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terça-feira, março 17, 2026

Wittgenstein e os limites da literatura contemporânea – Revista Cult

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O recente lançamento no Brasil da coletânea de aforismos Pensamentos diversos, de Ludwig Wittgenstein (publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo César de Souza), somado ao lançamento de O livro marrom (em inédita edição integral pela Fósforo, organizada e traduzida por Giovane Rodrigues e Tiago Tranjan) é uma oportunidade para avaliarmos a insuspeita influência das ideias do filósofo austríaco-britânico na literatura – e o quanto a literatura contemporânea do Brasil poderia ganhar ao se confrontar diretamente com suas ideias fora do lugar da filosofia da linguagem.

Quando digo ideias fora de lugar, refiro-me à recepção enviesada que o pensamento de Wittgenstein encontra fora do meio acadêmico colonial. Há o fatídico culto do gênio masculino do qual o filósofo é alvo, e existem dois sindicatos em pleno vigor dentro da cena cultural de hoje: o sindicato dos elogios e o sindicato do culto do gênio masculino que retroalimentam, entusiasticamente e de modo mistificador, a ideia que, parece, está no centro sinérgico da cultura contemporânea: a do culto da personalidade. Como Wittgenstein vê essa questão e, no fundo, até a ilumina, é o que veremos um pouco mais a frente. Antes falemos dos livros em si.

Vejo Wittgenstein como alguém que radicalizou as obsessões de Pascal em uma chave ainda mais perturbadora; é óbvia, embora raramente seja lembrada, a influência de Pensées em grande parte da produção de Wittgenstein – ofuscada pela mais conhecida e declarada influência das Confissões de Agostinho de Hipona. Se escavarmos – para além da apologia ao cristianismo – o clássico de Pascal, veremos ali a gênese da tensa e quase impossível busca por uma exatidão matemática aplicada a questões da metafísica agostiniana presente em Wittgenstein.

Teria o filósofo tentado uma espécie de superposição de camadas, entre a lógica e a mística? Lendo Pensamentos diversos sobre cultura, filosofia, religião e arte, organizada pelo filósofo finlandês Georg Henrik von Wright, que sucedeu Wittgenstein como professor da Universidade de Cambridge, encontramos um outro Wittgenstein: mais próximo de Movimentos de pensamento: Diários de 1930-32/1936-37, publicado, aqui, pelo Selo Martins.

É nítido, em diversos aforismos, que Wittgenstein não se via como um gênio: ele inclusive combate essa ideia da genialidade como superioridade exclusiva – associando-a mais ao esforço de concentração e honestidade: O gênio não tem mais luz do que algum outro indivíduo honesto – mas com uma espécie de lente, ele concentra essa luz num foco. De certa forma, ele elogia no gênio sua capacidade de osmose com a vida comum: Gênio é o que nos faz esquecer a habilidade.

Nossa época vai na contramão dessa visão desmistificadora do gênio, associando a genialidade com a celebridade – gênios são estrelas de luz única e intransferível; e o pior: qualquer pessoa famosa ganha a aura de genial. Há uma profunda confusão entre sujeito e subjetividade: que torna possível conferir, gratuita e levianamente, para pessoas que realizam de modo eficaz a propaganda em massa de suas habilidades, a condição de gênios.

Examinando atentamente O livro marrom, vemos que Wittgenstein estava muito preocupado com certa desconfiança e distanciamento em relação à linguagem. Em determinado momento, ele propõe que a experiência não seja descrita ou narrada – mas que a experiência entre. É como se Wittgenstein estivesse perguntando para todas as pessoas que trabalham coma literatura como não deixar que ela, a literatura, não contamine a experiência.

Parece uma questão secundária, mas apenas essa proposição, se levada a sério, colocaria em xeque completamente o modo como escrevemos – principalmente a chamada autoficção que hoje está em voga.

Wittgenstein, não de um modo tão enfático quanto a física quântica, mas de um modo igualmente profundo, coloca o indeterminismo no centro daquilo que poderíamos chamar de “aquilo que é conhecido como mundo”; para ele, o modo como usamos a língua e a linguagem não é determinante do grau de realidade daquilo que iremos nomear – e constantemente leva a mistificações da coisa nomeada, levando a verdadeiras miragens objetivas.

Na maior parte dos livros há modos de filtrar a experiência sem que ela, como problematiza e recomenda Wittgenstein, fale por si mesma – e esse parece ser o principal limite do ficcional: como expandir ou eliminar o limite entre o vivido e o ficcionalizado? O filósofo não perde de vista os aspectos ficcionais presentes tanto no discurso científico quanto em nosso léxico de uso comum. O que ele sugere nos diversas notações de O livro marrom, por exemplo, é que tomemos consciência disso.

Se observarmos que a literatura atual tem por objeto gerar visões objetivas ou semiobjetivas da realidade social, chegaremos a um cenário – levadas a sério as proposições de Wittgenstein – totalmente enganador. Mesmo sendo Wittgenstein, no fundo, um místico agostiniano-pascalino que decidiu lutar com as palavras usando as armas da lógica, não podemos deixar de perceber, nele, certa atualidade ao apontar os diversos ilusionismos que a língua pode praticar ao ser usada como imitação do real a partir apenas da unidade da experiência.

Talvez “a grande crise” que acometeu a escrita contemporânea seja uma crise do naturalismo e possa ser solucionada por outra lógica profundamente investigativa capaz de desconstruir os modos hegemônicos da representação – e através de outra abordagem do fazer literário que encare a língua, e a linguagem, como coisas a serem tensionadas e problematizadas, nos moldes do que a pintura fez com a cor e a luz, cheguemos ao fim de uma pseudo-ontologia radical que parece dominar o cenário das artes literárias e das artes em geral.



[Fonte Original]

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