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terça-feira, março 17, 2026

Gabriel Domingues, o diretor de elenco na corrida do Oscar por ‘O agente secreto’ – Revista Cult

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O Agente Secreto está concorrendo em quatro categorias no Oscar: melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator (Wagner Moura) e melhor diretor de elenco. Esta última, intitulada “best casting” é novidade deste ano e, finalmente, valoriza quem tem o trabalho de selecionar atores e atrizes das produções.

Caso o Brasil seja vencedor em melhor diretor de elenco, não é o diretor Kleber Mendonça Filho nem o elenco de O Agente Secreto quem subirá ao palco do Dolby Theatre, em Hollywood. É o carioca Gabriel Domingues, que passou mais de duas décadas em São Paulo, e voltou a morar no Rio de Janeiro recentemente.

Domingues, que tem 36 de idade e dez anos de carreira, quer trazer o Oscar para o Brasil, mesmo que, entre seus concorrentes, estejam pesos-pesados como Pecadores (Michael B. Jordan e cia) e Uma Batalha Após a Outra (Leonardo DiCaprio e cia). “Se estou concorrendo, quero ganhar”, diz ele.

Em videochamada e prestes a embarcar para Nova York, afim de participar da campanha de O Agente Secreto, o diretor de elenco conversou com o repórter Miguel Barbieri sobre carreira, Oscar e futuro.

 

Muita gente ficou em dúvida qual seria a melhor tradução para essa nova categoria, “best casting”. Como você define?

Para mim, a tradução mais correta seria diretor de escalação de elenco, que é o processo de fazer o casting. Os preparadores de elenco ficaram incomodados com a palavra “diretor” de elenco, como está sendo usado, porque são eles que dirigem o elenco nos ensaios. Eu não me oponho a nenhum nome e, no dia em que os brasileiros chegarem a um consenso, me comuniquem, por favor (risos).

Mas de onde veio a tradução “diretor de elenco”?

Nos Estados Unidos, os nomes das funções são muito diferentes. Diretor de arte é production design, figurinista é costume design… Durante muito tempo, no Brasil, chamou-se produtor de elenco, mas quando as plataformas de streaming chegaram ao Brasil, começando a produzir séries por aqui, o nome foi alterado para com o que é mais compatível na América Latina, que é diretor de elenco (ou diretor de casting).

Como a nova categoria impacta seu trabalho?

É raríssimo o Oscar incluir uma nova categoria e, finalmente, é o momento do reconhecimento. Muitas pessoas ainda acham que escalação de elenco é função de diretor. Só que não é bem assim. Com o Oscar, muda o panorama, dando a quem faz esse trabalho os dados do pensamento cinematográfico, artístico, estético, filosófico… Eleva a categoria a um pensamento de autoria, tanto quanto um fotógrafo, um diretor de arte, um maquiador…

Qual foi exatamente o seu trabalho em O Agente Secreto?

Eu era a pessoa responsável pelo elenco do filme, mas estava em contato permanente com o Kleber e com outras pessoas envolvidas na produção. O Kleber tinha vontade de trabalhar com Tânia Maria, que interpreta dona Sebastiana e fez uma ponta em Bacurau. Quando eu recebi o roteiro e a gente discutiu o personagem, eu disse que iria funcionar, sim. Também sirvo como um interlocutor.

Os diretores têm nomes em mente?

Eles têm, no máximo, ideia do protagonista. O Kleber, por exemplo, tem preferências e admiração por alguns atores. Mas, além de gostar de alguém, é preciso entender se aquela pessoa tem capacidade de desempenhar o papel, será que ela se alinha ao discurso político, cinematográfico e artístico do filme, tem tempo disponível para as filmagens, vai aceitar o cachê, existe uma sinergia ética e estética entre ela e o restante do elenco? São muitas questões. E se não funcionar, quem será responsável é o diretor de casting. Os americanos chamam isso de “miscasting”, uma escalação que não deu certo.

Você foi o diretor de elenco da série Cangaço Novo, que foi onde a Alice Carvalho, que também está em O Agente Secreto, despontou. A descoberta foi sua?

Para quem vive no eixo Rio-São Paulo, qualquer ator que está fora desse radar é algo estranho. Ou seja: parece uma descoberta, mas, no caso da Alice, ela já estava acontecendo, vivendo e atuando em Natal. Ela participou de grupos de teatro, tinha feito uma webserie, é uma artista em plena atividade. Mas quem teve a curiosidade de ir até Natal para entender a cena artística de lá, fui eu. Esse é o diferencial. Como eu fiz filmes em Recife, é natural que eu faça pesquisas em João Pessoa, Caruaru, Campina Grande, Maceió, Fortaleza…

Como está sua vida até o Oscar?

Estive nos Estados Unidos pela primeira vez na vida, fui para Los Angeles e Nova Iorque e fiquei dez dias quando o filme ainda estava entre os quinze pré-finalistas. Vou começar, agora, a participar de eventos por lá. Tem alguns que a gente tem de comparecer, como o almoço dos indicados ao Oscar. A distribuidora internacional do filme, a Neon, arquiteta para nós trabalharmos na divulgação e na campanha para pedir votos em Los Angeles, Nova York e Londres porque os membros da Academia estão maciçamente concentrados nestas cidades.

Você pensa numa carreira internacional?

O mercado norte-americano é muito dinâmico. A gente conhece muita gente e acho que pode rolar, sim. Na primeira fase, conversei muito com os membros da Academia. Agora, falo com a galera que está fazendo filmes e também com as outras indicadas, que fizeram filmes com o Paul Thomas Anderson, Game of Thrones… e elas adoram O Agente Secreto.

Quais seus próximos projetos?

Eu fiz o casting de Geni e o Zepelim, da Anna Muylaert, que deve estrear no segundo semestre, e de Yellow Cake, também com a dona Tânia Maria, que acabou de ser exibido no Festival de Roterdã. Às vezes, me contratam para fazer o casting de um protagonista ou só para fazer o elenco principal. Eu dei um tempo para me concentrar no Oscar, mas estou às voltas com o filme sobre Cássia Eller, que será um grande desafio.

Miguel Barbieri é jornalista e crítico de cinema



[Fonte Original]

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