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domingo, março 15, 2026

Como o Avanço Tecnológico Barateou os Melhores Filmes do Oscar

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Por muitos anos, a indústria do cinema foi impulsionada por blockbusters como Titanic e O Gladiador, cujos orçamentos ultrapassavam a casa dos 9 dígitos. Produções massivas e de alto custo eram sinônimo de qualidade digna de Oscar, ainda mais com o avanço de novas tecnologias na área, como o surgimento do CGI e câmeras 3D. Porém, nos últimos 15 anos, as produções vencedoras da categoria de Melhor Filme do Oscar passaram a operar com orçamentos menores, com média em torno de US$ 22 milhões, salvo alguns casos específicos, como Oppenheimer (2023), que foi contra a maré e recebeu um investimento de US$ 100 milhões.

Fazendo um recorte dos últimos 30 anos da premiação, observa-se que, na primeira metade do período, os filmes vencedores tinham orçamento médio de US$ 53 milhões, valor que caiu em 60% nas produções mais recentes. Alguns dos motivadores para essa mudança tão brusca no perfil do Oscar incluem o surgimento do streaming — que colaborou para a democratização do cinema em escala global — e o avanço de tecnologias em todas as etapas da produção. Isso porque processos que ainda estavam sendo descobertos nos anos 90 exigiam equipes massivas e investimentos expressivos para serem realizados. Com o aprimoramento dessas tecnologias, porém, produções repletas de efeitos especiais passaram a exigir estruturas menores e custos mais acessíveis, podendo até ser desenvolvidas em computadores dentro de casa, com o apoio de ferramentas de inteligência artificial que otimizam diferentes etapas da produção.

“Os efeitos visuais sempre andaram de mãos dadas com a tecnologia. E o avanço tecnológico representa mais possibilidades para o desenvolvimento de filmes, além de maior abrangência de recursos e democratização de uso. Sempre haverá uma diferença de resultado de acordo com os recursos, como no caso de Avatar e Avengers, mas com certeza, produções com menos recursos passam a ter acesso à possibilidades que elevam em qualidade e quantidade de uso dos efeitos visuais”, afirma Cláudio Peralta, Supervisor de Efeitos Visuais da Conspiração Filmes, que atuou na pós-produção de Ainda Estou Aqui, vencedor da categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2025.

Forbes Brasil

Atualmente, produções têm acesso a uma ampla gama de ferramentas que possibilitam a manipulação de cenários, explosões e personagens virtuais. A possibilidade de filmar em estúdio com Virtual Production, por exemplo, tem permitido que projetos complexos sejam realizados de forma mais eficiente. Isso porque a técnica auxilia na integração entre o mundo físico e o digital por meio de paredes de LED e motores de renderização, que criam cenários virtuais com profundidade e realismo ainda durante as gravações no set. O resultado é melhor interação entre atores e ambiente, além da redução de custos com locações e etapas de pós-produção.

A minissérie da Netflix, Senna, produzida no Brasil por uma equipe majoritariamente brasileira, fez uso dessa e de várias outras tecnologias que trouxeram de volta às telas carros e circuitos que marcaram a trajetória de Ayrton Senna. Marcelo Siqueira, Especialista em Efeitos Visuais e cofundador da MISTIKA, foi responsável por grande parte das etapas finais da produção, levando a série a entrar no Top 10 Mais Assistidas da plataforma em 58 países.

Em entrevista à Forbes Brasil, Siqueira menciona o filme Godzilla Minus One, feito no Japão, que ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Visuais com uma equipe muito pequena. “O mundo americano está acostumado a equipes gigantescas, com tudo muito setorizado. Mas o mundo vem mudando: a eficiência vem de outros lugares, e quando entra a inteligência artificial, cria-se um descompasso nessa balança do mundo Hollywoodiano. Isso abre portas para países que não eram relevantes no cenário dos efeitos visuais, e que passam a ter a mesma possibilidade de competição”.

Para que hoje fosse acessível a estúdios independentes, a tecnologia precisou primeiro ser impulsionada por produções de grande escala, que ajudaram a consolidar essa nova era das produções cinematográficas. Alguns filmes se destacaram nessa jornada, incluindo a franquia de Avatar, que apesar de nunca ter vencido a principal categoria do Oscar, acumula uma série de indicações e vitórias, com produções revolucionárias que já ultrapassam o orçamento total de US$ 1 bilhão. Abaixo, detalhamos as tecnologias utilizadas em alguns blockbusters dos últimos 30 anos de cinema.

