Desde o começo do pregão desta sexta-feira, a aversão a risco provocada pela guerra no Irã manteve os investidores cautelosos, o que afetou em cheio a bolsa local. O movimento negativo ficou ainda mais intenso durante a tarde, quando a piora da percepção de risco levou ao acionamento de ordens de “stop loss” (ordem que é disparada automaticamente quando um ativo atinge um determinado valor para evitar perdas) na curva futura de juros. Com participantes do mercado bastante posicionados na queda futura das taxas, a alta forte do petróleo elevou as preocupações com os efeitos inflacionários do avanço da commodity, o que funcionou como um gatilho para que as ordens fossem acionadas.
O estresse visto na renda fixa doméstica contaminou os demais mercados e piorou o humor da bolsa ao longo da tarde. Com a disparada dos juros futuros, o índice encerrou em queda de 0,91%, aos 177.653 pontos, sendo que tocou os 177.322 pontos, na mínima intradiária, ampliando as perdas perto do fechamento, com investidores aproveitando o término da sessão para ajustar os portfólios antes do fim de semana. Na máxima, a principal referência acionária local tocou os 180.996 pontos. Na semana, o índice perdeu 0,57%.
A aversão a risco no mercado ajudou a amplificar as perdas de blue chips. Bancos responderam pelas maiores quedas, com destaque para o recuo de 2,06% registrado pelas PN do Bradesco. Da mesma forma, blue chips de commodities cederam em bloco: as ON da Vale recuaram 1,19%; já as ON da Petrobras perderam 0,54% e as PN tiveram baixa de 0,73%.
Segundo gestores ouvidos pelo Valor, a Petrobras tende a ser uma petroleiras que irá sofrer menor impacto em suas operações, podendo até ser beneficiada, em virtude da decisão recente do governo federal de impor um Imposto de Exportação (IE) de 12% sobre o petróleo bruto, além de uma alíquota de 50% sobre o diesel, para mitigar o impacto da alta da commodity no exterior.
Cerca de 25% da produção total da Petrobras é destinada à exportação, mas os baixos custos de extração no pré-sal e a maior capacidade de precificação da companhia devem reduzir o impacto da medida sobre as ações da estatal, afirma a Ajax Asset Management em nota enviada a clientes. A gestora acrescenta que a Petrobras pode compensar esse efeito com eventuais reajustes no preço do diesel, o que poderia até gerar um impacto positivo.
A visão é compartilhada pelo sócio e gestor de renda variável da RPS Capital, Thalles Franco. Com o novo imposto de exportação, ele avalia que a companhia terá maior tranquilidade para repassar a alta dos preços de petróleo e ser menos afetada pela pressão política, porque o efeito do avanço das cotações da commodity tenderia a ser menor para a inflação.
“Apesar de a Petrobras sofrer com esse imposto de exportação em uma parte da produção dela, no relativo, ela é menos afetada pelo fato de a pressão política ficar bem menor e ela poder repassar uma parte dessa alta do petróleo”, avalia o executivo.
Para a Prio, por outro lado, o impacto pode chegar a perdas de até US$ 300 milhões nos resultados futuros, segundo cálculos da Ajax, justamente pela ampla exposição da companhia ao mercado externo.
A RPS Capital também avalia que a Prio seria negativamente afetada pela medida do governo. Franco diz que, a partir de agora, a companhia, que exporta quase 100% da produção, terá que pagar mais imposto e que não terá nada para compensar na outra ponta, já que a petroleira já estava repassando o aumento nos preços de petróleo.
A Brava também deve sentir os efeitos da medida por possuir cerca de 40% da produção destinada às exportações, embora em menor intensidade do que a Prio, na avaliação da Ajax. A gestora, porém, ressalta que a companhia enfrenta desafios adicionais relacionados à alavancagem financeira, o que pode gerar ruído extra para as ações.
O gestor da RPS, porém, discorda e avalia que a Brava pode ser, talvez, a mais prejudicada. Franco afirma que a companhia também exporta bastante, mas que tende a se aproveitar menos da alta do petróleo por possuir um hedge (proteção) em uma parcela da produção. “Ela se aproveita menos dessa alta recente do petróleo e agora tem que pagar imposto em praticamente toda a produção dela”, diz.
O executivo afirma ter dúvidas se a empresa pagará o imposto sobre o valor que ela vende no mercado lá fora, ou sobre o valor que está “hedgeado” (protegido). “Dado que tem esse hedge, provavelmente, vai ser sobre o valor cheio. Então, ela poderia ser mais prejudicada.”
A PetroReconcavo, por sua vez, não deve ser afetada pelas medidas, já que não tem exportação. “Ela vende direto para a refinaria no mercado doméstico, então ela não exporta; ou seja, não tem nenhum impacto”, diz o gestor da RPS.
Em meio ao anúncio recente do novo imposto de exportação, as ON da Prio recuaram 2,86%; as ON da Brava fecharam em queda de 2,24%; e as ON da PetroReconcavo cederam 0,16%.
O volume financeiro negociado pelo Ibovespa foi de R$ 21,2 bilhões e de R$ 29,1 bilhões na B3. Já em Wall Street, o Nasdaq cedeu 0,93%; o S&P 500 recuou 0,61%; e o Dow Jones fechou em queda de 0,26%.