A extrema-direita liderava neste domingo o primeiro turno das eleições municipais em várias cidades do sul da França, segundo as primeiras estimativas do pleito, que também poderia ver Paris se inclinar para a direita após 25 anos de administração da esquerda. Embora as eleições municipais costumem seguir lógicas locais, com chapas não partidárias na maioria das 35 mil localidades francesas, a votação permite medir o peso dos partidos antes da eleição presidencial de 2027.
O eurodeputado de extrema-direita Jordan Bardella lidera as pesquisas para as presidenciais, nas quais o presidente Emmanuel Macron, de centro-direita, não poderá concorrer a um novo mandato. A líder da extrema-direita, Marine Le Pen, por sua vez, está até o momento impedida judicialmente de disputar a eleição.
— A mudança não espera 2027. Começa no próximo domingo — afirmou Bardella neste domingo, ao pedir votos no segundo turno para “prefeitos profundamente patriotas, que serão a voz da alternância e da recuperação”.
No sul da França, dois prefeitos do partido Reagrupamento Nacional (RN) foram reeleitos no primeiro turno, segundo as primeiras estimativas: Louis Aliot, em Perpignan, e David Rachline, em Fréjus. O partido de Marine Le Pen também poderia vencer em outras cidades do litoral mediterrâneo, como Toulon e Nimes, onde liderava a apuração do primeiro turno.
Um bom resultado reforçaria a posição do partido de Le Pen com vistas às eleições presidenciais de 2027. As eleições legislativas antecipadas de 2024, que provocaram uma profunda crise política na França, já haviam consolidado o partido como um dos três principais blocos políticos do país, ao lado da esquerda e da centro-direita.
Quase 49 milhões de pessoas estavam habilitadas a votar nas eleições municipais. Segundo Marta Lorimer, professora da Universidade de Cardiff, o pleito é acompanhado de perto na União Europeia para medir “em que ponto a França está a um ano de eleições cruciais para o futuro da Europa”.
Uma das primeiras surpresas, no entanto, foi a participação eleitoral. Entre 56% e 58,5% dos eleitores compareceram às urnas no primeiro turno, um dos índices mais baixos desde meados do século XX, superior apenas ao registrado nas eleições de 2020, realizadas na pandemia.
— Não é uma boa notícia — advertiu Adélaïde Zulfikarpasic, analista da Ipsos BVA, ao comentar o impacto da baixa participação na democracia, sugerindo que o nível reduzido de comparecimento às urnas está relacionado à crise política no país e ao contexto internacional da guerra no Oriente Médio, que acabou ofuscando a campanha eleitoral.
Em Paris, administrada pela esquerda desde 2001, o deputado socialista Emmanuel Grégoire busca suceder à atual prefeita, Anne Hidalgo, que decidiu não disputar um terceiro mandato. Seu programa aposta na continuidade da gestão, em aliança com ecologistas e comunistas.
Grégoire lidera as pesquisas, que também apontam a possibilidade de vitória de sua principal adversária, a ex-ministra conservadora Rachida Dati. A candidata construiu sua campanha em torno da promessa de alternância no poder e de críticas à insegurança e à sujeira na capital francesa.
Grégoire, com 36,5% dos votos, e Dati, com quase 25%, devem disputar a prefeitura no próximo domingo, no segundo turno, ao lado de pelo menos outros dois candidatos: Sophia Chikirou (esquerda radical) e Pierre-Yves Bournazel (centro-direita), de acordo com o instituto de pesquisas Ipsos BVA. Nesse cenário, as alianças entre o primeiro e o segundo turno serão decisivas para definir quem chegará à Prefeitura.
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Situação semelhante ocorre nas principais cidades francesas. Os ecologistas tentam manter as prefeituras conquistadas em 2020 durante a chamada “onda verde”, em cidades como Lyon e Estrasburgo.
Os diálogos e as eventuais alianças no segundo turno serão “uma antecipação do que veremos no próximo ano”, afirmou Mujtaba Rahman, diretor para a Europa da consultoria Eurasia Group, em referência às eleições presidenciais.
Na esquerda, repetir as alianças das eleições legislativas de 2022 e 2024 com o partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI) parece difícil devido à polêmica em torno das suspeitas de antissemitismo envolvendo seu líder, Jean-Luc Mélenchon.
As eleições municipais também podem reafirmar as ambições presidenciais do ex-primeiro-ministro de Macron, Édouard Philippe. Ele concorre à reeleição na cidade portuária de Le Havre, onde venceu o primeiro turno. (Com AFP)