Titanic (1997)

Titanic
Bright SideMais de 30 mil litros de água foram usados na gravação

O primeiro longa que merece destaque é Titanic (1997), de James Cameron, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1998. Além de ter contado com um orçamento colossal de US$ 200 milhões — valor nunca antes visto pela indústria cinematográfica — ele também é aclamado pelo uso de tecnologias ainda emergentes na época, como o CGI, e pelo desenvolvimento de outras criadas especificamente para o longa.

A idealização de tecnologias ainda inexistentes é um traço predominante na direção de Cameron — algo que posteriormente seria visto novamente em Avatar — , isso porque o diretor estava tão dedicado a recriar o filme da forma mais fiel possível que ele precisou desenvolver, junto com a Panavision, uma câmera especial que suportasse a pressão no fundo do mar. Por meio de robôs subaquáticos, Cameron também apostou no escaneamento digital do Titanic afundado, para a criação de uma réplica em 3D do navio.

Já o uso de CGI, ainda muito limitado na época e com renderização extremamente lenta, foi feito com o auxílio de miniaturas de passageiros e do navio. A captura de movimentos dos atores foi aplicada nos avatares — tanto que é possível perceber que os personagens artificiais não possuem muita definição de traços e costumam reproduzir movimentos repetidos — e efeitos de fumaça e água foram adicionados por meio de computação gráfica para adicionar sensação de vida e escala.

Titanic
ReproduçãoCenas do alagamento e réplica do navio

Mas nem só de tecnologias revolucionárias é feito um filme. Ao todo, mais de 300 mil litros de água foram utilizados para a gravação, tanto devido à limitação do CGI de reproduzir o líquido quanto a um desejo do diretor de criar cenas reais para capturar emoções sinceras dos atores e figurantes. A cena emblemática da escada sendo submergida, por exemplo, precisou ser gravada em um take, isso porque a destruição dos elementos de cena foi real.

“Ferramentas que dizem respeito a simulação de fluidos e o barco quebrando, sem dúvida, baratearam e melhoraram. Isso não quer dizer que se nós fossemos fazer o Titanic hoje, não teríamos que usar milhões de litros de água também”, afirma Siqueira. Para ele, dizer que o mesmo filme poderia ser feito de forma mais simples é dar um pulo muito grande em direção ao uso total de computação gráfica e IA. “O mundo dos efeitos visuais compõe também o mundo dos efeitos especiais, que são os feitos no set. Então vai entrar água, tem que afundar, porque os atores precisam reagir àquilo, senão você não vai ter o realismo que precisa”.

O filme recebeu 11 estatuetas do Oscar, ocupando até hoje o ranking dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema, com mais de US$ 2 bilhões arrecadados.

Avatar (2009-2025)

Avatar
Reprodução/TwitterKate Winslet em cena

Logo após o sucesso de Titanic, James Cameron idealizou o que viria a ser o filme que levaria aos cinemas o conceito de 3D pela primeira vez.

Quando Avatar foi concebido, Cameron propôs usar tecnologias que nem sequer existiam. Ao ter sua proposta declinada pelos estúdios, o diretor resolveu esperar para que pudesse criar o filme da maneira que havia idealizado. Foi no início dos anos 2000 que ele foi impactado pelas tecnologias utilizadas em Senhor dos Anéis: o Retorno do Rei, e decidiu ir atrás de Peter Jackson para desenvolver a tecnologia que daria vida ao universo de Pandora.

Com o orçamento recorde de US$ 237 milhões, Avatar foi pioneiro na integração entre live action e CGI com tamanho realismo. A precisão dos movimentos e das expressões faciais das criaturas se devem à tecnologia Captura de Performance, na qual os atores vestem uma espécie de malha composta por refletores. Ao todo, foram 180 câmeras simultâneas capturando todos os movimentos corporais de todos os ângulos possíveis.

O segundo filme da franquia, apesar de já ter sido concebido por Cameron nos anos 90, demorou mais 13 anos até que fosse lançado. Isso porque o diretor queria levar a história para debaixo d’água, e na época não existiam tecnologias para reproduzir ações submersas de forma fidedigna.

Com orçamento estimado entre US$ 350 a 460 milhões, Avatar: O Caminho das Águas chegou aos cinemas em 2022, estreando a tecnologia de 3D estereoscópico, capaz de dar mais profundidade aos cenários e elementos virtuais. O filme também apostou em Motion Picture, que transfere movimentos e expressões dos atores de forma digitalizada — é uma evolução ainda mais detalhista da captura de performance.

