Esta é a minha terceira experiência com Arzach e toda vez que eu visito esta obra, faço uma viagem diferente, com resultados interpretativos diferentes. Desde a primeira vez que abri o livro, porém, tive a impressão de estar entrando num sonho lúcido do próprio Moebius (ou, talvez, em uma viagem de algum alucinógeno que ele provavelmente fez uso quando concebeu essas aventuras), uma daquelas sagas meio sem pé nem cabeça que são visualmente bárbaras, mas narrativamente… estranhas e difíceis de classificar. O artista começou a desenhar as andanças de Arzach em 1975 (embora a edição brasileira, que saiu pela Nemo, traga O Desvio, que foi publicado na Pilote em 1973), atravessando um complicado período emocional e cheio de descobertas pessoais. As paisagens desoladas, os esqueletos de criaturas gigantescas espalhados pelo deserto, a solidão do protagonista sobre sua montaria que parece um pterodáctilo feito de osso, tudo isso compõe um universo lotado de melancolia, estranheza e convite à contemplação. A versão da Editora Nemo trouxe para o Brasil a publicação com as 4 principais histórias de Arzach, mais O Retorno (que o autor revela como sendo uma alegoria para as consequências de quem sai do padrão socialmente aceito, embora essa leitura pareça um pouco forçada quando a gente analisa o que está desenhado nas páginas e sua ligação com a última história, quase uma “origem” do protagonista) mais algumas outras poucas pranchas, com destaque para a história da urina de Arzach que ataca um policial do deserto.
Visualmente, esta obra é um primor. Cada painel funciona perfeitamente como uma pintura isolada, com linhas, formas, contextos e cores que criam atmosferas que vão do desejo sexual à violência da guerra; da poluição atômica à frustração da libido; da metalinguagem à narrativa em abismo. Além disso, há uma representação recorrente da energia masculina nessas páginas, com muito destaque para o pênis, representado em diferentes personagens, e a formatos fálicos espalhados por todo canto, indo do chapéu do protagonista aos detalhes da paisagem. Sem contar que o grande charme e impacto interpretativo das centrais histórias de Arzach serem majoritariamente silenciosas, escolha que obriga o leitor a preencher as lacunas com aquilo que tem de bagagem para ler além das imagens do autor, sem tirar o peso da contemplação e da atribuição pura e simples dessas imagens ou cenas. Um certo humor sombrio perpassa boa parte das histórias, e não só a assumidamente cômica aventura do xixi devorador, mas até na trama com o símio vermelho no meio de uma planície de tentáculos-grama existe um quê de riso nervoso, mesmo o contexto sendo bastante triste, pois fala da morte de um dos pássaros de Arzach, que devido ao peso da bagagem que carregava, voa muito baixo e é devorado pela estranha vegetação.

A penúltima história é uma fantasia bonitinha e inesperadamente profunda que se conecta com a trama de O Retorno e chega a falar um pouco sobre os primeiros passos (ou pelo menos coisas de um passado relativamente distante) da vida de Arzach. Nesta fantasia, Moebius escreve que os pássaros de Arzach se chamavam Zoch e Noch, e eu fico me perguntando qual deles sobreviveu, após a morte do outro na já referida história do símio vermelho e pronto, até em termos sexuais, para o ataque. Esses detalhes aparentemente soltos, na verdade, formam um panorama cheio de referências sobre perda, transformação e continuidade. Sobre as surpresas da vida e que nem tudo sai como a gente esperava ou, às vezes, somos abençoados com um milagre que não sabemos de onde vem (como nos quadros que mostram um engenheiro que ajusta algo em um maquinário dentro de um tempo de pedra e o pássaro de Arzach, aparentemente quebrado, volta a funcionar). São histórias fora da caixa que também refletem sobre o processo criativo, um tema recorrente na obra solo de Moebius, mostrando o criador como personagem que aprende, desaprende e se metamorfoseia a cada fase percorrida.
O que faz Arzach manter sua relevância e admiração por todas essas décadas é a sua maneira riquíssima de falar sobre criação artística através de aventuras entre o “maluco” e o “analítico” num mundo [aparentemente] pós-apocalíptico. Moebius estava explorando sua própria capacidade de variação como artista, usando Arzach como avatar para discutir as incertezas do ato criativo (algo que ele exploraria também, de forma mais cifrada, filosófica e até mesmo espiritual em O Mundo de Edena, na década seguinte). A obra influenciou muitos outros artistas desde a sua publicação, desde o filme Heavy Metal – Universo em Fantasia (1981), até os jogos Panzer Dragoon (1995) e também o mangá Nausicaä do Vale do Vento (1982 – 1994), de Hayao Miyazaki. Esse estranho e constante voo de um homem sobre um “pássaro de pedra”, passando por ruínas de civilizações esquecidas, num ciclo eterno de novidades e reinvenção de si mesmo, é a imagem do próprio Moebius, explorando cantinhos nunca antes visitados da Nona Arte e fazendo, a cada nova página, uma revolução diferente que nos impacta até os dias de hoje. Isso não significa que todas as histórias são, narrativamente, maravilhosas (e não são mesmo! Algumas que eu realmente desgosto, como a trama em que Arzach recebe um chamado de socorro de um amigo e embarca numa missão pra lá de específica; ou na verborragia desnecessária de O Retorno, por exemplo), mas certamente são um espetáculo visual e um chamado a pensar por alguns minutos em cada página vista/lida, o que não acontece muito frequentemente com quadrinhos, convenhamos.
Arzach (França)
Roteiro: Moebius
Arte: Moebius
Capa: Moebius
Publicações originais: Pilote (1959) n°688 (1973), Dargaud / Métal Hurlant (1975) n°1 a 5, Les Humanoides Associés / Epic Graphic Novel: Moebius n°2 (1987), Marvel Comics/Epic Comics
Edição brasileira: Editora Nemo (Coleção Moebius n°1, julho de 2011)
Tradutores: Wellington Srbek, Arnaud Vin
52 páginas