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sexta-feira, março 27, 2026

Eventos extremos se intensificam e elevam risco de desastres em Minas

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As fortes chuvas que caíram na Zona da Mata mineira em fevereiro entraram para a história como um dos piores eventos climáticos já registrados em Minas Gerais, deixando 72 pessoas mortas, uma desaparecida e mais de oito mil desalojadas. O desastre repete um padrão que já se torna frequente e alerta para a necessidade de adaptação a essa nova realidade do clima. Só em Juiz de Fora, um dos municípios mais atingidos, choveu acima de 230 milímetros (mm) entre os dias 22 e 24 de fevereiro — desses, 155 mm caíram em apenas três horas —, levando a um acumulado mensal acima de 579 mm, 240% acima da média histórica do mês de fevereiro.

O grande volume de chuvas em pouco tempo é resultado de uma combinação de fatores: uma frente fria que trouxe muita umidade para a região Sudeste, a baixa pressão nos altos níveis da atmosfera e a temperatura mais elevada do oceano Atlântico, que causa mais evaporação. De acordo com Marcelo Seluchi, coordenador-geral de operações e modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), já são muitos os casos de frentes frias que passam pelo Sudeste entre fevereiro e abril e causam eventos extremos — em 2023, choveu 680 mm em apenas 24 horas em São Sebastião (SP), o maior volume já registrado para o período. “Existe um novo patamar no comportamento das frentes frias que chegam nesses meses. Não é coincidência: estamos sofrendo claramente os impactos das mudanças climáticas globais e isso se traduz em maior frequência desse tipo de fenômeno.”

Aliado a isso, o relevo montanhoso que predomina em Minas Gerais e a ocupação de áreas de risco de deslizamentos aumentam a vulnerabilidade. Juiz de Fora já aparecia em nona posição entre as cidades brasileiras com maior população vivendo em áreas consideradas de risco, segundo ranking de 2023 do Cemaden, que monitora 1.133 municípios. Com cerca de 129 mil pessoas em locais vulneráveis, a cidade foi considerada a mais crítica entre as que não são capitais.

Em um mundo cerca de 1,3°C mais quente, Minas Gerais está se tornando cada vez mais propensa a enchentes catastróficas, mostra análise realizada pelo ClimaMeter, projeto de pesquisa na área climática financiado pela União Europeia e pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). Segundo a pesquisa, o aquecimento global tornou as chuvas entre 15% e 20% mais intensas em relação a eventos comparáveis na região, o que equivale a um aumento médio na precipitação de 6 mm por dia.

“Já estamos sofrendo os impactos das mudanças climáticas”, diz Siqueira, secretário de Meio Ambiente — Foto: Divulgação

Para os cientistas, não há surpresa — eventos extremos já são esperados com o atual nível de aquecimento global e com base nas evidências científicas. “Os padrões meteorológicos que antes produziam chuva moderada agora geram precipitação substancialmente mais intensa, aumentando seu potencial destrutivo”, afirma Davide Faranda, pesquisador do CNRS e um dos autores do estudo.

Diante desse “novo normal” do clima, a resposta é planejamento e adaptação às mudanças que já estão em curso. Em 2022, o governo mineiro lançou sua agenda de mudanças climáticas, centralizada no Plano Estadual de Ação Climática (Plac), que definiu 199 metas, sendo 131 de mitigação e 68 de adaptação. O Estado também aderiu à campanha Race to Zero, liderada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para promover a neutralidade climática de empresas, cidades e governos locais até 2050. Contudo, dados do Portal da Transparência mostram que os investimentos do governo em ações relacionadas ao impacto das chuvas foram reduzidos nos últimos três anos, passando de R$ 134,8 milhões em 2023 e de R$ 41,1 milhões em 2024 para R$ 5,9 milhões em 2025 — uma queda de 96%.

Empossado em janeiro, Lyssandro Norton Siqueira, secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, afirma que a adaptação climática está entre as prioridades de sua gestão, ao lado da reparação ambiental das bacias dos rios Doce e Paraopeba, afetados pelos rompimentos das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). “Já estamos sofrendo os impactos severos das mudanças climáticas, como mostram as vítimas na Zona da Mata. O ano será de muitas chuvas e também de períodos de seca, e isso requer medidas emergenciais de adaptação”, afirma.