Avatar
Reprodução/TwitterAvatar: O Caminho das Águas foi gravado embaixo da água

Para as cenas feitas embaixo d’água, os atores foram colocados em tanques cheios de bolinhas flutuantes que impediam que a luz do estúdio atrapalhasse a captura das imagens. A complexidade da produção foi tamanha que a equipe tentou convencer Cameron a mudar de ideia e gravar em terra firme. Porém o diretor se recusou, alegando que a resistência da água afeta cada gesto dos atores, e isso só poderia ser replicado de forma submersa.

A solução da equipe foi usar câmeras de movimento com luz ultravioleta, mais eficientes embaixo da água. A produção também usou hélices de navio para criar correntes de água e propulsores subaquáticos para facilitar o movimento dos atores.

Os três filmes da franquia acumulam, até o momento, quatro vitórias no Oscar, sendo duas por Efeitos Visuais. Avatar (2009) segue sendo o filme de maior bilheteria da história, enquanto O Caminho das Águas (2022) ocupa a terceira posição no ranking.

Oppenheimer (2023)

Oppenheimer
Divulgação/Melinda Sue Gordon/Universal PicOppenheimer foi gravado com câmeras IMAX

O último filme de Christopher Nolan foi um ponto fora da curva: em meio a produções independentes de baixo custo, a Universal investiu US$ 100 milhões na cinebiografia do criador da bomba atômica.

Oppenheimer foi filmado em câmeras IMAX e Panavision de mais de 100 quilos, tanto em cores quanto em preto e branco. Nolan optou por usar o mínimo de CGI possível para reproduzir as explosões do filme, para “não correr o risco de que as cenas ficassem artificiais”.

Para recriar o Projeto Manhattan, espaço utilizado por Oppenheimer nos testes da bomba atômica, a equipe reconstruiu uma torre de aço de 30 metros de altura e um bunker de concreto em um deserto do Novo México. Lá, a equipe detonou e fotografou uma explosão real, resultante de uma mistura de TNT, pólvora negra, gasolina, magnésio e pó de alumínio.

Nolan explicou à National Geographic que o teste Trinity deveria transmitir o horror da criação de Oppenheimer, tinha que parecer letal e aterrorizante. Para o diretor, criar a bomba 100% com CGI pareceu “seguro demais”.

A dimensão da bomba atômica, no entanto, precisava ser criada de forma computadorizada. Os supervisores de efeitos visuais e especiais guiaram diferentes tipos de experimentos para compor a cena: desde bolas de ping-pong esmagadas até soluções luminosas de magnésio. Na edição, foram incorporados elementos como ondas de choque, efeitos de iluminação, metal fundido e outros recursos para simular a explosão em escala.

Este foi um dos filmes com maiores orçamentos a vencer um Oscar nos últimos anos, na categoria de Melhor Filme, tendo arrecadado US$ 958 milhões em bilheteria.

O paradoxo

O caso de Nolan sugere que, mesmo em uma era dominada por tecnologias cada vez mais potentes, o real continua sendo central na experiência cinematográfica.

Para Marcelo Siqueira, em um mundo onde a inteligência artificial domina o audiovisual e tudo que é visto tem sua veracidade questionada, a tentativa de adotar um estilo mais artesanal é uma contramão que pode ser muito positiva. Gravações com o uso de película, por exemplo, são utilizadas para criar uma estética diferenciada — como foi o caso de Marty Supreme, também indicado ao Oscar 2026. O longa foi filmado em película 35mm para dar textura e até imperfeições à imagem, gerando uma sensação de realidade mais palpável e reforçando a estética dos anos 50, período em que se passa o filme.

Cláudio Peralta ressalta, no entanto, que mesmo as produções que tentam preservar ao máximo o trabalho manual ainda dependem de muitos recursos de pós-produção, “simplesmente porque existem situações que já não podem mais ser realizadas de forma real, como colocar um ator ou dublê em risco de morte para uma cena de ação”. Para ele, o uso da IA deve seguir os mesmos passos: “Algumas produções vão abraçar muito rapidamente o seu uso, pela grande viabilidade financeira que ela pode trazer, mas outros vão preferir a forma tradicional de se contar histórias. Eu gosto de estar em contato com os dois mundos, sem nunca abrir mão da qualidade por uma convicção ou outra”.

