Enredada na disputa entre países que priorizam a transição energética e os que procuram manter a centralidade dos combustíveis fósseis, a economia global padece. Para Maurice Obstfeld, da Universidade da Califórnia em Berkeley e economista-chefe do Fundo Monetário Internacional de 2015 a 2018, essa interpretação, proposta por cientistas políticos, ajuda a entender como o mundo tem caminhado e por que a instabilidade se tornou regra, depois de décadas em que foi exceção.
Um documento em particular tem relevância para o Brasil. A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de Donald Trump envolve o fortalecimento do petróleo, além da contenção da China e do controle da América Latina, considerada uma zona de influência exclusiva.
Nesse cenário, embora os países em desenvolvimento devam enfrentar turbulências, a conjuntura macroeconômica, por enquanto, é positiva. No caso do Brasil, o maior risco, no momento, é o de interferência americana no processo eleitoral, seja em palavras ou pressão econômica. Na Argentina, porém, o inédito apoio americano pode abrir portas para uma estabilização há muito esperada.
Valor: O cenário global anda instável. Como o sr. interpreta a conjuntura, de maneira geral?
Maurice Obstfeld: Cientistas políticos estão propondo uma leitura interessante, que é pensar a geopolítica em termos de “petroestados” e “eletroestados”: países que baseiam seu modelo econômico e sua geopolítica em combustíveis fósseis, e países empenhados em promover fontes de energia limpas. Nessa visão de mundo, a China é um eletroestado, embora queime muito carvão, porque desenvolveu uma enorme indústria de energia limpa. E a promove no mundo todo, inclusive com grandes investimentos na América Latina. A União Europeia é um eletroestado. A Rússia, os países do Golfo [Pérsico] e agora os EUA estão focados em petróleo. Parte da razão pela qual os EUA estão sancionando o petróleo russo é para vender mais do petróleo venezuelano confiscado. E parte da estratégia para impedir a entrada da China na América Latina é evitar que ela propague energia limpa.
Valor: O que muda no jogo com a decisão da Suprema Corte de derrubar as “tarifas recíprocas” e a resposta de Trump, estabelecendo a taxa global de 15%?
Obstfeld: Menos do que se pensa. O presidente tem outras prerrogativas para impor tarifas. Elas geralmente exigem algum tipo de processo deliberativo, como uma investigação, que ele poderia ordenar de modo meramente formal. Se quiser, pode pedir a um funcionário que elabore um relatório da noite para o dia. Com as tarifas de 15%, ele não pode usar o “me dê o que quero ou pague uma tarifa extorsiva”, mas ele ainda terá margem de manobra. Não devemos nos surpreender se, ao decidir impor uma tarifa alta a algum país, Trump ordenar uma investigação e encontrar um pretexto. É o que ele faz quando quer perseguir um adversário interno. Essa é a única estratégia dele, tanto nacional como internacional: arrumar um pretexto para fazer o que quer. A Suprema Corte tornou isso um pouco mais difícil, mas longe de impossível.
Valor: Os economistas e o público estavam apreensivos com a escolha do novo presidente do Federal Reserve, temendo um acólito de Trump. A designação de Kevin Warsh parece ter sido um alívio. Justificado?
Obstfeld: Foi um alívio e com alguma razão. O outro Kevin que estava na disputa era Kevin Hassett, que é bem mais partidário. Warsh foi membro do Conselho de Governadores do Fed, conhece a instituição e não aparece na TV todo dia defendendo os argumentos do presidente, como Hassett. Ele é visto como alguém mais estável e menos propenso a apoiar impulsivamente tudo que Trump quer.
Valor: Ano passado, o sr. fez um discurso no Banco Internacional de Compensações (BIS). Nele, disse que os EUA tomaram uma “bifurcação” contra a ordem financeira e monetária internacional. Há algum caminho para restaurar a ordem?
Obstfeld: Não fiquei mais otimista desde então. Pelo contrário, a confiança da comunidade internacional foi ainda mais abalada com as ameaças contra a Groenlândia, a intervenção na Venezuela, interferências em eleições de outros países e o ataque irrefletido ao Irã. Há ainda a percepção de que os Estados Unidos abandonaram o papel de patrocinadores da ordem internacional baseada em regras previsíveis e um conjunto de princípios de governança na economia mundial. Estão se tornando um país sem lei.
