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segunda-feira, março 9, 2026

10 Mulheres que Estão Alimentando o Futuro e Regenerando o Planeta

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Neste domingo, 8 de março, o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher em um cenário que traz também uma tarefa: a ONU declarou 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. O cenário do agronegócio global atravessa uma transformação sem precedentes, onde a busca pela segurança alimentar e a resiliência climática deixaram de ser pautas acessórias para se tornarem o núcleo da estratégia econômica das nações.

Na agricultura e na pecuária, as mulheres não são mais coadjuvantes de uma herança familiar, mas as arquitetas onde se encontram a precisão tecnológica, a biotecnologia de ponta e um compromisso inegociável com a regeneração ambiental.

A lista Forbes a seguir destaca dez personalidades que personificam essa liderança em 2026. Da fronteira da edição genômica na China à microbiologia tropical no Brasil, passando pela diplomacia nos corredores da FAO e pelo fortalecimento do cooperativismo digital na África, essas mulheres estão redesenhando a cadeia de valor do campo.

As mulheres representam cerca de 40% da força de trabalho agrícola mundial e provam que a eficiência do setor no século 21 depende, fundamentalmente, da derrubada de barreiras históricas de gênero e do investimento em ciência aplicada e inovação liderada por elas.

Confira quem são essas mulheres que estão definindo o agro mundial hoje.

1. Beth Bechdol (EUA)

Área de atuação: Diplomacia e Governança Internacional

Beth Bechdol ocupa a vice-direção-geral da FAO em um momento em que a agricultura enfrenta dois problemas simultâneos: produzir mais alimentos para uma população crescente e distribuir melhor quem produz esses alimentos. Ela representa a conexão entre esses dois eixos.Criada em uma fazenda de grãos em Indiana, construiu carreira no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e no setor privado antes de chegar à ONU. Essa trajetória deu a ela trânsito entre governos, empresas e comunidades rurais, uma combinação que poucos nomes na diplomacia alimentar global reúnem.

Na FAO, Bechdol supervisiona emergências alimentares, mobilização de recursos e cooperação entre países do Sul Global. Mas o trabalho que define sua posição atual é a coordenação do Ano Internacional da Mulher Agricultora 2026. As mulheres respondem por 43% da mão de obra agrícola no mundo e produzem cerca de metade dos alimentos consumidos globalmente e ainda assim enfrentam bloqueios no acesso à terra, crédito e tecnologia.

Bechdol defende que o Ano Internacional não se limite a debates: o objetivo é que políticas nacionais, parcerias comunitárias, pesquisa e investimento se convertam em resultados verificáveis. Na prática, isso significa pressionar governos por dados desagregados por gênero, ampliar o acesso à mecanização agrícola e levar conectividade digital a regiões remotas, ferramentas sem as quais a produtividade rural não avança.Seu peso global vem da capacidade de transformar agenda em estrutura.

2. Mariangela Hungria (Brasil)

Mariângela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja
D.NetoMariângela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja

Área de atuação: Microbiologia e Sustentabilidade de Escala

Mariangela Hungria passou quatro décadas na Embrapa Soja estudando o que a maioria da ciência ignorava: as bactérias do solo. Quando começou a carreira, nos anos 1980, a fixação biológica de nitrogênio era um campo sem prestígio e sem financiamento. Ela foi na direção contrária.

A premissa do trabalho dela é que certas bactérias do solo formam relações simbióticas com as plantas, capturando nitrogênio do ar e disponibilizando para as raízes. Isso substitui, total ou parcialmente, a necessidade de fertilizantes sintéticos.

O resultado não ficou no laboratório. As tecnologias que ela desenvolveu cobrem mais de 40 milhões de hectares no Brasil, gerando uma economia de US$ 25 bilhões por ano para os produtores e evitando a emissão de 230 milhões de toneladas de CO2 equivalente.Para a pecuária, a contribuição veio por outro caminho.

Ela desenvolveu o primeiro inoculante para pastagens de gramíneas, resultando em um aumento de 22% na biomassa, o que significa forragem com mais nutrição para o gado.

