O relógio geopolítico marcou uma hora crítica no início de março de 2026. A escalada das tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã impulsiona uma reconfiguração nos fluxos globais de capital. E, nesse cenário de aversão ao risco, é possível identificar quem ganha e quem perde nessa guerra.
Segundo Luís Ferreira, CIO do EFG Private Wealth Management, os exportadores líquidos de energia serão os primeiros beneficiados. Noruega e Canadá podem lucrar muito mais com suas reservas. Ferreira pontua que “entram mais dólares e o quadro fiscal ganha tração”.
Enquanto Beny Fard, especialista em negócios internacionais, analisa que “quem pode sair perdedor dessa história toda é a China, que teve ascensão histórica ao ocupar o espaço deixado pela então União Soviética extinta na década de 90, fazendo contraposição antagônica à potência norte-americana”.
Do lado dos vencedores
De acordo com a EIA (U.S. Energy Information Administration), responsável pelo Relatório de Perspectivas Energéticas de Curto Prazo, o Canadá já viu seus lucros aumentarem de 2024 para 2025 com as exportações de petróleo: o registro foi de US$ 147 bilhões para US$ 155 bilhões, com os EUA como os maiores compradores da commodity. A Noruega, que abastece grande parte da Europa, vendeu cerca de US$ 44 bilhões em 2025 em exportações.
De acordo com especialistas, a expectativa é que esse número cresça. O próximo relatório de perspectivas energéticas de curto prazo da EIA deve ser divulgado em março deste ano.
Os Estados Unidos, apesar de sofrerem com a inflação interna, é hoje um dos maiores produtores mundiais de gás xisto e deve ver seus lucros dispararem. Além disso, o dólar e os títulos do tesouro voltaram a ser o refúgio seguro de investidores globais.
Na América Latina, o Brasil é um país exportador líquido de petróleo e está geograficamente isolado do conflito. A Petrobras e a balança comercial brasileira tendem a lucrar com o barril acima de US$ 80, mas podem sofrer com o impacto inflacionário interno nos combustíveis.
Paralelamente, Fard enxerga uma janela de oportunidade histórica na possível queda de regimes sancionados. Para o especialista, a estratégia de Trump visa retomar a hegemonia energética do ocidente. “A abertura do Irã ao mercado de capitais criaria um mercado trilionário”, afirma.
Outros setores beneficiados
A projeção para o câmbio é que o dólar americano e o franco suíço reafirmem seu status de “safe havens”, atraindo liquidez global em detrimento de moedas periféricas.
A indústria de defesa e segurança também terá mais demandas, e potências como EUA, França e Alemanha veem suas cadeias de inteligência, cibersegurança e aeroespacial operarem em terreno fértil.
Outro grupo que pode sair em vantagem é o dos países com forte capacidade de exportação em saúde e bens essenciais.
Neste cenário de crise, polos farmacêuticos e de biotecnologia (como Suíça e Alemanha), e grandes cadeias produtivas (como México), tendem a se beneficiar do aumento da demanda por suprimentos e estoques de itens de consumo.
O fator China
O comércio exterior iraniano, que oscila entre US$ 100 bilhões e US$ 130 bilhões em exportações, encontrou na Ásia seu pulmão financeiro. “A China se beneficiou por décadas do petróleo barato do Irã, além de uma série de outras características, o que impulsionou a economia chinesa ao longo de décadas”, explica Fard.
O país de Xi Jinping absorve, além dos US$ 14,57 bilhões em exportações oficiais (petroquímicos e minérios), cerca de 90% do petróleo bruto iraniano através de uma “frota fantasma” de navios-tanque que operam fora do radar do sistema SWIFT.
Essa parceria, no entanto, torna a China a principal “refém energética” em caso de conflito total, já que sua economia funciona com uma engrenagem movida pelo petróleo barato.
Como maior importadora mundial, a China não possui autossuficiência e depende do Estreito de Ormuz para manter o fluxo de quase metade de seu suprimento externo; qualquer interrupção nesse caminho força o país a comprar energia a preços inflacionados.
As estimativas de analistas e consultorias como Oxford Economics e Kpler sugerem que o impacto pode ser dividido em três escalas de gravidade: no PIB, que pode recuar mais de 1 ponto percentual devido a um custo adicional de importação superior a US$ 200 bilhões anuais com o barril a US$ 120; na perda do “subsídio iraniano”, que anula economias de até US$ 15 bilhões obtidas via petróleo sancionado e barato; e a asfixia da competitividade industrial, onde a alta nos custos de refino e logística marítima encarece a produção da “fábrica do mundo”, comprimindo margens de lucro e alimentando uma inflação de custos que desestabiliza o mercado interno e as exportações globais.
Outros lados prejudicados
O cenário é severo para os importadores líquidos de energia. Economias avançadas como Japão e Coreia do Sul, que dependem do Oriente Médio para mais de 80% de seu suprimento de petróleo, segundo a IEA, enfrentam um choque de oferta que comprime a renda real e desvaloriza o Iene e o Won frente ao dólar.
Contudo, o maior risco reside nos emergentes: a Turquia, que o déficit em conta corrente é historicamente sensível ao preço do Brent, e o Iraque, que, apesar de produtor, ironicamente depende de cerca de US$ 4 bilhões anuais em importações de gás iraniano para manter sua rede elétrica funcional (dados do Fundo Monetário Internacional, o FMI).
Países como Egito e Argentina, já baqueados por altas dívidas em moeda estrangeira, entram em “zona de cuidado máximo” devido ao encarecimento do serviço da dívida e do frete marítimo.
No Brasil, o fluxo direto com o Irã é concentrado em exportações de milho e soja, totalizando aproximadamente US$ 2,2 bilhões em 2024, segundo o Comex Stat. Por isso, o alerta principal recai sobre a segurança alimentar global: o Irã é um player estratégico na logística de ureia e fertilizantes nitrogenados, e um “apagão” no Golfo Pérsico elevaria os custos de produção no Centro-Oeste brasileiro, gerando um efeito dominó de inflação nos alimentos (IPCA) que pressionaria a política monetária nacional.
Análise EFG
O relatório do EFG Private Wealth Management, publicado no último dia 2, aponta que o cenário mais provável é de um conflito de curta duração, com Trump buscando um cessar-fogo para mitigar o desgaste político interno.
Ainda assim, o gargalo é físico: com o Estreito de Ormuz sob pressão, por onde passa o fluxo vital de energia para a Ásia, fretes e seguros marítimos continuarão encarecendo, provando que, na geopolítica moderna, a economia não é apenas um reflexo da guerra, mas sua principal munição.