A prostituição é um tema que divide opiniões e provoca debates acalorados em diversas esferas da sociedade. Ao longo da história, essa prática esteve envolta em estigmas, preconceitos e discussões éticas que, por muitas vezes, ofuscam as realidades vividas por aqueles que a exercem. Enquanto uma parte da sociedade expressa repulsa à prostituição, associando-a a elementos desumanizadores e de exploração, outra parcela vê na atividade uma forma de autonomia e expressão da sexualidade. Essa dualidade entre repulsa e atração revela a complexidade do fenômeno da prostituição e suas implicações sociais, econômicas e psicológicas. É o que acompanhamos ao longo das quatro temporadas de O Negócio, série brasileira finalizada em 2018, um triunfo dramático na seara do entretenimento, assinado pela linha sofisticada da HBO Latina. Ao refletirmos sobre o tema, primeiramente, é essencial entender os fatores que levam indivíduos a optar pela prostituição. Para muitos, essa prática pode ser vista como uma alternativa econômica viável, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e falta de oportunidades. A pobreza, a falta de acesso à educação e a precariedade no mercado de trabalho são algumas das razões que fazem com que as pessoas entrem nessa atividade, muitas vezes impulsionadas pela necessidade financeira.
Essa realidade é amplamente ignorada por aqueles que condenam a prostituição sem considerar as circunstâncias que muitas vezes a cercam. Este não é o caso das garotas de programa de luxo desta série, como podemos acompanhar ao longo do desenvolvimento de suas jornadas. Aqui, o uso do corpo é uma espécie de ato feminista de escolha. Elas querem uma vida de conforto e que possam se tornar donas de si, diante de tabus estabelecidos socialmente. Para estas personagens, dedicar-se à prostituição é um ato de autonomia, uma maneira de controlar seu próprio corpo e decidir sobre sua sexualidade. Nesse contexto, a prostituição pode ser vista como uma prática que desafia normas sociais e patriarcais que cercam a sexualidade, permitindo expressões de desejo que, de outra forma, seriam silenciadas. Essa perspectiva ressalta a importância de desconstruir estigmas e preconceitos em torno do tema, promovendo um debate mais aberto e inclusivo. Importante lembrar sempre, que a prostituição também traz à tona questões éticas e morais que não podem ser ignoradas. A exploração sexual e o tráfico de pessoas são problemas graves que permeiam este universo, colocando em risco a dignidade e a saúde de indivíduos, principalmente mulheres e crianças. As condições em que muitos trabalhadores do sexo se encontram são alarmantes, muitas vezes caracterizadas por violência, abuso e falta de direitos.
Portanto, essa dimensão da prostituição não pode ser descartada, uma vez que representa uma realidade dolorosa que precisa ser abordada com responsabilidade e solidariedade. Por isso, por mais que seja divertida a dinâmica do entretenimento em O Negócio, é preciso também compreender que por detrás da romantização de determinadas escolhas, há um mercado sombrio que oprime e subjuga muitas destas pessoas trabalhadoras. A cada episódio avançado nas temporadas da série, minhas leituras e indagações em torno do assunto se tornavam mais expansiva, por isso acho pertinente dividi-las com vocês, por aqui, nestas críticas, meus caros leitores. A legislação referente à prostituição varia consideravelmente ao redor do mundo, refletindo a complexidade do tema. Em alguns países, a prostituição é legalizada e regulamentada, oferecendo proteção jurídica para trabalhadores do sexo e contribuindo para a diminuição do estigma associado a essa profissão. Em contrapartida, em muitos lugares, a prostituição ainda é criminalizada, o que expõe os trabalhadores do sexo a maiores riscos de violência e exploração. A falta de um quadro legal claro frequentemente resulta em ambientes de trabalho inseguros, onde os direitos humanos são frequentemente violados.
É necessário um diálogo que vá além de preconceitos e opiniões superficiais sobre a prostituição. Em alguns episódios da quarta temporada, Karin abre o jogo sobre sua profissão e até participa de um debate televisivo em torno dos estigmas diante das escolhas das garotas de programa. É uma decisão acertada dos realizadores em estabelecer este tópico como um dos pontos da temporada que demarca o desfecho da produção. O que conseguimos compreender, diante desta proposta temática no quarto ano de O Negócio, é que esse debate deve abranger as relações de poder, a desigualdade social e as questões de gênero que permeiam essa prática. Em vez de conotar a prostituição com repulsa ou atração, a sociedade precisa aceitar a complexidade da questão e se esforçar para entender as realidades dos indivíduos envolvidos. A educação e a conscientização são ferramentas fundamentais nesse processo, permitindo que as pessoas vejam além dos estigmas e tomem decisões informadas e empáticas sobre a prostituição. Ademais, o papel da sociedade em relação à prostituição deve ser um de acolhimento, proteção e promoção de direitos. É vital que as vozes dos trabalhadores do sexo sejam ouvidas e que políticas públicas sejam desenvolvidas com base em suas experiências e necessidades.