Sua primeira laureada brasileira do World Food Prize 2025 é também a primeira mulher brasileira a receber o título, mas o número que resume o alcance do trabalho dela é outro: o Brasil se tornou o maior produtor e exportador de soja do mundo, e as tecnologias de Hungria estão na base desse resultado. Ela chama o que faz de uma Revolução MicroVerde. Os dados confirmam.

3. Priscila Vansetti (Brasil)

Prisciala Vansetti, da Corteva Agriscience
ReproduçãoPrisciala Vansetti, da Corteva

Área de atuação: Estratégia Corporativa e Inovação Industrial

Priscila Vansetti entrou na DuPont em 1981, em São Paulo, como a primeira mulher contratada pela divisão de agricultura da empresa. O que veio depois foi uma sequência de cargos que nenhuma mulher havia ocupado antes: diretora de operações na América Latina, presidente da DuPont do Brasil e, na Corteva, vice-presidente com responsabilidade sobre um portfólio de proteção de cultivos que movimenta 6,2 bilhões de dólares ao ano.

Ela liderou operações de pesquisa e desenvolvimento, construiu capacidade técnica em múltiplas organizações e conduziu a expansão de negócios em mercados emergentes e desenvolvidos ao redor do mundo. Na Corteva, a atuação dela avançou para biológicos, área em que a empresa fechou parcerias para levar bioprodutos a agricultores na Europa, América Latina e Ásia.

O que conecta toda essa trajetória é a formação de origem: ela foi a primeira mulher a se formar como valedictorian em engenharia agronômica na Universidade de São Paulo. Saiu do Brasil com um diploma e construiu carreira em quatro continentes sem abandonar a agenda de quem vem a seguir, puxando outras mulheres para dentro de um setor que ainda resiste à presença feminina nos andares de cima.

Sua importância global está na prova de que estratégia corporativa e ciência aplicada ao campo podem andar juntas sob comando de uma engenheira do interior paulista.

4. Ismahane Elouafi (Marrocos)

Ismahane Elouafi, do CGIAR
Divulgação/FAOIsmahane Elouafi, do CGIAR

Área de atuação: Segurança Alimentar em Climas Áridos

Ismahane Elouafi cresceu no Marrocos e treinou para ser pilota de caça antes de mudar o curso para as ciências agrárias. Essa trajetória de ruptura com o esperado se tornaria um padrão. Ela foi para a Espanha, doutorou-se em genética pela Universidade de Córdoba e passou as décadas seguintes trabalhando em lugares onde a agricultura não devia funcionar e onde ela faz questão de provar que pode.

Seu trabalho com halófitas como quinoa e salicórnia teve impacto concreto na segurança alimentar de países que enfrentam problemas de salinidade no solo. A aposta nessas culturas não é retórica: são plantas que crescem em solos degradados e com água salobra, os dois recursos que o mundo vai ter em abundância com o avanço das mudanças climáticas.

À frente do Consultative Group on International Agricultural Research (CGIAR), ela lidera a rede de pesquisa agrícola com financiamento público mais abrangente do planeta, com quase 9 mil pesquisadores em mais de 80 países. O trabalho cobre segurança alimentar, nutrição e a transformação dos sistemas de produção com proteção ao ambiente.

Seu reconhecimento como uma voz global está no que ele sinaliza: a ciência aplicada a regiões áridas, por décadas tratada como marginal, passou a ocupar o centro do debate sobre o futuro da alimentação global.

5. Jennifer Clapp (Canadá)

Jennifer Clapp, pesquisadora na Universidade de Waterloo
Photo by IISD/ENBJennifer Clapp, pesquisadora na Universidade de Waterloo

Área de atuação: Economia Política e Riscos Globais

Jennifer Clapp ocupa a Cátedra de Pesquisa do Canadá em Segurança Alimentar e Sustentabilidade Global na Universidade de Waterloo e passou as últimas três décadas mapeando o problema que ninguém queria nomear: o mercado financeiro.

