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terça-feira, março 10, 2026

Para driblar barreiras e incerteza externa, Brasil busca mercados

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O Brasil deve enfrentar um cenário internacional ainda mais difícil e imprevisível neste ano. Além da política tarifária mais agressiva dos Estados Unidos e da adoção de medidas protecionistas por vários países, o conflito envolvendo o Irã adiciona um novo elemento de instabilidade ao comércio internacional. Ainda assim, especialistas ouvidos pelo Valor acreditam que o país pode se sair relativamente melhor do que outros exportadores, embora não haja consenso sobre a manutenção do ritmo de crescimento das vendas externas observado em 2025.

Por ora, porém, os números de 2026 têm sido positivos. Até a terceira semana de fevereiro, a média diária de exportações brasileiras avançou 14,5% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as importações se mantiveram no mesmo nível. O saldo da balança no período chegou a US$ 7,2 bilhões. O desempenho vem na esteira do crescimento de 3,5% das exportações em 2025, que fecharam o ano em US$ 348,7 bilhões – com superávit de US$ 68,3 bilhões, diante de importações de US$ 280,4 bilhões.

Para o resultado do acumulado do ano, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) projeta vendas entre US$ 340 bilhões e US$ 380 bilhões e importações entre US$ 270 bilhões e US$ 290 bilhões. Os números indicam uma alta do superávit da balança, para algo entre US$ 70 bilhões e US$ 90 bilhões.

A expectativa do mercado e de analistas independentes é mais conservadora. A Tendências Consultoria trabalha com uma queda tanto nas exportações, para US$ 330,6 bilhões, como nas importações, para US$ 268,4 bilhões. “Há uma perda de dinamismo das exportações, principalmente pelo lado do agronegócio, que não deve crescer tanto quanto cresceu no ano passado, além de importações menores devido ao esfriamento da economia”, argumenta Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e análise setorial da empresa.

Na avaliação de Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de Comércio Exterior, o mundo se tornou mais desafiador para o comércio exterior. “Desde a crise de 2008, mas principalmente depois da pandemia, houve um aumento grande de protecionismo no mundo”, argumenta. “Isso acelerou muito com o governo Trump.” Sobre o Brasil especificamente, Barral cita como exemplos a imposição de cotas para carne pela China, a elevação de tarifas pelo México e barreiras impostas pela União Europeia.

Para Abrão Neto, presidente da Amcham, o quadro amplia as dificuldades de um país como o Brasil, que já enfrenta desafios estruturais de competitividade. Por outro lado, ele vê oportunidades no movimento de redução de riscos e busca pela diversificação de fornecedores para países capazes de oferecer escala e confiabilidade. “O Brasil pode se beneficiar se souber se posicionar com inteligência e agilidade, bem como se focar na melhoria das condições de produção e exportação a partir do país.”

Há perda de dinamismo das exportações, principalmente pelo agronegócio”

— Alessandra Ribeiro

Nesse contexto, os analistas avaliam como correta a estratégia do Brasil de buscar a diversificação de parceiros comerciais com acordos no âmbito do Mercosul. “A gente teve uma evolução com o acordo Mercosul e União Europeia. Agora, estamos indo na direção do acordo com a Coreia do Sul. Provavelmente vamos caminhar com o Canadá e o Japão”, afirma Ribeiro. Nos bastidores, o governo confirma tratativas ainda iniciais com China, Reino Unido e Vietnã.

No lado das oportunidades para o país, o destaque deve ser a entrada em vigor, ainda que de maneira provisória, do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, visto por analistas como a principal vitória dessa estratégia. Segundo o Valor apurou, o governo brasileiro espera que as primeiras reduções de tarifas comecem a valer a partir de maio. “É um dos acordos mais importantes do mundo. Pelo tamanho dos dois mercados, com certeza já vai ter impacto neste ano”, diz Barral.

A princípio, os setores que tendem a se beneficiar mais rapidamente são aqueles cujas cadeias de fornecimento já estão estabelecidas e nos quais o Brasil é mais competitivo, como o agronegócio, petróleo e derivados e mineração. “Indústria, máquinas, equipamentos, farmacêutico são alguns setores que têm mais desafios”, argumenta Ribeiro.

Entre as incertezas no horizonte, estão as tarifas americanas e o impacto da guerra do Irã. O Brasil é um dos maiores beneficiados pela decisão da Suprema Corte dos EUA, que derrubou as tarifas adicionais de 40% impostas por Trump ao Brasil em agosto. Por conta dessa medida, no ano passado, as exportações do Brasil para lá caíram 6,6% em valor.

“Nossas estimativas indicam que o Brasil saiu de um cenário em que mais de um terço de suas vendas estava sujeito a sobretaxas elevadas (40% ou 50%) para uma situação em que a maior parte de suas exportações não enfrenta sobretaxa ou está sujeita a tarifas adicionais de até 10%”, diz Abrão. Segundo ele, isso representa alívio relevante para cerca de US$ 14,6 bilhões de exportações brasileiras, especialmente de bens industriais.

Apesar disso, o Brasil ainda pode ser penalizado pela investigação com base na Seção 301 da lei comercial dos EUA, que autoriza o governo a retaliar práticas consideradas injustas por outros países. Dependendo do desfecho, o país pode sofrer novas tarifas ou enfrentar barreiras não tarifárias. O assunto deve ser objeto da reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, prevista para este mês em Washington. Em 2025, as exportações do Brasil para os EUA caíram 6,6% em valor – queda concentrada a partir de agosto, mês em que entrou em vigor a tarifa adicional de 40% imposta por Trump.

Brasil pode se beneficiar se souber se posicionar com inteligência e agilidade”

— Abrão Neto

Outro fator de preocupação é o impacto da guerra do Irã. Segundo Alessandra Ribeiro, há dois riscos principais para o Brasil. O primeiro é uma importação de custos pelo eventual encarecimento dos fertilizantes, com impacto no preço dos produtos do agro – principal item da pauta de exportação brasileira. Outro risco é que o agravamento do conflito leve a uma revisão da expectativa de crescimento global para baixo, o que tende a deprimir o preço das commodities. Por outro lado, o país pode se beneficiar da alta do preço do petróleo e derivados, que contribuíram com US$ 29,6 bilhões para o superávit da balança no ano passado.

Quaisquer que sejam os números finais, o Brasil manterá uma participação relativamente pequena no comércio mundial. Apesar de figurar como a oitava maior economia do mundo em 2025, o Brasil ainda busca romper a barreira dos 20 maiores exportadores globais. “A participação do Brasil nas trocas no mercado internacional continua pequena”, diz Barral.

Na avaliação do ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa, a situação reflete, entre outros fatores, um desequilíbrio interno da economia do país. “Você tem hoje um problema no comércio exterior, que é a indústria”, argumenta. Para Barbosa, falta ao país um plano estratégico de médio e longo prazo que enfrente os gargalos de infraestrutura e regulação que afetam a competitividade dos produtos industrializados.

Roberto Jaguaribe, ex-embaixador na Alemanha e conselheiro do Cebri, concorda com o diagnóstico de que o país ainda é muito fechado ao comércio internacional, mas argumenta que neste momento essa característica teve um lado positivo. “Essa desproporção [entre economia interna e participação no comércio internacional] faz com que o Brasil seja um pouco menos vulnerável do que boa parte dos países em momentos conturbados.”

[Fonte Original]

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