, ingressou na Stanford University com bolsa da Fundação Estudar para o curso de Ciências da Computação. Passou pelo Vale do Silício, trabalhou na Stone durante a pandemia e decidiu não retornar para concluir a graduação. Aos 19 anos, fundou a Praso, em Recife, ao lado de seu sócio e atual CTO, Fernando Hilfinger — também dropout, mas de Yale.

A empresa nasceu em dezembro de 2021 com a proposta de digitalizar o atacado B2B, começando pelo abastecimento de pequenos e médios restaurantes — um mercado estimado em mais de R$ 250 bilhões por ano no Brasil e ainda majoritariamente offline, concentrado em Ceasas, atacarejos e distribuidores tradicionais.

Em quatro anos, já são mais de 10 mil restaurantes atendidos, com operação em Pernambuco, Ceará e Paraíba. São cerca de 130 funcionários e receita anual superior a R$ 300 milhões, com run rate acima de R$ 320 milhões. O sonho grande é chegar ao primeiro bilhão nos próximos dois anos.

“É um mercado enorme e muito pouco digitalizado. A gente ainda está começando”, diz. “Nas cidades onde operamos, nossa participação é pequena e existe espaço relevante para crescer antes mesmo de abrir novas praças.”

Olho no mundo real

A ideia da Praso não nasceu em um laboratório de inovação, mas da convivência com a indústria tradicional.

Vendo os desafios enfrentados pelas empresas regionais de alimentos — como a dependência excessiva de grandes varejistas, margens pressionadas e pouca capilaridade logística própria —, Samuel decidiu levar a digitalização para um mundo ainda pouco explorado e onde bares e restaurantes gastavam tempo e dinheiro comprando de forma fragmentada, com pouco acesso a crédito estruturado.

“O varejo se digitalizou muito nos últimos 15 anos. O atacado não”, afirma. “O pequeno comerciante passou a vender online, aceitar pagamento eletrônico e antecipar recebível. Mas a compra dele continuou offline.”

Empresas como Mercado Livre e iFood são exemplos da transformação quando o assunto é consumo — seja no comportamento do cliente ou na logística sofisticada por trás das entregas quase instantâneas. Já o B2B permaneceu analógico. Uma realidade que a Praso pretende mudar construindo infraestrutura digital para o atacado.

Até o momento, o modelo combina marketplace, logística e oferta de crédito. Segundo o fundador, a empresa consegue operar com eficiência superior à dos distribuidores tradicionais, que trabalham com margens de 3,5% a 4%.

“Hoje entregamos cerca de 2,5 vezes a margem operacional de um distribuidor offline”, afirma. “A tecnologia nos permite operar com menos ativos, tomar decisão com dados e estruturar melhor preço, crédito e logística.”

A companhia estruturou dois centros de distribuição — em Recife e Fortaleza — e ainda tem baixa penetração nas praças em que atua: entre 8% e 10% de participação no Recife e menos de 5% na região metropolitana de Fortaleza. “Só em Recife ainda dá para multiplicar bastante o tamanho antes de pensar em expansão.”

A iniciativa tem atraído investidores de peso. Desde a fundação, a Praso já levantou US$ 24 milhões em rodadas seed e Series A. Entre os investidores estão Base Partners, Valor Capital Group e NFX, além de nomes como Feroz Dewan e um family office ligado a Tasso Jereissati.

“A maioria dos nossos investidores nunca tinha ouvido falar de Recife ou Fortaleza”, diz. “Era uma aposta muito mais na tese e no time do que em histórico, porque a gente ainda não tinha receita nem produto.”

No início, a aposta foi essencialmente no fundador e a confiança estava nos cérebros por trás do projeto. A herança familiar influenciou a estratégia. Diferentemente de muitas startups que priorizam crescimento a qualquer custo, a Praso buscou eficiência cedo. A empresa atingiu o breakeven em 2025, menos de quatro anos após a fundação.

“Depois do breakeven, temos menos necessidade de capital externo e conseguimos crescer bastante com capital próprio”, afirma o empresário, que vê na expansão inteligente o futuro do negócio.

O plano até 2030 é atingir mais de R$ 3 bilhões em receita. Para isso, a companhia se prepara para operar em novas localidades ao longo deste e do próximo ano.

Além da expansão geográfica, a aposta é na tecnologia — DNA do projeto. A empresa está estruturando um time dedicado à inteligência artificial para personalização de preços, recomendação de produtos e automação de crédito. “Daqui a cinco anos, toda empresa tradicional vai usar IA no dia a dia. A gente quer largar na frente.”

A estratégia passa por usar dados proprietários de compra para prever demanda, reduzir ruptura de estoque e estruturar crédito com base em comportamento transacional — substituindo o modelo tradicional de decisão “no olho” por análise orientada por dados e criando uma camada de inteligência sobre um setor que historicamente operou com pouca informação estruturada.

No fim do dia, a ambição é transformar o ato do abastecimento de um estabelecimento em uma experiência digital recorrente e previsível, mesmo operando em um setor historicamente fragmentado e pouco sofisticado tecnologicamente.

Nordeste por escolha

Quando se pensa em startups de tecnologia, pode ser que São Paulo ou o Vale do Silício apareçam como as opções mais óbvias dos fundadores — mas não para a dupla da Praso.

A decisão de começar em Recife foi estratégica e simbólica. “O Nordeste exporta muito talento. A gente queria fazer o movimento inverso”, explica Samuel. “Dá para construir algo grande partindo daqui.”

Em uma região com menor oferta de capital e poucas startups, a empresa passou a funcionar como um polo de atração de jovens talentos interessados em construir algo de escala fora do eixo tradicional — invertendo um fluxo histórico da “fuga de cérebros”.

Hoje, a Praso reúne profissionais formados em universidades internacionais e empresas de tecnologia que optaram por se mudar para a região. Para ele, esse é um dos maiores ativos da companhia.

Aos 23 anos, ele reconhece que seu papel mudou desde o início do projeto. De operador “mão na massa”, passou a atuar mais em estratégia, cultura e formação de lideranças. O horizonte de pensamento não é de 1 ou 2 anos e sim 40 ou 50.

“O que faz você sair de zero para R$ 300 milhões não é o que faz você sair de R$ 300 milhões para R$ 1 bilhão”, completa.

[Fonte Original]

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