Sua pesquisa examina como atores financeiros atuam dentro do sistema alimentar global, como o comércio e a segurança alimentar se relacionam e como a concentração corporativa no agronegócio afeta o acesso a alimentos. Em linguagem direta: ela mostra por que o preço do trigo em Chicago pode tirar comida do prato de uma família no Sahel.

Seu livro mais recente, publicado pela MIT Press em 2025, se chama Titans of Industrial Agriculture e investiga como um punhado de corporações passou a controlar o setor agrícola global e quais são as consequências disso.

De 2019 a 2023, ela integrou o Comitê Diretor do Painel de Alto Nível de Especialistas em Segurança Alimentar e Nutrição da ONU, onde ocupou a vice-presidência nos dois últimos anos. Ou seja, o diagnóstico que ela constrói na academia alimenta diretamente as decisões de governança global.

Ela é membro da Royal Society of Canada e recebeu a Medalha Innis-Gérin por contribuições às ciências sociais. Sua importância está em traduzir a opacidade dos mercados financeiros em política pública para quem produz e para quem precisa comer.

6. Ntakirutimana Verene (Ruanda)

A produtora rural Ntakirutimana Verene ao lado do marido
Photo by UN WomenA produtora rural Ntakirutimana Verene ao lado do marido

Área de atuação: Empreendedorismo de Base e Desenvolvimento Social

Ntakirutimana Verene mora no distrito de Nyaruguru, no sul de Ruanda, uma das regiões com os índices de vulnerabilidade alimentar mais altos do país. Há alguns anos, ela dependia de uma pequena roça para sustentar três filhos.

O que aconteceu depois é o que a ONU usa como referência de transformação possível.Por meio do Programa Conjunto para o Fortalecimento Econômico de Mulheres Rurais, implementado pela FAO, IFAD, ONU Mulheres e WFP, ela teve acesso a práticas de agricultura resiliente ao clima e a um grupo de poupança com microcrédito inicial de cerca de 14 dólares.

Com esse valor, comprou sorgo, produziu e vendeu, reinvestiu o lucro, adquiriu animais e construiu capital próprio do zero.Depois de uma visita técnica a outra região, ela e o marido venderam os animais para comprar uma máquina de moagem de milho. Começaram com 50 kg. Hoje vendem farinha para a comunidade e cobrem todas as despesas domésticas com a renda gerada.

Na mesma terra que antes produzia 50 kg, ela colheu mais de 300 kg de feijão e 200 kg de milho em uma única safra, após adotar as técnicas do programa. Verene também assumiu a liderança da cooperativa local. Ela não representa uma exceção, mas o argumento de que acesso a conhecimento, crédito e tecnologia básica muda a base produtiva de comunidades inteiras.

7. Elizabeth Nsimadala (Uganda)

Elizabeth Nsimadala, produtora rural e presidente da EAFF
Photo by IISD/ENB | Matthew TenBruggencateElizabeth Nsimadala, produtora rural e presidente da EAFF

Área de atuação: Liderança Cooperativista e Digitalização

Elizabeth Nsimadala é agricultora de pequena escala em Uganda e presidente da Federação de Agricultores da África Oriental (EAFF), que reúne organizações de produtores em mais de dez países da região. Ela fala com autoridade porque planta, colhe e enfrenta os mesmos obstáculos que representa.

O centro da sua atuação tecnológica é o E-Granary, iniciativa digital da EAFF que conecta agricultores a mercados de insumos e produtos de forma virtual, agregando produtores que antes não tinham acesso a preços, compradores ou serviços.

Em regiões onde o intermediário historicamente captura a maior parte do valor da cadeia, a informação direta no celular do produtor muda a relação de poder. Ela também foi a força por trás da aprovação da Lei Regional de Cooperativas da África Oriental na Assembleia Legislativa do bloco, um marco legal que organiza e protege milhões de produtores.

Nsimadala defende que os recursos climáticos e alimentares cheguem diretamente aos agricultores, sem passar por intermediários institucionais que consomem o financiamento antes de ele chegar ao campo. Sua importância está em ocupar simultaneamente o chão da roça e as mesas de decisão global, sem perder o fio que conecta os dois lugares.

