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terça-feira, março 17, 2026

Por muito que se disser, o fado é canção bairrista – Revista Cult

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Por muito que se disser
O Fado é canção bairrista
Não é fadista quem quer
Mas sim quem nasceu fadista
(“Antigamente/Fado Antigo”, Manuel de Almeida, recentemente gravado por Gisela João)

Há cidades que se deixam ver. Outras, ouvir. Lisboa, aprendi com o tempo, não se oferece ao olhar apressado: ela sussurra. É preciso caminhar devagar, aceitar as ladeiras, escutar os becos, perceber quando o som que vem de uma janela não é música de fundo, mas memória em exercício.

Foi assim que cheguei ao fado, não como gênero musical, mas como território. Não como espetáculo, mas como prática cotidiana de pertencimento. Por muito que se diga que o fado é canção nacional, símbolo de Portugal ou patrimônio do mundo reconhecido pela UNESCO, ele continua sendo, antes de tudo, canção bairrista, um modo particular de certos bairros de Lisboa falarem de si, de sua história, de sua gente, de seus amores e de suas feridas.

Alfama, Mouraria e Bairro Alto não são apenas cenários do fado. São parte constitutiva dele. O fado não nasceu em estúdio, nem em palcos iluminados. Nasceu no atrito, entre o rural e o urbano, entre o que chega e o que resiste, entre o que se perde e o que insiste em ficar. Nasceu nos bairros onde a cidade apertava mais forte, onde pobreza, migração, trabalho duro e vida noturna se encontravam sem pedir licença.

Durante muito tempo, o fado foi acusado. Canção de vadios, de marginais, de gente sem ofício, diziam. Talvez porque sempre foi uma música que falava do que não se queria ouvir. Falava de abandono, de desejo, de injustiça, de saudade. Falava de destino, mas nunca de forma abstrata, falava do destino de alguém, em algum lugar muito concreto da cidade.

A Mouraria costuma ser chamada de berço do fado. E não é por acaso. Seu traçado irregular, suas ruas estreitas, seu histórico de acolhimento, forçado ou não, de populações diversas fizeram do bairro um verdadeiro laboratório urbano. É ali que emerge a figura mítica de Maria Severa, personagem fundadora do fado e símbolo de algo que a história, muitas vezes, tentou apagar: a primazia feminina na gênese do gênero. O fado nasce pela voz de uma mulher, assim como o samba, no Rio de Janeiro, se organiza em torno de mulheres como Tia Ciata. Em ambos os casos, são mulheres que abrem a casa, a rua e o corpo para que a música exista. Caminhar pela Mouraria é perceber que o fado não é apenas ouvido; ele é sinalizado, marcado, inscrito no espaço. Está nas paredes, nas festas, nos tributos, nos percursos quase rituais que o bairro desenha para quem sabe prestar atenção.

Alfama, por sua vez, é o território onde o fado se espraia. Talvez por isso seja hoje o bairro mais associado a ele. Ali, o fado se confunde com o som da cidade, com o pregão dos vendedores, com os passos na calçada, com o tilintar dos copos, com a fricção do elétrico nos trilhos, deslizando apertado pelas ruas e vielas, com o eco da voz que sobe a colina até o Castelo de São Jorge. Alfama é um bairro que canta mesmo quando ninguém está cantando. Mas é também o lugar onde essa paisagem sonora vem sendo tensionada. O turismo, a institucionalização e a estetização do fado criaram novas formas de escuta, nem sempre compatíveis com a experiência afetiva que o bairro produziu por décadas.

O Bairro Alto ocupa um lugar ambíguo nessa história. Foi ali que o fado se tornou profissão, que ganhou regras, horários, censura e enquadramento. Foi ali que o Estado conseguiu controlar o que, nos outros bairros, escapava. Ao mesmo tempo, foi também um espaço de boemia, de encontro entre artistas, jornalistas, poetas, notívagos. Hoje, o Bairro Alto parece viver outra virada, menos fado, mais consumo; menos escuta, mais ruído. Ainda assim, resistem ali algumas casas, alguns intérpretes, alguns gestos que insistem em lembrar que o fado não nasceu para ser trilha sonora de jantar apressado.

O que une esses três bairros lisboetas, por onde o fado ainda vaga, às vezes deliberadamente, às vezes à revelia, é o processo de gentrificação e turistificação que os atravessa. Um processo que não assola apenas Lisboa, mas tantas outras cidades. Também São Paulo, a maior metrópole da América Latina, vive seu frenético e especulativo movimento de verticalização, que vem matando bairros, vidas e sociabilidades, justamente aquelas que fazem a cidade pulsar e ser quem é.

Talvez o que mais me interesse no fado seja exatamente isso, sua capacidade de territorializar afetos. O fado transforma rua em lugar, bar em refúgio, bairro em extensão do corpo. Ele cria o que a geógrafa Aureanice de Mello Corrêa chama de paisagem conivente, aquela em que o som não é apenas ouvido, mas reconhecido como parte de quem escuta e de quem pertence. Não se trata apenas de música, mas de pertencimento.

Por isso, quando se diz que o fado é tradição, é preciso cuidado. O fado nunca foi estático. Sempre negociou com o tempo, com a cidade, com o poder. O risco não está na mudança, mas no esvaziamento, na captura das práticas sociais e culturais pelo sistema capitalista, que as transforma em produto embalado e experiência pasteurizada.

Esses três bairros fizeram parte de um estudo que aprofundei em minha pesquisa de doutorado, ainda que o fado seja, talvez, o grande objeto de toda a minha trajetória acadêmica.

Lisboa continua cantando. Nem sempre nos palcos, nem sempre nas casas de fado. Às vezes canta baixo, quase em segredo. Cabe a nós decidir se queremos apenas ouvir, ou se ainda somos capazes de escutar.

Ricardo Nicolay é sociólogo pelo CPDOC/FGV, mestre em Comunicação e doutor em Geografia pela UERJ, com período sanduíche na Universidade de Lisboa, além de MBA Executivo em Marketing pela ESPM. É Gerente Artístico e de Conteúdo da plataforma Fronteiras do Pensamento, onde também coordena clubes de leitura. Pesquisa o fado há mais de quinze anos. Ouça sua playlist no Spotify.



[Fonte Original]

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