Embora não faça verdadeiramente parte da série O Mundo de Edena, Os Consertadores acaba sendo colocado na mesma sequência de publicação porque uma de suas histórias traz os protagonistas daquela saga e a atmosfera de todo o volume se assemelha muitíssimo às questões de realidade, ficção, sonho e vigília que Moebius trabalhou na sua série, além de fazer comentários sobre transformação pessoal, realização da arte, fontes de inspiração artística e as coincidências nada coincidentes que o Universo prepara para nós. Era uma forma de o artista brincar com seus personagens e temas favoritos ao mesmo tempo que mostrava muita coisa de si e de suas descobertas espirituais e evolução pessoal, como chegou a dizer em entrevistas nos anos 1990. Vamos lembrar que Na Estrela, o primeiro volume de O Mundo de Edena, nasceu de um briefing da Citroën em 1983, e aquilo que poderia ter sido mera peça publicitária chata e apenas visualmente admirável virou a semente de uma saga muito importante para o autor. Com Os Consertadores, publicado pela Casterman em 2001 (mesmo ano de SRA) e lançado no Brasil pela Nemo como o sexto e último volume da série, o mesmo mecanismo se repete: quatro histórias criadas para contextos completamente diferentes (algumas vindas de encomendas específicas), e que acabam reunidas num volume onde Giraud não consegue esconder quem é, por mais que o ponto de partida não seja dele.
Na história que abre o livro, Os Consertadores, vemos novamente Atan e Stel em missão. A grandiosa e bela arte de Moebius indica que o trajeto dos exploradores é longo, até que eles chegam a um lugar que eu vejo como sendo o cérebro do artista, e lá cortam o contato de Giraud com aquela realidade. Qual é o ponto, aqui? Que Moebius não podia se perder em meio a tantas situações paralelas que o tirariam de seu caminho necessário? Ele estava “viajando demais” e a dupla devolveu a ele a inspiração para criar algo mais centrado, com um foco específico? Considerando que essa trama se passa antes de Na Estrela, há muito para pensar. Criada para o último número da revista francesa A Suivre, em dezembro de 1997 (embora os desenhos tenham sido feitos no ano anterior), a história faz par com o que é também o primeiro episódio publicado na série, Consertos: Stel e Atan desbloqueiam a inspiração do desenhista, e assim o ciclo inteiro de O Mundo de Edena se fecha com a mesma imagem com que se abriu, a da arte como um conserto contínuo do artista por si mesmo. É uma história muda que diz mais sobre o ofício criativo do que a maioria dos longos ensaios sobre processo artístico, e tem a graça de quem não precisa de textão para ser compreendido.
Ver Nápoles traz a primeira aparição dos narigudos, os famosos pif-pafs, e foi concebida por Moebius para a manifestação Futuro Remoto, realizada na cidade italiana em 1987. Ao lado de Morrer e Ver Nápoles (Mourir et voir Naples), criada em 2000 para uma exposição sobre o artista na Città della Scienza, de Nápoles, e trazendo como convidado especial o Major Grubert, temos duas formas de viagem e realização pessoal; de percepção do mundo à volta — após a retirada de algo que já não servia — ou simplesmente após uma grande tomada de decisão, abraçando o destino e jogando o jogo da vida ao aterrissar exatamente onde se deveria. São histórias com caminhos artísticos distintos, mas com o mesmo foco e ideia final, e não é pouca coisa que Moebius tenha retornado ao mesmo tema e à mesma cidade separado por mais de uma década, como se o Universo tivesse reservado uma segunda rodada para que ele fechasse o ciclo com mais camadas. Dito isso, essas duas histórias de Nápoles são as peças mais fracas do volume (e ainda assim, muito boas!), servindo de respiro quase despreocupado no meio de aventuras tão marcantes.

A maior de todas as histórias da edição é O Planeta Ainda…, desenhada em 1990 para a publicação americana Concrete Celebrates Earth Day, da Dark Horse Comics, no Dia da Terra. Novamente com Stel e Atan, a aventura aborda a escassez de recursos naturais e a morte do planeta de forma completamente inesperada, assim como faz a sua recuperação parecer uma experiência quase divina. A arte tem os detalhes e o cuidado que lembram o projeto visual do autor em SRA, mas aqui há um furor da natureza, uma vontade de crescer e tomar o que é dela que deixa a gente encantado e amedrontado diante de tanto ímpeto. Uma das histórias mais líricas, belas e inteligentes com o tema ambiental como foco, O Planeta Ainda… é outra história muda, retomando a complexidade da linguagem experimental de Arzach, dos anos 1970, onde só o traço conta. A força do silêncio é tamanha que Moebius a adaptou em curta de animação em 2010, dirigindo ele mesmo ao lado de Geoffrey Niquet, com suporte do Canal+ e do CNC, na ocasião de uma exposição na Fondation Cartier. É uma história que se basta visualmente e faz uma oposição entre fim e reinício da vida que pode gerar muitas discussões sobre O Criador e suas criaturas.
Nada é mais belo do que um artista que, sem perceber, passa a vida inteira fazendo a mesma obra de excelente qualidade sob diferentes disfarces. Carl Jung chamou de sincronicidade essa força que conecta eventos sem relação de causa e efeito, mas unidos por um mesmo sentido oculto, e Moebius parece ter vivido dentro desse princípio de modo absolutamente espontâneo: as histórias de Os Consertadores foram criadas em momentos e contextos distintos e chegaram juntas ao mesmo lugar, ao mesmo conjunto de ideias sobre inspiração, transformação e destino. O livro tem suas disparidades, é claro, e quem espera homogeneidade vai perceber que as duas histórias de Nápoles não jogam no mesmo campeonato de Os Consertadores e de O Planeta Ainda…, criando uma curva de tensão que oscila no meio do volume. A despeito disso, depois de fechado o livro, fica a sensação de que Giraud era Moebius da mesma forma que Stel e Atan são os consertadores: não por profissão, mas porque não sabiam ser outra coisa e, por isso mesmo, se transmutaram no corpo e na mente.
O Mundo de Edena – Vol.6: Os Consertadores (Les mondes d’Edena: Les Réparateurs) — França, 2001
Roteiro: Moebius
Arte: Moebius
Editora original: Casterman
No Brasil: Editora Nemo, novembro de 2014
Tradução: Fernando Scheibe
58 páginas