8. Sheila Senathirajah (Malásia)

Sheila Senathirajah, da ISEAL Alliance
Divulgação/ISEALSheila Senathirajah, da ISEAL Alliance

Área de atuação: Certificações e Cadeias Regenerativas

Sheila Senathirajah chegou à International Social and Environmental Accreditation and Labelling (ISEAL Alliance) depois de anos no campo, trabalhando diretamente com pequenos produtores de óleo de palma no sudeste asiático.

Essa experiência no chão da cadeia molda sua atuação em uma organização que define padrões de sustentabilidade adotados por empresas, governos e certificadoras em diversos países. Na ISEAL, ela lidera a agenda de equidade e meios de vida, com foco em fortalecer produtores de pequena escala, ampliar renda e melhorar as condições de vida nas cadeias produtivas globais.

Na prática, participa da construção de critérios que determinam se produtos como café, chocolate ou óleo de palma podem receber selos de sustentabilidade em mercados internacionais. Ela parte de uma constatação direta: estabelecer salário justo para um agricultor que cultiva diferentes produtos, com preços variados e renda complementar, em meio à volatilidade cambial e climática, é um desafio que exige coordenação entre compradores, certificadoras, governos e produtores.

Para Senathirajah, agricultores não podem carregar sozinhos os riscos de clima, preço e demanda. No universo das certificações, quem estabelece essas regras exerce influência em escala global.

9. Caixia Gao (China)

Divulgação/AIChECaixia Gao, pesquisadora do IGDB

Área de atuação: Biotecnologia de Fronteira (CRISPR)

Caixia Gao não chegou à ciência de plantas por vocação. Na China, o desempenho no exame nacional define o curso universitário, e foi assim que ela foi parar na agronomia. O que veio depois foi por escolha: décadas construindo ferramentas para reescrever o DNA de culturas que alimentam bilhões de pessoas.

Seu laboratório no Instituto de Genética e Biologia do Desenvolvimento da Academia Chinesa de Ciências desenvolve tecnologias de edição genômica para criar culturas com mais nutrição, resistência a doenças e tolerância a estresse climático.

O laboratório acumula mais de 12 mil citações científicas em publicações nas revistas Cell, Science, Nature e Nature Biotechnology. Em 2016, seu trabalho foi selecionado pelo MIT Technology Review entre as dez tecnologias de ruptura do ano.

O alcance prático disso está no arroz, no trigo e no milho, as três culturas base da alimentação mundial, todas sob edição ativa em seu laboratório. Num cenário de crise climática e pressão sobre a produção, quem define quais plantas vão existir nas próximas décadas detém um poder que vai muito além da academia.

10. Tatiana Malvasio (Argentina)

Tatiana Malvasio, confundadora da Kilimo
ReproduçãoTatiana Malvasio, confundadora da Kilimo

Área de atuação: Gestão Hídrica e ClimateTech

Tatiana Malvasio não veio da tecnologia. Veio do terceiro setor, de anos como diretora-executiva de ONGs em Córdoba, Argentina. Essa passagem por uma década em impacto social e liderança de organizações sem fins lucrativos é o que moldou a visão que ela trouxe para a Kilimo: o problema da água na agricultura não é só técnico, é econômico.

A Kilimo é uma plataforma que usa inteligência artificial para ajudar produtores a reduzir a irrigação e vender os volumes economizados como Water Offsets para empresas com metas de neutralidade hídrica.

O modelo criou um mercado onde antes não existia nenhum sinal econômico para conservar água. Até agora, a plataforma acumula 72 bilhões de litros de água poupados na América Latina.

Parcerias com Google, Microsoft e Coca-Cola validaram o modelo comercial e colocaram a Kilimo como referência global em compensação hídrica. A empresa também detém a primeira ferramenta certificada na América Latina para medir a pegada hídrica em campos irrigados.Tatiana transformou a escassez de água em ativo financeiro para quem planta. Nesse modelo, o agricultor que conserva não apenas gasta menos, ele ganha por isso.

[Fonte Original]

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