Em meio a novos ataques do Irã a países vizinhos e a sinais de que o conflito com os Estados Unidos pode se prolongar, a aversão a risco voltou a ganhar força nesta quinta-feira, o que afetou diretamente o Ibovespa. Depois de iniciar em queda moderada, o índice ampliou as perdas ao longo do dia. A disparada nos preços de petróleo pressionou as curvas de juros ao redor do globo, o que atingiu em cheio ativos de risco.
No pior momento do pregão, a principal referência acionária local chegou a perder os 180 mil pontos, mas o Ibovespa se afastou das mínimas durante a tarde. O movimento local espelhou as bolsas americanas, que se distanciaram do piso visto na sessão. No fim, o Ibovespa encerrou em queda expressiva de 2,64%, aos 180.464 pontos, após oscilar entre os 179.895 pontos e os 185.366 pontos.
Em meio a um cenário de aumento do prêmio de risco global, blue chips não escaparam e cederam em bloco: as ON da Vale perderam 3,33%; e o destaque negativo entre os bancos ficou para as units do BTG Pactual, que exibiram baixa de 4,58%.
Antes da apresentação do balanço da Petrobras, que acontecerá nas próximas horas, as ações da petroleira fecharam mistas: as ON cederam 0,20%, ao passo que as PN subiram 0,47%, indicando que houve venda do papel por parte de investidores estrangeiros.
Para o co-gestor da Norte Asset Management, Rafael Furlan, o tombo nos mercados hoje é reflexo da percepção de que a guerra entre Estados Unidos e Irã será mais extensa do que o previsto, o que leva a uma elevação nos preços de petróleo. Como consequência, a alta da commodity alimenta um ambiente de maior inflação e de maior necessidade de manutenção dos juros em patamar elevado, o que pesa sobre ativos de risco.
Outro fator que contribuiu para a forte queda dos ativos de risco hoje está ligado a um movimento conhecido como “degrossing”, em que fundos reduzem a sua exposição bruta ao mercado. Assim como ocorreu na terça-feira, quando os mercados passaram por um dia de sangria, os fundos aproveitaram o pregão para vender os ativos em que estavam comprados (apostando na alta) com o objetivo de comprar os ativos em que estão vendidos (apostando na queda).
“O investidor vende o ativo que está long [posição comprada] e compra o ativo que está short [alocação vendida] para diminuir um pouco do risco e das posições [na carteira]. Aquilo que o pessoal estava mais exposto está caindo mais do que aquilo que o pessoal estava vendido”, observa o executivo da Norte Asset.
Prova disso, diz o gestor, é que ações como as da Vale estão cedendo bem desde a eclosão da guerra. No acumulado da semana, os papéis da mineradora já recuam 8,12%. “Metais eram vencedores. Ouro, cobre e Vale estavam subindo. Todas as commodities metálicas estavam indo bem e todas elas caíram bastante agora.”
Outro “trade” que foi afetado nesta semana foi o de mercados emergentes versus mercados desenvolvidos. Ao contrário do que ocorreu desde o fim do ano passado e começo deste ano, bolsas de países emergentes tiveram desempenho pior do que mercados acionários de nações desenvolvidas.
Ainda que mercados emergentes tenham sido mais afetados por exibirem um prêmio de risco mais elevado do que países desenvolvidos, Furlan defende que a narrativa de diversificação para fora dos Estados Unidos está mantida, o que pode favorecer a bolsa brasileira e o real. “Os investidores estão procurando ativos reais. O Brasil tem uma bolsa muito focada em commodities e bancos. São coisas tangíveis”, afirma.
Na visão do executivo, a alta do dólar é “pontual”, impulsionada pela combinação de um ambiente de guerra, maior aversão a risco e instabilidade.
O gestor observa que a política comercial agressiva do presidente americano, Donald Trump, oferece um pouco de confiança de que o dólar possa voltar a perder força globalmente, assim que passar a forte aversão a risco. Além disso, ele pondera que o fiscal americano está “muito ruim”, o que está fazendo com que os investidores fiquem mais receosos de colocar dinheiro apenas nos EUA, o que tende a reforçar a tese de enfraquecimento da moeda americana globalmente.
Hoje, o volume financeiro negociado pelo Ibovespa foi de R$ 24,8 bilhões e de R$ 32,6 bilhões na B3. Da mesma forma, os principais índices americanos encerraram no negativo, embora tenham se afastado das mínimas perto do fechamento: no fim, o Dow Jones cedeu 1,61%; o S&P 500 recuou 0,56%; e o Nasdaq perdeu 0,26%.