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sábado, março 7, 2026

Crítica | O Mundo de Edena – Vol.5: SRA – Plano Crítico

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Dezoito separam a encomenda publicitária feita pela Citroën a Moebius, em 1983, da publicação de SRA pela Casterman, em setembro de 2001. Quase duas décadas nas quais dois mecânicos espaciais, inicialmente sem gênero definido, viraram homem e mulher, cruzaram florestas infinitas, escaparam de tiranias subterrâneas e se perderam um do outro (para sempre?) em nome de uma busca que o próprio autor talvez não soubesse onde terminaria. É com esse peso de expectativa acumulada que chegamos ao quinto e último volume da narrativa principal de O Mundo de Edena (e formulo a frase desse jeito porque ainda existe um volume 6, chamado Os Consertadores, que, embora tenha os mesmos personagens, não integra a saga principal) e o primeiro impacto é de deslumbramento: as páginas de SRA são, sem exagero, as mais bonitas que Moebius produziu para toda a série. O retorno pleno ao traço intricado e hachurado dos tempos de A Garagem Hermética, somado à colorização de Claire Champeval, faz de cada prancha um deleite para os olhos. A beleza, porém, como qualquer admirador do artista sabe, pode ser uma armadilha tão perfeita como as da Paterna para Atana e Stel.

O protagonista, agora sozinho e obcecado pelo reencontro com sua amada, chega à cidade que dá nome ao álbum — um vilarejo olofeno, palavra que no universo de Edena designa como um lugar reservado a “homens desligados de velhas obrigações“. A descrição pode soar mística, e é, mas o que Moebius constrói com esse cenário é uma crítica minuciosa aos meios de controle que toda comunidade organizada precisa impor para se manter de pé. Para conseguir qualquer coisa em SRA, Stel conversa, joga, pondera, aceita termos e até se submete a protocolos com os quais ele discorda. A Paterna, que nos volumes anteriores aparecia como entidade sobrenatural, aqui se manifesta de um jeito muito mais reconhecível (atuante direto na realidade de Edena), o de uma burocracia onipresente que vigia e condiciona cada gesto dos habitantes. Existe um plano revolucionário tramado nas sombras, aliados clandestinos, vozes abafadas de dissidência, e essa tensão entre a ordem visível e a revolta escondida é o combustível narrativo mais potente do álbum. Quando a história está nessa base, lembra a ficção paranoica que Philip K. Dick escrevia nos anos 1960, e prende o leitor sem muito esforço.

A variedade arquitetônica do tomo impressiona na mesma medida. Moebius desenha fachadas de pedra crua sob um sol esturricante que lembram cenários de faroeste italiano, e na página seguinte coloca estruturas orgânicas com tubulações meio vivas, superfícies tentaculares e edifícios que causam claustrofobia, num cruzamento aproximado entre cyberpunk e biopunk que só a imaginação dele conseguiria tornar coerente. Cada cenário carrega uma quantidade absurda de informação gráfica sem nunca perder a clareza da composição, e é impossível folhear SRA sem parar a cada dois ou três quadros para absorver as imagens. O problema vem no terço final. Toda essa tensão bem amarrada cai quando o autor insere uma camada fora do sonho (e após tudo se resolver) que redefine tudo o que acompanhamos até ali. A ideia de que Stel estava preso numa armadilha onírica provocada por um vírus específico é um balde de água fria descomunal. Há um aceno de que Edena talvez exista de verdade, e a ação derradeira confirma essa possibilidade, porém o estrago na confiança de quem lê já aconteceu.

O tropeço de SRA é menos narrativo que filosófico. Moebius disse certa vez que o futuro não é predestinado, que ele é criado pelas ações e pelos sonhos de cada pessoa, e que podemos navegar rumo a Edena ou rumo ao mundo demoníaco da Paterna. Essa frase, linda no papel, deveria ser o coração do desfecho. Ao quebrar essa jornada com explicações matemáticas e biológicas, porém, o autor sabotou a própria tese: se tudo pode ser sonho, o peso das escolhas de Stel e Atana diminui, e a recompensa pela travessia aparece acuada, envergonhada, depois de ter sido negada com brutalidade. É uma contradição que toca num dilema antigo da filosofia, o mesmo que Platão colocou na caverna e que Descartes reformulou com seu gênio maligno: como distinguir a realidade da ilusão, e, sobretudo, isso importa quando o caminho percorrido já nos transformou? SRA é, quadro a quadro, um trabalho gráfico aplaudível. Como desfecho, porém, esbarra onde mais importava: na coragem de confiar nas especificidades e constituição do próprio mundo que ergueu.

O Mundo de Edena – Vol.5: SRA (Les mondes d’Edena: SRA) — França, 2001
Roteiro:
Moebius
Arte: Moebius
Cores: Claire Champeval
Editora original: Casterman
No Brasil: Editora Nemo, 2014
Tradução: Fernando Scheibe
66 páginas



[Fonte Original]

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