Uma nova dinâmica

Getty ImagesAntes de Anora, Mikey Madison fez parte do filme Era uma vez em….Hollywood, de Quentin Tarantino

Indo além do desenvolvimento de tecnologias de pré e pós-produção, outro fator que impulsiona essa redução de orçamento nos filmes vencedores do Oscar são os streamings. Isso porque as plataformas democratizaram o acesso a filmes vindos de diferentes partes do mundo, desafiando a hegemonia dos grandes estúdios. A nova realidade também abriu espaço para o aumento da representatividade social nas produções, além de quebrar o paradigma de que apenas filmes com orçamentos grandiosos são considerados bons o suficiente.

“O público também começou a mudar um pouco o que quer consumir, estamos saturados daquelas histórias da Marvel, que levavam o público para o cinema por causa do espetáculo como um todo. E o que fazia diferença nisso eram os efeitos visuais. Então na hora que essa grandiosidade de efeitos deixa de ser o grande diferencial que leva um filme a ser um blockbuster, a história é que vale. E aí uma história bem contada, mesmo com o menor custo, vira outro mundo”, afirma Siqueira.

Estúdios Hollywoodianos, como Warner Bros. e Universal, que dominavam a indústria no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, começaram a ceder espaço para produtoras independentes, como A24 e Neon, além de plataformas de streaming, como Netflix e Apple TV. Em 2025, por exemplo, O Oscar trouxe algo inédito: os principais prêmios da noite foram entregues a filmes com financiamento independente, como Anora, vencedor da categoria Melhor Filme, e cujo orçamento ficou em torno de US$ 6 milhões.

Essas distribuidoras apostam em filmes que muitas vezes não teriam espaço nas grandes produtoras: a A24, por exemplo, é responsável por filmes como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo e Moonlight. Já a Neon, que distribuiu Anora, também leva nomes como Parasita — primeiro longa-metragem em língua não inglesa a ganhar principal categoria da noite — e Eu, Tonya.

O que muda para o Brasil?

Reprodução/IMDb

Com o aumento no número de produtoras independentes e de serviços de streaming ao redor do mundo, a concorrência na indústria audiovisual se intensificou significativamente, ampliando a disputa por audiência e espaço. Para Siqueira, essa nova dinâmica exige investimento inteligente e eficiente, que atenda a um mercado consumidor em constante mudança. “O Agente Secreto, por exemplo, tem orçamento infinitamente menor do que um low-budget nos Estados Unidos. E por que ele deu certo? Porque nós estamos acostumados a trabalhar de forma absolutamente econômica e planejada, e quanto mais você planeja, mais assertivo você é”, afirma.

Antigamente, o Brasil era visto pela indústria cinematográfica como um lugar ainda muito amador, porém com o advento dos streamings, produtoras precisaram subir o nível de suas entregas, se baseando em um alto rigor de qualidade. Nesse cenário, o País tem provado que o esteriótipo de amador já não se sustenta: diversas produções nacionais ganharam destaque em âmbito internacional, e filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto repercutem entre os melhores do mundo ao serem indicados ao Oscar.

Ainda Estou Aqui é um belo exemplo de filme que conseguiu se fazer valer da tecnologia para viabilizar o que seria impossível de ser filmado”, afirma Peralta, que fez parte da produção do longa. “Era necessário estabelecer um Rio de Janeiro de 1970, com todos os detalhes que o diferenciam de um Rio de Janeiro de hoje, 55 anos depois. E o ponto mais crítico era justamente da casa da família, onde se passa a maior parte do filme. Encontramos uma casa muito similar com a verdadeira, mas que ficava na Urca, então foi necessário ‘trazer’ essa casa para a praia. O filme inclusive ganhou o prêmio de Melhores Efeitos Visuais no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (Prêmio Grande Otelo)“.

Para Peralta, o Oscar de Melhores Efeitos Visuais sempre será de grandes produções, a mudança está no fato de que tecnologias de ponta já estão ao alcance de mais artistas. “Não estamos falando de equipamentos de milhares de dólares e profissionais únicos, como era a 25 anos atrás. Agora um bom profissional pode trabalhar de casa, em um computador que pode ser comprado por um freelancer, e a entrega vai ser em num nível melhor do que esses equipamentos entregavam antigamente”.

Siqueira, por sua vez, afirma que a virada de chave para o Brasil aconteceu no cenário pós-Covid, com a transformação na forma de trabalho ao redor do mundo. Ele relembra que minissérie Senna contou com uma equipe de cerca de 1.300 pessoas trabalhando, sendo que 90% delas estava atuando remotamente. “Qualidade nós sempre tivemos, só não tínhamos escala. Só que depois da pandemia, não existe mais fronteira: todo mundo foi obrigado a trabalhar de casa. Isso dá oportunidade para o Brasil mostrar o que sabe fazer”.

[Fonte Original]

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