Minas enfrenta ainda outros desafios ambientais importantes, como o gerenciamento de riscos da mineração e a contenção da perda de florestas. Entre os compromissos do Plac estadual está o de zerar o desmatamento ilegal no Estado até 2028. Minas Gerais tem conseguido reduzir a área desmatada da Mata Atlântica desde 2022, mas segue entre as três unidades federativas com maiores perdas do bioma, que ocupa 41% do Estado. Em 2022, respondeu por 26% do desmatamento do bioma, com uma perda de 19,9 mil hectares; em 2023, foram 14,7 mil hectares e 11,1 mil hectares em 2024. No primeiro trimestre de 2025, foram 2.041 hectares, segundo a SOS Mata Atlântica. Os alertas de desmate não fazem a distinção se o desmatamento é ilegal ou não.

Garcia, agricultor em Belo Horizonte: “A horta  me salvou” — Foto: Keiny Andrade/Valor
Garcia, agricultor em Belo Horizonte: “A horta me salvou” — Foto: Keiny Andrade/Valor

“Minas Gerais é responsável por entre 15% e 25% da área desmatada em toda a Mata Atlântica por ano. Está perdendo floresta para a agricultura e a pecuária e está longe do desmatamento zero”, diz Luís Fernando Guedes Pinto, diretor-executivo da SOS Mata Atlântica. Regiões como o Vale do Jequitinhonha e o Vale do Mucuri estão entre as mais vulneráveis, onde a vegetação nativa é substituída por pasto e plantio de eucaliptos. Ao mesmo tempo, diz o especialista, o Estado tem aumentado as ações de fiscalização sobre as áreas desmatadas. Exemplo é a operação Mata Atlântica em Pé, do Ministério Público de Minas Gerais, que soma mais de R$ 26 milhões em multas, além de prisões e apreensão de equipamentos. “Falta agir mais em prevenção”, diz Guedes Pinto.

A capital Belo Horizonte também vem atualizando a legislação sobre clima e instituiu em 2024 a Política Municipal de Enfrentamento às Emergências Climáticas (Lei Municipal n° 11.793/24) e, no ano seguinte, criou uma coordenadoria especial de mudanças climáticas, vinculada ao gabinete do prefeito, propondo articulação setorial entre diversas secretarias — Planejamento Urbano, Defesa Civil, Saúde, Habitação, entre outras. O Plano de Ação Climática (Plac-BH) definiu 88 ações de mitigação e adaptação e prevê também a realização de estudos técnicos para norteá-las, como o de áreas vulneráveis a ondas de calor, inundações, deslizamento de terra e dengue e o de áreas prioritárias para intervenções voltadas a Soluções Baseadas na Natureza (SbNs), com foco em infraestrutura verde e serviços ecossistêmicos.

Uma das apostas é a criação de corredores agroecológicos para transformar áreas hoje subutilizadas em cinturões verdes urbanos. Um dos projetos é o do Corredor Agroecológico da Via 710, que propõe transformar uma via de 5 quilômetros em um corredor verde, com cultivo de alimentos e árvores nativas da Mata Atlântica. Esse tipo de arranjo agroflorestal traz benefícios como aumentar a permeabilidade do solo e a cobertura vegetal, reduzindo a intensidade dos alagamentos e diminuindo as temperaturas locais. “Ao mesmo tempo que melhora a qualidade ambiental, amplia o acesso a alimentos frescos em bairros mais vulneráveis, dando resposta a três problemas urbanos: ilhas de calor, alagamentos e vulnerabilidade social”, explica Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário e parte do grupo técnico escolhido pela ONU para formular os indicadores globais de adaptação às mudanças climáticas.

A capital mineira já tem um histórico de criação de hortas. São mais de 250 em toda a cidade, sendo 68 delas comunitárias. Uma das mais tradicionais é a da Vila Pinho, bairro na periferia onde moradores cultivam cerca de 10 mil metros quadrados de uma agrofloresta que produz mais de cem itens, entre hortaliças e frutas. O agricultor urbano Dionísio Dias Garcia cuida desses canteiros há 13 anos. Natural de Rio Vermelho, no Vale do Jequitinhonha, mudou para a capital em busca de trabalho, mas acabou enfrentando problemas com o alcoolismo. Hoje, tira dali seu sustento e realização pessoal. “A horta me salvou. E faz bem para a cidade, tanto pela questão social quanto ambiental”, diz Garcia.

[Fonte Original]

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