As stablecoins deixaram de ser apenas um instrumento de transição para quem queria comprar Bitcoin ou outras criptomoedas e passaram a ocupar um espaço muito maior dentro da infraestrutura financeira global, segundo Jorge Borges, head de vendas e desenvolvimento estratégico de negócios da Fireblocks.
Segundo ele, o uso dessas moedas digitais “estáveis” saiu da lógica puramente cripto e passou a atender uma demanda mais ampla de movimentação de dinheiro, liquidação e distribuição de produtos financeiros em blockchain.
A leitura faz sentido num momento em que os números do setor mostram a força crescente desse mercado. Dados da RWA.xyz indicam que o valor total das stablecoins já supera US$ 300 bilhões, enquanto o mercado de ativos do mundo real tokenizados soma US$ 26,78 bilhões. A própria Fireblocks afirma processar 15% do volume global de stablecoins, com mais de 35 milhões de transações mensais e mais de 300 bancos e provedores de pagamento conectados à sua infraestrutura.
Em entrevista ao Portal do Bitcoin, Borges resume essa virada de forma direta: se antes as stablecoins eram usadas principalmente para representar dinheiro fiduciário dentro do ambiente cripto e servir de ponte para a compra de outros ativos digitais, agora elas passaram a ser empregadas para “movimentação do dinheiro” e para abrir caminho à chegada de outros produtos financeiros ao ambiente on-chain.
Na visão dele, a blockchain começa a se consolidar como uma nova interface do sistema financeiro, com ganhos de eficiência, escalabilidade e distribuição global.
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Esse processo, segundo o executivo, também ajuda a explicar por que o mercado já começou a olhar além das stablecoins. Ele afirma que, depois de um 2025 marcado pela expansão do uso desses ativos para pagamentos e movimentação de valor, 2026 começou com uma nova pergunta entre empresas e instituições: o que vem depois? A resposta, segundo ele, passa pela tokenização de outros instrumentos financeiros, incluindo ofertas ligadas a ações tokenizadas, mercados preditivos e estruturas lastreadas em dinheiro tokenizado.
Tokenização para as massas
Borges diz que a tokenização ainda esbarra em um problema de linguagem. Para ele, o investidor médio não está necessariamente interessado no termo em si, mas no que essa infraestrutura pode entregar: mais produtos, maior flexibilidade, liquidez ampliada e acesso a oportunidades antes restritas. Na prática, a tese é que o usuário não precisa “sentir” a tecnologia, desde que se beneficie dela.
Na entrevista, ele cita como exemplo um ambiente em que o investidor possa reagir a eventos fora do horário tradicional de mercado, mover recursos entre diferentes ativos e até acessar mercados secundários tokenizados. Ele também menciona a entrada de gigantes como BlackRock e Fidelity como indício de que a tokenização deixou de ser apenas uma tese de nicho e começou a ganhar corpo dentro das finanças tradicionais.
Os dados de mercado ajudam a sustentar essa percepção. A RWA.xyz mostra que os títulos do Tesouro americano tokenizados já somam cerca de US$ 10 bilhões, enquanto plataformas voltadas ao varejo europeu, como a Robinhood, já oferecem negociação de “tokens de ações”. Em outra frente, a Nasdaq anunciou uma parceria com a Kraken para avançar em um plano de ações tokenizadas, reforçando o movimento das bolsas e da infraestrutura tradicional em direção a esse mercado.
Regulação mais dura no Brasil deve acelerar consolidação
Olhando para o Brasil, Borges afirma que a Fireblocks acompanha de perto a construção do arcabouço infralegal e vê com naturalidade o fato de o Banco Central ter elevado a barra para o setor. Segundo ele, regras mais duras tendem a gerar reação do mercado, mas também podem trazer benefícios ao criar parâmetros mais claros para governança, segurança e controle de riscos.
Na avaliação do executivo, esse movimento deve levar parte das empresas a rever seus planos, enquanto outras podem acabar se unindo para conseguir cumprir os novos requisitos.
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O pano de fundo dessa fala é a sequência recente de normas publicadas pelo Banco Central. A Resolução BCB 521, de novembro de 2025, enquadrou atividades de prestadoras de serviços de ativos virtuais também em regras ligadas ao mercado de câmbio, enquanto o BC detalhou que essas empresas passariam a seguir exigências já aplicadas a outras instituições do sistema financeiro. Em janeiro de 2026, a Instrução Normativa BCB 701 definiu a forma de comunicação e os requisitos mínimos de certificação técnica para essas operações.
Apesar do aperto regulatório, Borges avalia que o Brasil segue bem posicionado no cenário global. Segundo ele, há interesse crescente de clientes de outras regiões em entender o que está acontecendo no país e na América Latina, em razão da combinação entre regulador ativo, grandes instituições envolvidas, forte adoção local e testes práticos com a tecnologia.
Na visão do executivo, o Brasil talvez não precise ser o primeiro a implementar tudo, mas pode sair na frente por já conhecer a infraestrutura e estar mais preparado para “virar a chave” quando o mercado amadurecer.
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