A criação de espaços seguros para discussões, a oferta de serviços de saúde acessíveis e o combate à violência de gênero são passos importantes para garantir que a prostituição seja uma opção e não uma imposição. Assim, sob a direção de Michel Tikhomiroff e com os roteiros inspirados nos argumentos de Fabio Danesi, Camila Raffanti e Alexandre Soares Silva, O Negócio lançou seu quarto ano em 2018, mantendo a tradição de apresentar 13 episódios com cerca de 50 minutos cada. Esta temporada continua a seguir a história das protagonistas que fundaram o empreendimento de prostituição Oceano Azul, explorando suas vitórias e desafios. As personagens principais não apenas navegam pelas complexidades do mundo do sexo, mas também enfrentam as nuances emocionais e profissionais que surgem em suas vidas. A série, que se destaca por seu realismo e profundidade, mantém o interesse do público ao abordar questões contemporâneas de forma ousada e crítica. Como habitual, Karin, interpretada por Rafaela Mandelli, brilha como a líder do grupo, sendo uma empreendedora visionária que não hesita em tomar decisões em prol do crescimento do negócio.
Ela conta com o apoio de suas sócias, Luna, vivida por Juliana Schalch, também a eficiente narradora da produção, e Magali, interpretada por Michelle Batista, figuras ficcionais que trazem suas próprias perspectivas e experiências à mesa. Juntas, elas enfrentam um mundo repleto de desafios, mas também de oportunidades, enquanto equilibram suas vidas pessoais e profissionais. A trama se desenrola entre momentos de leveza e seriedade, refletindo a complexidade das relações e das escolhas feitas por cada uma das personagens. A série, portanto, não apenas capta a essência do trabalho sexual, mas também humaniza suas protagonistas, permitindo que o público se conecte com suas jornadas. Enquanto Luna precisa lidar com a sua família, pois agora eles sabem sobre sua profissão, Magali lida com as emoções de um relacionamento poliamoroso e as influências de seus pais, agora mais falidos do que antes, em sua vida. Firme, os últimos episódios de O Negócio encerram os arcos destas personagens sem romantizar as suas escolhas peculiares, mostrando que as dificuldades sempre estarão presentes, mas que diante da garra e da firmeza, elas continuarão indo cada vez mais longe no ramo que se estabeleceram.
Nesta quarta temporada, Mia, interpretada por Aline Jones, passa a ocupar o papel de destaque anteriormente associado ao posto de Karin, sendo a “novidade”, após a fundadora decidir focar apenas na administração dos negócios e parar de atender. Com sua inteligência emocional e intelectual, Mia se transforma em uma das figuras centrais da trama, proporcionando momentos significativos e reflexivos. Ao mesmo tempo, Ariel, vivido por Guilherme Weber, mantém sua presença cômica com seu jeito direto e despretensioso, contrastando com a sofisticação de César (Eduardo Semerjian). Juntos, eles formam uma dinâmica que acrescenta leveza e humor à narrativa, contribuindo para o equilíbrio das interações de Karin no setor. Por outro lado, Oscar (Gabriel Godoy) parece se distanciar da trama, refletindo sua contínua falta de motivação e se tornando um coadjuvante menos relevante na vida de Luna, que agora mostra menos interesse em seu relacionamento. Zanini (Kauê Telloli), sempre apaixonado por Magali, enfrenta o desprezo constante da garota de programa, o que destaca a complexidade das relações amorosas na série. Já Iuri (Johnnas Oliva), após uma intensa e traumática jornada de fuga, retorna à narrativa de forma renovada, resgatando seu contato com Luna e apresentando-se como um personagem mais focado e com propósito.
O lançamento da autobiografia de Karin marca um dos principais pontos de partida da última temporada de O Negócio, onde são abordados temas como a reação das famílias às revelações contidas no livro e os desafios da exposição pública. A decisão da protagonista de compartilhar sua história é uma tentativa de combater o preconceito que enfrenta como garota de programa. A série explora de maneira visceral os conflitos que surgem a partir de sua decisão, evidenciando as tensões com segmentos conservadores da sociedade e grupos que se opõem à sua visão, além da pressão social por aceitação. A temporada final não apenas traz reviravoltas dramáticas, mas também introduz antagonistas significativos, como Rodolfo Sherman (Dalton Vigh), que representa a resistência ao novo discurso de Karin, e um apresentador de TV interpretado por Eduardo Moscovis, que serve como uma figura desafiadora para suas atitudes e ideais. A narrativa se aprofunda nas dificuldades que as personagens enfrentam ao lidarem com a mídia, a opinião pública e suas próprias realidades pessoais em um mundo que muitas vezes marginaliza suas escolhas. Este contexto de luta e determinação destaca a jornada de autodescoberta e afirmação de Karin e suas parceiras, refletindo a busca contínua por respeito e dignidade em meio a um cenário repleto de julgamentos e preconceitos. No geral, uma temporada final melhor que o ano anterior e com desfecho digno para uma história de personagens envolventes.
O Negócio – 4ª Temporada (Brasil, 18 de março de 2018 – 3 de junho de 2018)
Criação: Luca Paiva Mello, Rodrigo Castilho
Direção: Júlia Pacheco Jordão, Michel Tikhomiroff
Roteiro: Luca Paiva Mello, Rodrigo Castilho, Fabio Danesi, Camila Raffanti, Alexandre Soares Silva
Elenco: Juliana Schalch, Rafaela Mandelli, Michelle Batista, Guilherme Weber, Gabriel Godoy, Eduardo Semerjian, Johnnas Oliva, Kauê Telloli, Aline Jones, João Côrtes, Gabriela Cerqueira, Cris Bonna, Júlia Feldacker, Caio Blat, Maria Casadevall, Felipe Abib, Marco Pigossi, Enrico Tocci, Maria Zilda Bethlem, Daniel de Oliveira, Fernanda Machado, Lee Taylor Young, Paulo Tiefenthaler
Duração: 44 min. em média por episódio (12 episódios)