Resumo da notícia
Bitcoin passa por correção saudável, diz analista da 21Shares
Reset de alavancagem fortalece estrutura do mercado cripto
Fundamentos e demanda institucional sustentam alta futura
Maximiliaan Michielsen, analista sênior de pesquisa da 21Shares, vê o movimento atual do Bitcoin preso em um movimento lateral entre US$ 65 mil e US$ 67 mil como um “reset” necessário antes de uma nova fase de crescimento do ativo digital.
Segundo o especialista, a correção de quase 50% desde o topo em US$ 126 mil, não reflete deterioração estrutural do Bitcoin, mas sim uma reprecificação provocada pelo cenário macro global e pela redução do excesso de alavancagem nos mercados.
A análise compartilhada com o Cointelegraph, aponta que o atual período de fraqueza difere significativamente dos bear markets anteriores, tanto em intensidade quanto em características, reforçando a visão de que o mercado cripto amadureceu e se tornou mais resiliente.
Michielsen destaca que, em ciclos passados, o Bitcoin chegou a cair aproximadamente 80% após atingir máximas históricas, com níveis de volatilidade anualizada alta. No cenário atual, a criptomoeda está cerca de 45% abaixo do pico recente e apresenta volatilidade próxima de 40%, números significativamente mais moderados.
“O episódio atual é uma reprecificação macroeconômica e um reset de alavancagem, não uma deterioração dos fundamentos de longo prazo do Bitcoin”, afirma o analista. Para ele, a menor intensidade da queda reflete maior liquidez, participação institucional mais ampla e amadurecimento da estrutura de mercado.
Na avaliação do especialista, essa fase deve ser interpretada como um movimento corretivo dentro de um regime em evolução, e não como um retorno à fragilidade que marcou ciclos anteriores.
Fatores macroeconômicos explicam a pressão nos preços
A análise aponta que a queda recente do Bitcoin ocorreu principalmente devido ao ambiente macroeconômico global, e não por problemas internos do setor cripto. A desaceleração do crescimento econômico nos Estados Unidos, a persistência da inflação e a expectativa de juros elevados por mais tempo reduziram o apetite global por risco.
O Produto Interno Bruto americano do quarto trimestre desacelerou para 1,4% anualizado, abaixo das expectativas do mercado, enquanto o índice de inflação PCE permaneceu próximo de 2,9% ao ano, acima da meta do Federal Reserve. Esse cenário reforçou a perspectiva de política monetária restritiva por mais tempo, adiando expectativas de cortes de juros.
Além disso, incertezas políticas e comerciais, incluindo tensões relacionadas a tarifas globais e decisões judiciais relevantes nos Estados Unidos, aumentaram a aversão ao risco entre investidores. Segundo Michielsen, o declínio do Bitcoin coincidiu com uma redução de exposição a ativos voláteis em diversas classes de investimento.
“O ponto central é que não houve colapso na atividade ou na adoção do mercado cripto. O movimento reflete uma redução de risco global”, explica.
Mercado passou por limpeza de alavancagem
Outro elemento importante do cenário atual foi a eliminação do excesso de alavancagem no mercado de derivativos. O recuo dos preços provocou cerca de US$ 1,4 bilhão em liquidações de posições compradas e reduziu o interesse aberto em contratos futuros em aproximadamente US$ 5 bilhões.
O volume total de contratos caiu para cerca de US$ 27 bilhões, muito abaixo dos níveis superiores a US$ 65 bilhões observados em outubro. Para o analista da 21Shares, esse processo fortalece a estrutura do mercado e reduz o risco de quedas mais acentuadas no curto prazo.
“A remoção do excesso especulativo melhora a resiliência do mercado e reduz o potencial de movimentos de baixa mais severos”, afirma.
O sentimento dos investidores também retornou a níveis semelhantes aos observados no bear market de 2022, porém sem sinais de estresse sistêmico. Historicamente, segundo a análise, esse desalinhamento entre percepção negativa e fundamentos sólidos costuma anteceder períodos de estabilização e recuperação.
Fundamentos do ecossistema seguem avançando
Apesar da pressão nos preços, o desenvolvimento do ecossistema cripto continua em ritmo acelerado. A análise destaca o crescimento da oferta global de stablecoins, o avanço da integração institucional em serviços de custódia e tokenização e a expansão do uso da Lightning Network como infraestrutura de pagamentos.
Michielsen ressalta que o capital dentro do setor se tornou mais seletivo, direcionando recursos para projetos com utilidade real e geração consistente de receita. Essa mudança indica maior maturidade do mercado e reforça a tese de crescimento estrutural do setor.
“Volatilidade de preço não equivale a deterioração fundamental. O desenvolvimento continua avançando por baixo da superfície”, afirma.
A análise também aborda o desempenho superior do ouro em relação ao Bitcoin nos últimos meses. Segundo o especialista, a preferência pelo metal precioso reflete uma busca de curto prazo por ativos considerados politicamente neutros, impulsionada principalmente pela compra contínua de bancos centrais, especialmente da China.
Restrições ao acesso ao Bitcoin em algumas economias criam uma assimetria temporária que favorece o ouro. No entanto, Michielsen afirma que essa diferença não representa enfraquecimento da tese do Bitcoin como reserva de valor.
“A diferença atual reflete acesso e timing, não uma erosão estrutural do valor do Bitcoin”, explica. Segundo ele, mesmo uma pequena migração de capital do ouro para a criptomoeda poderia gerar forte impacto positivo nos preços.
Demanda institucional permanece sólida
Os dados de investimentos institucionais também reforçam a visão construtiva da 21Shares. Apesar da queda de preços, os ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram redução de apenas cerca de 5% nas posições desde o pico do ciclo. Na Europa, os produtos negociados em bolsa ligados ao ativo acumulam mais de US$ 1 bilhão em entradas líquidas desde a máxima histórica.
Além disso, empresas, fundos e entidades ligadas a governos absorveram Bitcoin em ritmo mais de cinco vezes superior à nova emissão da moeda no último ano. Para o analista, esse comportamento reflete posicionamento estratégico de longo prazo e reduz a pressão vendedora estrutural.
A análise conclui que o Bitcoin atualmente negocia próximo do custo médio agregado dos investidores e da média móvel de 200 semanas, uma região historicamente associada a fortes ciclos de valorização. O ativo passa pouco tempo nessa faixa de preço, e interações anteriores com esse nível precederam períodos prolongados de alta.