O Ibovespa interrompeu a sequência de três sessões consecutivas de alta e tombou nesta quinta-feira, à medida que cresceu a percepção de que o conflito no Oriente Médio não deve terminar tão cedo, após novas ofensivas militares e ataques a navios petroleiros no Estreito de Ormuz. Em meio às incertezas, os preços de petróleo, que têm sido o termômetro do risco da guerra contra o Irã, fecharam um pouco acima dos US$ 100 o barril hoje, o que reforçou a cautela dos investidores.
Na mínima intradiária, o Ibovespa chegou a cair até 2,98%, tocando os 178.495 pontos, mas conseguiu devolver parte das perdas ao longo do dia, com alta das ações ordinárias da Petrobras. No fim do pregão, o índice encerrou em queda de 2,55%, aos 179.284 pontos, distante da máxima de 183.992 pontos.
Segundo participantes do mercado, a zeragem das alíquotas do PIS e Cofins para o diesel, anunciada pelo Executivo, foi ofuscada pelo noticiário da guerra, mas ajudou a ampliar a piora dos ativos domésticos no pregão de hoje por causa dos riscos fiscais.
Diante da nova disparada de mais de 9% nos preços de petróleo, as ações da Petrobras avançaram: as ON subiram 1,45% e as PN tiveram valorização de 0,45%, o que indica que pode ter ocorrido compra do papel por parte de investidores estrangeiros.
Um estudo de sensibilidade feito pela XP mostra que, se os preços de petróleo subirem até os US$ 90, o movimento pode ser favorável para a balança comercial, arrecadação e royalties, explica o estrategista de ações da XP, Raphael Figueredo. Acima desse patamar, no entanto, o movimento costuma ser prejudicial para companhias de petróleo, como a Petrobras.
“Você coloca a empresa sob pressão para, em algum momento, fazer um eventual reajuste de preço. A Petrobras já afirmou que não vai repassar a volatilidade. Porém, a permanência desse conflito e o nível alto do petróleo por muito tempo pode fazer com que haja um reajuste de preços e aí o efeito começa a se tornar bem mais negativo do que positivo”, afirma Figueredo.
A Vista Capital também avalia que é preciso olhar com cautela para as ações da Petrobras. Em carta mensal, a gestora afirma que o mercado passou a precificar um “estresse relevante” para os preços de petróleo no curto prazo, sem, por ora, “validar um novo regime estrutural para a commodity em horizontes mais longos”.
“Seguimos avaliando que, uma vez dissipado o componente mais agudo do choque geopolítico, os fundamentos de médio prazo permanecem relativamente confortáveis, diante da expansão da oferta fora da Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] e da moderação do crescimento da demanda global”, observa a equipe a da Vista.
Ao projetar um cenário em que os preços da commodity devem recuar no médio prazo, a Vista avalia que esse movimento mais baixista nas cotações de petróleo poderia expor a “fragilidade da estrutura de capital e a real alavancagem da Petrobras”. Por essa razão, a gestora afirma que manteve a posição vendida (que se beneficia da desvalorização) dos papéis da companhia.
Na ponta contrária, as ON da Vale cederam 2,73%. Os bancos também recuaram em bloco: no fim, as units do Santander perderam 4,44%; Banco do Brasil ON recuou 4,38%; as units do BTG Pactual tiveram desvalorização de 3,64%; Bradesco PN teve baixa de 2,76%; e Itaú Unibanco PN contraiu 2,73%.
Apesar da valorização superior a 11% do Ibovespa neste ano, a escalada do conflito no Oriente Médio pode colocar em risco a narrativa favorável de fluxos para emergentes, que ajudou a bolsa neste ano, alerta o Bank of America (BofA).
Em relatório, a equipe liderada por David Beker, chefe de economia para Brasil e estratégia para América Latina do banco, destaca que, na semana passada, as entradas de capital estrangeiro na B3 aparentemente desaceleraram após o início do conflito, mas voltaram a se recuperar no início desta semana.
Ne terça-feira (10), o investidor de fora injetou R$ 458,8 milhões em recursos em ações já listadas, elevando o superávit mensal da categoria para R$ 2,7 bilhões.
Em retrospectiva, o BofA aponta que as entradas de capital estrangeiro em fevereiro se concentraram principalmente nos setores de commodities e financeiro, com presença de empresas de grande capitalização (large caps). Já os setores com maiores vendas líquidas por estrangeiros no mês foram tecnologia da informação (em linha com a venda global de ações de software no mês passado), seguidos por saúde e comunicações.
Além do contexto geopolítico, os temores com a inflação seguem no radar dos investidores, ainda mais após o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subir 0,70% em fevereiro, acima do esperado pelo mercado, o que aumenta a possibilidade de um ritmo menor de cortes de juros pelo Banco Central na próxima semana.
O volume financeiro negociado pelo Ibovespa foi de R$ 27,3 bilhões e R$ 35,1 bilhões. Em Wall Street, o Nasdaq cedeu 1,78%; o Dow Jones recuou 1,56%; e o S&P 500 perdeu 1,52%.