- Há spoilers. Leiam, aqui, nossas críticas de todo o material do Universo Absolute da DC Comics.
No segundo arco de Absolute Lanterna Verde que, como o título já deixa claro, é mais centrado em Sojourner “Jo”Mullein, que sem querer absorve os poderes de Lanterna Verde de Abin Sur com sua aliança de casamento de ouro em Sem Medo, Al Ewing continua resoluto em seu projeto de realmente remodelar toda a mitologia dos Lanternas, algo que ele trabalha não só com a introdução do maior número de personagens novos (nesse universo) possível, como, também, ao que tudo indica, dividindo os Lanternas em dois grandes grupos, aqueles que conseguiram seus poderes inadvertidamente (ou, talvez melhor dizendo, sem passar pelo processo que todos devem precisar passar) e aqueles que seguiram o caminho normal. Jo é um Lanterna, portanto, que se enquadra na primeira categoria, no que é acompanhada por Tomar-Re, o Lanterna, aqui Vermelho e não Verde, que nos é apresentado na primeira edição do novo arco que serve de prólogo completamente espacial que expande a mitologia, mas sem realmente explicá-la, com a apresentação de Sinestro, dos Blackstars e de Mogo, aqui um planeta senciente Blackstar e não Verde, mais parecendo peças de um jogo que ainda não têm função clara.
Ewing, aliás, mantém tênues e enigmáticas as conexões entre os Lanternas, mantendo Jo no centro das atenções, mas transformando Hal, que passa grande parte da história em coma, recuperando-se da “possessão” anterior, no Lanterna Magenta, ou, em tese, Safira Estelar, usando Guy Gardner e John Stewart – Lanterna Vermelho e Lanterna Amarelo, respectivamente – de maneira muito econômica e trazendo Tomar-Re quase que como uma força caótica que promete, considerando o cliffhanger em que ele chega com a “nave” Lanterna Verde de Abin Sur que caíra em Evergreen, para recrutar Jo para lutar contra Mogo. É muita informação ao mesmo tempo que mais distrai do que realmente constrói algo coeso, mas que, não tenho dúvida, convergirá em algum formato de explicação didática em futuro próximo. Mesmo bagunçando o coreto nesse segundo plano macro, a boa notícia é que, naquilo que gravita Jo mais diretamente, Ewing acerta bem.

O que significa acertar bem? Para começo de conversa, Ewing dá estofo dramático para Jo para além da sua absorção dos poderes de Abin Sur, retornando para seu passado, falando da relação com seu pai, sua amizade com Hal Jordan, o primeiro beijo – cheio de dúvidas – com Renee Montoya e seu relacionamento e casamento com Cameron Chase que explica o porquê de ela usar a aliança em Evergreen mesmo depois de anos do divórcio. Tudo isso consome boa parte do arco, mas, ao mesmo tempo, entrega ao leitor uma experiência normal, lógica e cadenciada que cria uma âncora narrativa em relação ao caos de Lanternas que vemos acontecer ao redor. É como se o roteirista estivesse nos dizendo algo como “olha, pelo momento prestem atenção em Jo e não na história macro, pois tudo vai ser explicado”. E, de fato, ele usa Jo e seu passado com instrumentos para trazer Cameron de volta à sua vida e, com sua parceira, vêm Simon Baz (que usa sua icônica máscara “de Lanterna”, mas porque ele não pode ver seu rosto no espelho senão ele morre, cortesia de uma maldição de um vilão que enfrentara) e Kari Limbo, que tem poderes psíquicos, além do assassino Keith Kenyon (Áureo no Brasil, Goldface no original), aqui apresentado como capaz de mudar sua aparência em razão de um gás que utiliza, e que trabalha para Hector Hammond com a missão de matar Jo.
Aliás, expandindo o círculo daquilo que se refere a Jo diretamente, vale dizer que Hammond ganha reforço como o estereótipo do vilão bilionário sádico que acha que pode fazer tudo ao transformar Todd Rice em uma versão monstruosa de Manto Negro – repetindo a maneira como Hal ganha poder de Blackstar – que ele controla por meio de um equipamento que vemos Áureo roubar e que também é capaz de captar mensagens (pensamentos?) alienígenas. Sim, é um pouco bagunçado, um pouco disperso, mas Ewing dá sentido a essa salada de nomes e situações e consegue estabelecer Jo, Hal, Cameron, Baz e Limbo como talvez a primeira “equipe do bem” coesa de todo o Universo Absolute até o momento. Além disso, de certa forma ecoando as questões do roteiro, o segundo arco não teve o privilégio de ter apenas Jahnoy Lindsay na arte como no anterior, o que acabou contribuindo para um pouco mais de percepção de desorganização. em Sojourner, ele só realmente trabalhou em duas edições e meia, com a dupla formada por Jason Howard e Riley Rossno cuidando do prólogo e Sid Kotian das outras três edições, uma delas dividindo o espaço com Lindsay. Não gosto quando isso acontece, pois a tendência é a unicidade visual se perder, mas, com exceção da arte do prólogo que, por ser bem desgarrado do restante, pode se dar ao luxo de ser diferente, diria que houve um bom esforço para tenta criar pelo menos um semblante de organização artística, o que, porém, acabou significando menos liberdade para Lindsay inovar. Fica a torcida para que, no próximo arco, ou Lindsay volte de vez ou outro desenhista – mas um só – entre para cuidar da história toda.
No final das contas tudo isso ainda é pouco para realmente fazer de Absolute Lanterna Verde um grande título da bem-sucedida linha editorial da DC Comics, mas é perfeitamente possível ver um esboço de um plano potencialmente muito interessante para os próximos arcos se Ewing não terminar de se perder com ainda mais personagens e cores de Lanternas. Na maioria das vezes, menos é mais e muita afobação pode tirar a força de uma mitologia que tem tudo para mostrar sua força e relevância nesse novo universo.
Absolute Lanterna Verde – Vol. 2: Sojourner (Absolute Green Lantern – Vol. 2: Sojourner – EUA, 2025/26)
Contendo: Absolute Green Lantern #7 a 12
Roteiro: Al Ewing
Arte: Jason Howard e Riley Rossmo (#7), Jahnoy Lindsay (#8, 11 e 12), Sid Kotian (#9, 10 e 12)
Cores: Iñaki Azpiazu (#7), Jahnoy Lindsay (#8, 11 e 12), Pressy (#9, 10 e 12)
Letras: Lucas Gattoni
Editoria: Ash Padilla, Andrew Marino, Katie Kubert, Chris Conroy
Editora: DC Comics
Datas originais de publicação: 1º de outubro, 05 de novembro e 03 de dezembro de 2025; 07 de janeiro, 04 de fevereiro e 11 de março de 2026
Páginas: 176