O elevado grau de complementaridade em transição energética faz do Brasil e da China aliados naturais não só para a meta de descarbonização em seus próprios territórios, como no impulso da economia verde global. No presente contexto geopolítico, marcado pelas guerras no Oriente Médio e na Ucrânia e pelo avanço do protecionismo, sobre esses dois emergentes pesam as tarefas conjuntas de criar mercados para os negócios desse setor e de destravar o comércio de seus bens e serviços. Tais desafios foram destacados no painel sobre a liderança global das duas nações na transição energética e em minerais críticos, no “Summit Valor Brasil-China 2026”.
Para o economista Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília e senior fellow do Instituto Clima e Sociedade (ICS), a guerra no Oriente Médio, em especial, e a escalada protecionista impõem a diversificação de provedores de bens, serviços e tecnologias para os modelos de transição energética traçados por governos e empresas. As mudanças climáticas não dão pausa diante dos riscos às cadeias de suprimentos e de valor gerados pela geopolítica. Mas, em sua opinião, tal necessidade abre uma agenda de negócios – com investimentos estimados de US$ 100 trilhões a US$ 280 trilhões até 2050 – na qual Brasil e China terão protagonismo. Ambos elegeram a agenda verde como suas prioridades nacionais. “São dois países que não só têm riquezas nesses temas, mas também em termos de tecnologias e de necessidades mútuas.” Em boa medida, há sinergia na atuação dos dois países nesse campo.
A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), que atua na exploração e na agregação de valor ao nióbio em Araxá (MG), deu um salto em seu crescimento ao apostar na liga ferro-nióbio – insumo que tem contribuído para a redução das emissões de CO2 da indústria siderúrgica do Brasil e da China e de setores consumidores do chamado aço verde, como a construção civil. Segundo o CEO da empresa, Ricardo Lima, um passo além está em fase de maturação. A partir de minerais críticos e estratégicos, a CBMM investe na produção de óxidos essenciais para a produção de baterias de alta performance.
O projeto tem potencial para permitir a uma ampla gama de setores produtivos e de serviços o uso de energias renováveis. “Pode-se montar uma fábrica de baterias no Brasil. Mas, para isso, precisamos ter um mercado”, explicou Lima, ao citar a concessão de incentivos oficiais para que haja demanda por essa tecnologia de última geração. “A gente vê que, aqui na China, essas políticas de Estado têm dado muito resultado.”
Marcelo Sampaio, diretor executivo de Assuntos Jurídicos e Institucionais da Vale Minerals China, concorda com o papel de governos na indução de setores voltados à transição energética do país. Mas, conforme afirmou, a empresa incorporou uma “visão holística” desde a exploração à entrega de minério de ferro e cobre, ambicionados especialmente em projetos de descarbonização. Em sua visão, as agendas de transição energética e de minerais críticos “conversam entre si”.
Como exemplo, Sampaio citou a parceria da Vale com empresas chinesas para a construção de dez embarcações movidas a velas rotativas e biocombustíveis, a serem utilizadas no transporte de minérios brasileiros a partir de 2027.
Na outra mão, a chinesa Hexing Electrical consolidou-se na fabricação de medidores no Brasil, onde investe desde 2016 e detém mais de 60% do mercado. Segundo Shelley Wang, diretora para o Brasil da empresa chinesa, uma das atuais prioridades da companhia está no impulso à indústria brasileira de equipamentos para energia renovável. “Queremos ser grandes fornecedores de tecnologia para o setor de energia sustentável e trazer nosso conhecimento para o Brasil e a América Latina”, declarou Wang.
Se remover obstáculos à comercialização de bens e serviços necessários à transição energética será tarefa de Brasília e Pequim, o financiamento a investimentos mútuos já começa a ser equacionado entre ambos os lados. Segundo Han Zhao, oficial sênior de Investimentos do Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB), a instituição multilateral sediada em Pequim alavancou US$ 1,7 bilhão em projetos de transporte de baixo carbono, energia e água no Brasil nos últimos três anos. Nesse período, o AIIA incluiu os biocombustíveis e, nos próximos cinco anos, pretende apoiar o setor brasileiro de minerais críticos e estratégicos.