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segunda-feira, março 9, 2026

Da violência e de suas histórias – Revista Cult

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O título do livro História da violência (Histoire de la violence), de Édouard Louis, está marcado pela ambiguidade de que se reveste o vocábulo história, estrutural no romance autobiográfico do autor, lançado em 2016. Trata-se não somente da narrativa que apresenta o desenrolar do exasperado evento que atinge o personagem central da trama, como também do método discursivo, desejoso de cientificidade, que ele aplica à própria enunciação dos fatos, de modo a tentar melhor compreendê-los. No livro, duas vozes antagônicas se embatem: a do sujeito que protagoniza a história e a do sujeito que, por sofrer, diretamente, as ações do contexto sociocultural ao qual está exposto, por conseguinte, está inscrito nas malhas da História. Podemos chamá-los, pois, de sujeito-sujeito e sujeito-sujeitado.

Transposta para o palco, História da violência, encenada pela companhia alemã Schaubühne com direção de Thomas Ostermeier, investe naquilo que o teatro se propõe a fazer desde sempre: flagrar o gênero humano em luta com o mundo, interno e externo, visível e invisível, adotando para isso os recursos de uma teatralidade bastante peculiar. Fortemente ancorado na tensão dialética que torna o livro um belo espécime do que se convencionou chamar de sociologia do eu, o espetáculo explora muitíssimo bem a forma agônica (do grego agōn, “luta”, “combate”, “agitação da alma”), por meio da qual a violação primeira (do respeito à vida, da intimidade da alma, da integridade do corpo) se desdobra em inúmeras outras violências.

No palco, o embate se dá entre viver e contar. É preciso recontar o que ainda está vívido (nenhuma outra arte supera o teatro em sua condição primeira: presentificar a matéria “ardente”) de modo a garantir algum entendimento sobre o vivido. Contar, para Thomas Ostermeier e os atores do grupo Schaubühne, é a um só tempo declarar e dizer. Declarar tendo um microfone por elemento amplificador – recurso do teatro épico que garante a publicização daquela voz emitida a partir de uma perspectiva privada; mas declarar também acusticamente, fazendo com que a voz, menos encorpada pela ausência da tecnologia, se esforce mais pelo dizer. Dizer, na esfera da intimidade do amor erótico ou da privacidade da vida familiar. Dizer para si mesmo e para o Outro, que acolhe inicialmente aquela interioridade para pervertê-la logo depois. Como se não mais fosse possível nos tempos contemporâneos usufruir de uma intimidade e de uma privacidade sem poder devassá-las.

Mas o que o espetáculo, ele mesmo, tem a nos comunicar, pela adoção do estilo de atuação do elenco que sabe conduzir assunto tão explosivo, sem sucumbir à sua inerente dramaticidade; pela utilização do recurso das gravações em vídeo realizadas à vista de todos; pela reprodução das imagens exibidas no fundo do palco; pela execução da música ao vivo? Desdramatizar a violência e mostrar os mecanismos pelos quais ela se instaura talvez seja a força-motriz da empreitada.

“Violência”, nas línguas românicas, vem da raiz latina “vis”, cujo sentido é “força”, particularmente “a força que se emprega contra alguém”. Da mesma raiz, nascem “viril” (e, por extensão, “virilha”) e “varão”, donde se pode concluir que o fenômeno da violência está diretamente ligado a certos modos de atuação, representação e/ou reprodução da masculinidade. No centro do palco, dois corpos masculinos fracassam ao tentar se relacionar exclusivamente pela via da afetividade íntima – porque esta está condicionada não somente pelo problema das classes sociais como também por questões geopolíticas. Embora, o enunciado disparador do ato violento se construa em torno de um elemento feminino (“Você está insultando minha mãe”), ele mobiliza toda a estrutura patriarcal para dar plasticidade àquela violência. Portanto, quem viola a intimidade daquele casal homoafetivo – reduzindo drasticamente as chances do improvável ao estado do impossível – é o empreendimento colonizador, a diferença de classes, a marginalização social, a invisibilização dos indivíduos, o conservadorismo da instituição familiar, os mecanismos de controle social, a hipertrofia do poder policial, a judicialização da vida, a burocratização da medicina…

A encenação de História da violência reúne muitos elementos carregados pela alta voltagem emocional que impregna o episódio central da narrativa, mas eles não se destinam a eriçar os pelos do espectador, a ficar somente no nível da epiderme. Pensar sobre a violência parece melhor do que se indignar contra ela. Pensar sobre a violência com a precaução da intelecção parece melhor do que com o frenesi da emoção. Daí o tom bastante complexo de definir alcançado pela encenação, na qual o talentoso quarteto de intérpretes tem atuação fundamental. Um tom que mobiliza a empatia pelo dominado (a rigor, ambos os amantes o são) ao mesmo tempo que expõe as formas de dominação que os procura aniquilar.

