O dólar à vista registrou desvalorização frente ao real nesta quarta-feira, em meio às notícias sobre as negociações entre os Estados Unidos e o Irã para o fim da guerra. Embora não haja nada concreto e o Irã insista em negar qualquer tipo de tratativa, os agentes globais se apegaram ao suposto diálogo entre os países para reduzir o prêmio de risco dos ativos. Esse alívio não esteve nítido em todos os mercados de câmbio, possivelmente porque ontem já ocorreu uma descompressão nos prêmios diante da notícia de um possível cessar-fogo. Isso, porém, ocorreu quando o mercado à vista no Brasil já estava fechado, o que explicou a diferença entre as variações dos contratos desse mercado em relação ao mercado futuro na sessão.
Encerradas as negociações do mercado à vista, o dólar teve desvalorização de 0,65%, cotado a R$ 5,2201, depois de ter encostado na mínima de R$ 5,2046 e batido na máxima de R$ 5,2484. Já o euro comercial caiu 0,86%, a R$ 6,0349. Perto das 17h10, no exterior, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, apreciava 0,21%, aos 99,638 pontos.
Desde o começo da sessão, o dólar à vista exibiu desvalorização frente ao real, refletindo um alívio nos prêmios de risco por conta das tratativas entre Estados Unidos e Irã para o fim da guerra. Já no começo da manhã, o banco ING apontava que os ativos de risco estavam em alta após notícias de que os EUA apresentaram um plano de paz de 15 pontos para negociar o fim dos embates.
“Há indícios de que as negociações de cessar-fogo possam começar em Islamabad, no Paquistão, na quinta-feira. Não somos especialistas em geopolítica, mas imaginamos que o Irã teria como principal vantagem a alta dos preços da energia em qualquer negociação”, diz o chefe de mercados do banco holandês, Chris Turner. “Portanto, provavelmente é muito cedo para esperar uma queda significativa nos preços da energia ou uma desvalorização considerável do dólar esta semana. Na prática, os EUA e Israel têm poder militar, mas o Irã demonstrou claramente que possui poder econômico.”
Como lembra o banco, quanto mais tempo o Estreito de Ormuz permanecer fechado, maior será o impacto na economia global, com o racionamento de combustível já sendo implementado em alguns países.
Por conta disso, Turner diz que ainda é cedo demais para esperar outra queda significativa do dólar e prevê o índice DXY se mantendo em alta, na faixa de 99 a 100 pontos esta semana. “Os investidores provavelmente ainda estão com posições acima da média em ações, especialmente na Europa e em mercados emergentes, e continuam posicionados para uma resolução rápida desse conflito.”
No caso do mercado local, José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, aponta que o real vem se comportando bem e a casa segue com viés construtivo para o câmbio brasileiro. “O real depreciou 4% no auge do problema, e isso é muito pouco, em especial se olharmos o que ocorreu com os pares”, diz. Para Júnior, é difícil imaginar o Banco Central fazendo cortes de juros mais agressivos enquanto houver essa incerteza sobre a guerra no horizonte. “Porque teremos não apenas a pressão inflacionária vindo pelo petróleo, mas pelo biodiesel, pelo milho e, por consequência devido à ração animal, pelas proteínas. Então não é razoável apostar em queda de juros mais forte agora.”
Assim, a combinação de juros mais elevados por mais tempo e preços de commodities em alta deve beneficiar o câmbio brasileiro, avalia o diretor da Wagner Investimentos. “Claro, se houver uma piora na percepção de risco global, moedas de países emergentes desvalorizam, e o real não escapa”, afirma. “Mas, se olharmos historicamente, o efeito do estresse geopolítico nos mercados não passa de 60 dias. Pode se prolongar, nunca sabemos, mas se levarmos em consideração o histórico, podemos estar chegando na metade do pior cenário, depois tende a melhorar.”
Júnior também aponta que o cenário eleitoral, com chances de a esquerda não vencer o pleito presidencial neste ano, também pode ser outro suporte ao câmbio. “Bem ou mal, o Polymarket mostra a esquerda mais fraca nas eleições, com Lula menos de 50% de chances de vitória. Isso é visto com bons olhos pelo mercado que espera uma mudança na condução da política fiscal”, acrescenta.
Além do mencionado, hoje o dólar casado operou abaixo do projetado para o dia, embora boa parte da manhã tenha ficado em linha com o esperado. Operadores estimavam que o casado estivesse hoje em 6,1 pontos e encerrou o dia a 5,9 pontos, indicando maior pressão. Com o casado a 5,9, a sua taxa fica perto de 6,5%. Ontem, quando o BC atuou, a taxa estava em torno de 7,3%.