“A esperança é a coisa com plumas que pousa na alma e canta sem palavras”, escreveu Emily Dickinson. Para nós, essa imagem não é metáfora distante. Ela habita o cotidiano de quem vive entre o rigor de um laboratório e a urgência de um corpo que conhece, na própria pele, o que significa esperar.
- Ludhmila Hajjar: Polilaminina, quando a esperança atropela a ciência
O presente nos convoca a um dilema antigo e sempre atual: o tempo da ciência não é o mesmo tempo da dor. A ciência exige método, repetição, cautela. A vida, porém, acontece agora. E, quando há sofrimento extremo, cada dia pesa como uma eternidade.
Há mais de 25 anos, um trabalho persistente desenvolvido na Universidade Federal do Rio de Janeiro se dedica ao estudo da polilaminina — uma proteína extraída da placenta humana, tecido que a natureza descarta, mas que carrega potencial extraordinário. A polilaminina atua como um guia para o sistema nervoso, favorecendo a regeneração neural. Não é milagre. É ciência. E os resultados observados até aqui, em modelos experimentais e aplicações específicas, emocionam.
Eu, Tatiana, cientista, compreendo profundamente a necessidade de validação rigorosa. Eu, Mara, mulher tetraplégica e parlamentar, conheço a angústia de quem espera por qualquer possibilidade de recuperar movimentos, autonomia e dignidade. Andar, abraçar, alimentar-se sozinho. Nossa esperança de que isso possa acontecer não é excesso. É parte da condição humana.
Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início dos estudos clínicos de fase 1 da polilaminina, passo histórico e responsável. A decisão reconhece a solidez da pesquisa desenvolvida no Brasil e reafirma o papel essencial da agência como guardiã da segurança, do rigor científico e da ética. Trata-se de autorização para testar a segurança da substância em humanos — não de liberação comercial —, dentro dos mais altos padrões regulatórios.
Paralelamente, decisões judiciais têm autorizado aplicações compassivas da polilaminina em casos graves e urgentes. Até o momento, ao menos 19 aplicações foram realizadas no país, sem registro de reações adversas. Um desses casos é o da nutricionista Flávia Bueno, que sofreu lesão medular gravíssima após um mergulho e, dias após a aplicação, apresentou movimentação do braço direito, algo que antes não ocorria. Cada caso é único, cada resposta é individual, e a ciência é clara ao afirmar que os resultados podem variar e dependem, entre outros fatores, de reabilitação intensiva.
O laboratório Cristália, parceiro da pesquisa, tem produzido a substância sem qualquer cobrança, exclusivamente para uso em estudos e aplicações autorizadas, reforçando o compromisso ético com a pesquisa e com os pacientes. Não há venda da polilaminina, nem uso fora desse contexto controlado.
Nada disso é obra de uma única pessoa. É uma construção coletiva, que envolve pesquisadoras incansáveis, além do legado de mestres e a coragem de neurocirurgiões. Sem contar o trabalho essencial da reabilitação conduzida por profissionais dedicados e a visão de quem aposta na ciência nacional.
Entre a razão que pede tempo e a dor que pede agora, seguimos avançando com responsabilidade, humanidade e coragem. A esperança não garante finais perfeitos, mas sustenta o caminho. E a ciência brasileira, quando respeitada, apoiada e bem conduzida, é capaz de transformar esperança em movimento.
Teimosia para seguir tentando nunca nos faltou. É assim que a ciência avança. É assim que a vida insiste.
*Tatiana Coelho de Sampaio é pesquisadora, Mara Gabrilli é senadora (PSD-SP)