Há algo ainda de muito irônico no sentido do substantivo “história” que tanto o livro quanto o espetáculo primam por deixar implícito na condução de ambas as narrativas. História também diz respeito ao estudo de um passado ou de uma evolução (história geológica, a história de determinada palavra). Inventariando a origem patriarcal – soterrada pelas brumas do tempo – do termo violência, não nos parece nem um pouco reconfortante refletir sobre a ideia de que saímos da esfera da tirania exercida pelo pai primordial (o chefe do clã ou da tribo) para evoluir a um estágio de civilização em que, em vez de desaparecer por completo, ela, a violência primitiva, assumiu outros contornos, mais esfumaçados, mais sinuosos, mais comprometidos em fingir que aqui não está. O mundo das instituições modernas, das famílias esclarecidas, dos dispositivos legais e das garantias constitucionais ainda é o mesmo mundo violento de outrora. Mais difícil de combater pelo fato de cotidianamente mandar dizer que já evanesceu.

HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA (IM HERZEN DER GEWALT)
Schaubühne
Baseado em Histoire de la violence, de Édouard Louis
Direção: Thomas Ostermeier
Elenco : Christoph Gawenda, Laurenz Laufenberg, Renato Schuch, Alina Stiegler
Músico: Thomas Witte
Tradução do francês: Hinrich Schmidt-Henkel
Adaptação: Thomas Ostermeier, Florian Borchmeyer e Édouard Louis
Coprodução: Théâtre de La Ville Paris, Théâtre National Wallonie-Bruxelles e St. Ann’s Warehouse Brooklyn, com o apoio da Lotto-Stiftung Berlin

Welington Andrade é bacharel em Artes Cênicas pela Uni-Rio, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da Faculdade Cásper Líbero.


Version française par Thaïs Chauvel*

 

 

Le titre du livre Histoire de la violence, d’Édouard Louis, est marqué par l’ambiguïté, structurale dans ce roman autobiographique publié en 2016, dont se revêt le mot histoire. Il s’agit non seulement du récit qui présente le déroulement de l’événement exaspéré qui frappe le personnage central de l’intrigue, mais aussi de la méthode discursive, désireuse de scientificité, qu’il applique à l’énonciation même des faits, afin de tenter de mieux les comprendre. Dans le livre, deux voix antagonistes s’affrontent : celle du sujet protagoniste de l’histoire et celle du sujet qui, subissant directement les actions du contexte socioculturel auquel il est exposé, se trouve, par conséquent, inscrit dans les mailles de l’Histoire. On pourrait donc les nommer ainsi : sujet-sujet et sujet-assujetti.

Transposée au théâtre, Histoire de la violence, mise en scène par la compagnie allemande Schaubühne sous la direction de Thomas Ostermeier, investit dans ce que le théâtre propose depuis toujours de faire : surprendre le genre humain aux prises avec le monde, intérieur et extérieur, visible et invisible, en adoptant pour cela les ressources d’une théâtralité très particulière. Bien ancré dans la tension dialectique qui fait du livre un bel exemple de ce que l’on appelle par convention la sociologie du moi, le spectacle explore magistralement bien la forme agonique (du grec agōn, « lutte », « combat », « agitation de l’âme »), par laquelle la violation première (celle du respect de la vie, de l’intimité de l’âme, de l’intégrité du corps) se dédouble en d’innombrables autres violences.

Sur scène, l’affrontement se joue entre vivre et raconter. Il faut re-raconter ce qui est encore vif (aucun autre art ne surpasse le théâtre dans sa condition première : rendre présente la matière « ardente »), afin d’assurer un certain entendement à propos du vécu. Raconter, pour Thomas Ostermeier et les acteurs de la Schaubühne, c’est à la fois déclarer et dire. Déclarer à l’aide d’un microphone comme élément amplificateur – procédé du théâtre épique qui garantit la publicité de cette voix énoncée à partir d’une perspective privée ; mais aussi déclarer acoustiquement, en faisant en sorte que la voix, moins dense du fait de l’absence de technologie, s’efforce davantage de dire. Dire, dans la sphère de l’intimité de l’amour érotique ou de la vie familiale. Dire pour soi-même et pour l’Autre, qui accueille au départ cette intériorité pour la pervertir juste après. Comme s’il n’était plus possible, dans les temps contemporains, de jouir d’une intimité et d’une privacitée sans pouvoir les transgresser.