Valor: A América Latina, em particular, parece ser um alvo.
Obstfeld: A Estratégia de Segurança Nacional coloca a América Latina como zona de influência, onde as empresas americanas devem ser favorecidas. Não são bem-vistas iniciativas empresariais vindas de fora do hemisfério, principalmente da China, e há a perspectiva de intervenções mais agressivas em países latino-americanos, desde a ameaça de atacar diretamente os cartéis de drogas no México e na Colômbia até as intervenções verbais em Honduras. Ele tentou intervir no Brasil com tarifas durante o julgamento de [Jair] Bolsonaro. A intervenção financeira na Argentina foi sem precedentes.
Valor: E como navegar os novos tempos? O Brasil, por exemplo?
Obstfeld: Um bom sinal é que o ambiente internacional tem sido favorável aos emergentes. As condições financeiras estão flexíveis. A taxa de câmbio do dólar está fraca, o que é sempre bom para os emergentes. Esse é um bom cenário para o Brasil. De modo geral, o crescimento global está vivo. Temíamos que a guerra comercial prejudicasse o crescimento global mais do que aconteceu de fato, pelo visto. Com isso, a questão se volta para a gestão interna. Agora, nunca se sabe o que Trump vai fazer e Quando é a eleição presidencial?
Obstfeld: Nossa! Certo… Isso é uma incógnita, porque os EUA certamente intervirão de alguma forma. Pode não ser por meio da política comercial, mas certamente haverá intervenções verbais de Trump para tentar garantir a vitória da direita. Não sei até que ponto isso terá efeitos econômicos negativos. Mas será muito preocupante se essas intervenções forem acompanhadas por medidas econômicas. Felizmente, a decisão da Suprema Corte reduz um pouco seu arsenal, mas Trump não está desarmado. De forma alguma.
Valor: O sr. diz que o governo americano está minando a hegemonia do dólar. Embora não haja outra moeda à espreita, o sr. diz também que os países vão encontrar arranjos para reduzir a dependência do dólar. O sr. tem um vislumbre desses arranjos?
Obstfeld: É possível reduzir a dependência do dólar em alguns aspectos. Uma das estratégias é direcionar-se para outros parceiros comerciais e realizar mais transações financeiras em moedas bilaterais. Na Europa, os bancos estão sendo incentivados, na verdade pressionados, a reduzir o financiamento em dólares e aumentar em euros, porque temem que a linha de swap do Fed se torne mais condicional e politizada, sendo usada, por exemplo, como punição no caso da regulação do setor de tecnologia. Bancos centrais de todo o mundo estão se perguntando como podem se proteger de retaliações e coerção de um país poderoso, governado por um Executivo impulsivo e mal-informado.
Valor: Outro assunto que voltou à baila é o temor de que a China comece a despejar seus títulos do Tesouro americano. Há materialidade nisso?
Obstfeld: Minha impressão é que a China vem tentando reduzir gradualmente os ativos sujeitos a confisco dos Estados Unidos. Isso significa que ela pode ter títulos do Tesouro sob custódia offshore e pode optar por outros ativos em dólar, se quiser manter dólares, ou euros, ou também o ouro; e a China tem sido uma grande compradora de ouro. Não me parece plausível uma ostensiva venda de títulos do Tesouro, abrindo uma nova frente de conflito com o governo Trump. Ninguém quer atrair muito a atenção de Trump. Uma grande venda de títulos do Tesouro faria o mercado se voltar contra a China e ela perderia dinheiro.
Valor: O sr. escreveu dois artigos sobre a Argentina recentemente, o primeiro bem pessimista, o segundo um pouco menos. O presidente Javier Milei passou na prova?
Obstfeld: Eu diria que ele passou em uma prova. Agora pode avançar para a próxima etapa, ao fim da qual há outra prova. O forte resultado nas eleições de outubro foi um impulso enorme. Quando escrevi o primeiro artigo, eu estava cético de que a banda cambial, como existia na época, fosse adequada ao propósito. De fato, assim que as eleições passaram, ele mudou a banda. Mas o sistema atual também é frágil, pois não tem uma âncora nominal real. Em vez disso, eles poderiam adotar uma meta de inflação. Acho que Milei tem uma chance melhor de sucesso do que [o ex-presidente Mauricio] Macri teve, porque foi fortalecido pelo resultado das eleições e tem o apoio dos EUA.