O dólar à vista encerrou o pregão desta quinta-feira em forte alta, em dia em que a percepção de risco global voltou a pressionar ativos de risco. Nesta sessão, a alta dos preços do petróleo não deram suporte para o câmbio diante da leitura de que a guerra no Oriente Médio pode escalar e trazer impactos adicionais aos mercados, e não apenas uma alta temporária nos preços das commodities de energia. Diante disso, moedas de mercados emergentes depreciaram com intensidade frente ao dólar.
Se o ambiente global já não era favorável, a medida do governo brasileiro de cortar tributos do diesel para reduzir o impacto da guerra no país pressionou ainda mais o câmbio doméstico. A preocupação com a seara fiscal e com possíveis novas medidas do governo para conter a crise externa embutiu mais prêmio de risco no câmbio local, segundo operadores, o que fez com que o real se tornasse uma das moedas com maior desvalorização do dia frente ao dólar, na relação das 33 moedas mais líquidas.
Encerradas as negociações do mercado à vista, o dólar comercial registrou valorização de 1,62%, cotado a R$ 5,2422, depois de ter encostado na mínima de R$ 5,1570 e batido na máxima de R$ 5,2502. Já o euro comercial apreciou 1,11%, a R$ 6,0356. Perto do fechamento, o real apresentava o segundo pior desempenho entre as 33 moedas mais líquidas, melhor apenas que o peso chileno. Já o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, avançava 0,49%, aos 99,717 pontos.
Desde o começo da sessão de hoje o dólar avançou contra o real, refletindo o mau humor global dos investidores com os conflitos no Oriente Médio. Na parte da manhã, perto das 10h40, a moeda americana ganhou ainda mais força diante de sinais de escalada nas tensões geopolíticas.
O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que irá vingar a morte de outros líderes e que o Estreito de Ormuz seguirá fechado. Os comentários foram feitos na televisão estatal do país, os primeiros do líder desde que sucedeu o pai morto.
Isso bastou para o dólar ganhar impulso. O real também teve papel na formação de preço hoje. Operadores mencionaram que a notícia sobre o governo zerar PIS e Cofins do diesel para segurar o preço da guerra também pesou nas negociações. “É o fiscal, né? Isso pressiona, ainda mais porque essa preocupação ocorre em ano eleitoral”, diz um gestor na condição de anonimato.
Para Otávio Oliveira da Silva, gerente de tesouraria do Banco Daycoval, essa renúncia fiscal anunciada pelo governo explica a piora adicional observada na bolsa, nos juros e no câmbio. “Independentemente de quem estivesse no governo agora, seja esquerda ou direita, haveria algum tipo de medida para conter a pressão externa.
A questão é que, talvez outro governo fosse fazer uma medida que segurasse menos [os preços]. Então ter a perspectiva de alguma intervenção, em um ano eleitoral, acaba elevando a percepção de risco do país”, diz. “E o atual cenário, em que o candidato da oposição, possivelmente o senador Flávio Bolsonaro, estar se aproximando do Lula nas pesquisas é ainda mais um motivo para o governo fazer esse tipo de intervenção.”
Para o gerente do Daycoval, o que tende a determinar o caminho do câmbio daqui em diante no cenário externo é o grau de indefinição do conflito no Oriente Médio. “Se não escalar, mas ficar algo incerto por muito tempo, a aversão a risco vai prevalecer, e o real não vai se beneficiar da alta dos preços do petróleo. Incerteza sempre faz o investidor buscar ativos mais seguros, distanciando-se de bolsas e moedas de emergentes.”