Mais qu’a donc le spectacle lui-même à nous communiquer, par l’adoption du style de jeu de la troupe qui sait conduire un sujet aussi explosif sans pour autant succomber à son inhérente dramaticité ; par l’utilisation du recours aux enregistrements vidéo réalisés sous les yeux de tous ; par la reproduction des images projetées au fond de la scène ; par l’exécution de la musique en direct ? Dédramatiser la violence et montrer les mécanismes par lesquels elle s’instaure est peut-être bien la force motrice de l’entreprise.

« Violence », dans les langues romanes, provient de la racine latine vis, qui signifie « force », en particulier « la force que l’on exerce contre quelqu’un ». De cette même racine dérivent « viril » (et, par extension, « virilité ») et « varon », d’où l’on peut conclure que le phénomène de la violence est directement lié à certains modes d’action, de représentation et/ou de reproduction de la masculinité. Au centre de la scène, deux corps masculins cherchent en vain à établir des rapports par la seule voie de l’affectivité intime – car celle-ci est conditionnée non seulement par le problème des classes sociales mais aussi par des enjeux géopolitiques. Bien que l’énoncé déclencheur de l’acte violent se construise autour d’un élément féminin (« Tu insultes ma mère »), il mobilise toute la structure patriarcale pour donner de la plasticité à cette violence. Ainsi, ce qui viole l’intimité de ce couple homoaffectif – en réduisant drastiquement les chances qui passent de l’improbable à l’impossible –, c’est l’entreprise colonisatrice, la différence de classes, la marginalisation sociale, l’invisibilisation des individus, le conservatisme de l’institution familiale, les mécanismes de contrôle social, l’hypertrophie du pouvoir policier, la judiciarisation de la vie, la bureaucratisation de la médecine…

La mise en scène de Histoire de la violence réunit de nombreux éléments chargés de la haute tension émotionnelle qui imprègne l’épisode central du récit, mais ils ne sont pas destinés à hérisser les poils du spectateur, à en rester au seul niveau de l’épiderme. Penser à la violence paraît mieux que s’en indigner. Penser la violence avec la précaution de l’intellection paraît en effet mieux qu’avec le frénésie de l’émotion. D’où le ton assez complexe à définir que parvient à atteindre cette mise en scène, où le talentueux quatuor d’interprètes joue un rôle fondamental.

Un ton qui mobilise l’empathie envers le dominé (à la rigueur, les deux amants le sont) tout en exposant les formes de domination qui cherchent à les anéantir.

Il y a encore quelque chose de très ironique dans le sens du nom « histoire » qu’aussi bien le livre que le spectacle excellent à laisser implicite dans le déroulement de leurs récits respectifs. L’histoire renvoie aussi à l’étude d’un passé ou d’une évolution (l’histoire géologique, l’histoire d’un mot). En inventoriant l’origine patriarcale – ensevelie dans les brumes du temps – du terme violence, il ne semble guère réconfortant de réfléchir à l’idée selon laquelle, une fois sortis de la sphère de la tyrannie exercée par le père primordial (le chef du clan ou de la tribu), nous serions passer à un stade de civilisation où, loin de disparaître complètement, la violence primitive a simplement pris d’autres formes, plus floues, plus sinueuses, plus soucieuses de faire semblant qu’elle n’est plus là. Le monde des institutions modernes, des familles éclairées, des dispositifs juridiques et des garanties constitutionnelles est toujours le même monde violent d’autrefois. Il est simplement plus difficile à combattre du fait qu’il répète sans cesse qu’il s’est déjà dissipé.

HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA (IM HERZEN DER GEWALT)

Schaubühne

D’après Histoire de la violence, d’Édouard Louis
Mise en scène : Thomas Ostermeier
Distribution : Christoph Gawenda, Laurenz Laufenberg, Renato Schuch, Alina Stiegler
Musicien : Thomas Witte
Traduction du français : Hinrich Schmidt-Henkel
Adaptation : Thomas Ostermeier, Florian Borchmeyer et Édouard Louis
Coproduction : Théâtre de la Ville (Paris), Théâtre National Wallonie-Bruxelles et St. Ann’s Warehouse (Brooklyn), avec le soutien de la Lotto-Stiftung Berlin.

*Thaïs Chauvel est franco-brésilienne. Elle est titulaire d’un master et d’un doctorat en lettres de l’Universidade de São Paulo et enseigne la langue et la littérature françaises depuis quinze ans.

*Thaïs Chauvel é franco-brasileira, possui mestrado e doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo e atua há quinze anos como professora de língua e literatura francesa.

Welington Andrade est titulaire d’une licence en arts de la scène de l’Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, d’un master et d’un doctorat en littérature brésilienne de l’Universidade de São Paulo, et professeur à la Faculdade Cásper Líbero.



[Fonte Original]

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