A taxa de desemprego no país subiu para 5,8% no trimestre móvel encerrado em fevereiro, resultado que ficou acima do verificado no trimestre anterior, encerrado em novembro (5,2%), mas abaixo da taxa de igual período de 2025 (6,8%). Ainda que a desocupação tenha aumentado 0,4 ponto percentual na comparação com o trimestre encerrado no mês anterior (5,4%), o índice permanece nas mínimas, com o menor desemprego para o trimestre encerrado em fevereiro de toda a série histórica.
Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada na sexta-feira (27) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, a ligeira alta da desocupação é explicada por fatores sazonais, como a demissão de trabalhadores temporários contratados no fim do ano passado, que geralmente são revertidos no segundo semestre.
“Quando a gente exclui o fator sazonal, na verdade, a taxa de desemprego saiu de 5,38% para 5,47%, uma alta de praticamente 0,1 ponto em relação a janeiro. O movimento que a gente viu de alta de desemprego foi muito pequeno, apesar de um cenário macroeconômico adverso”, avalia.
No caso, a taxa básica de juros em patamar elevado (14,75%), somada à desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) e do ritmo de crescimento da economia parecem não pressionar tanto o emprego, o que pode dificultar o ciclo de afrouxamento monetário iniciado pelo Banco Central em março, após 9 meses de Selic a 15%, maior patamar desde 2006.
O especialista ainda diz que a perda de fôlego do mercado de trabalho, que ajudaria o BC a baixar os juros, se torna ainda mais difícil com o “descasamento” entre as políticas monetária e fiscal, com o governo injetando dinheiro na economia e favorecendo a criação de empregos. “O ciclo eleitoral é marcado por maiores gastos dos governos, recursos sendo injetados e aumento de investimento público, o que dá suporte para o mercado de trabalho”.
“As transformações digitais da economia também jogam a favor do aumento da ocupação. Serviços por aplicativo, como o exemplo dos entregadores e motoristas, contribuem para flexibilizar o mercado de trabalho e reduzir o nível do desemprego pelo baixo custo para se arranjar um trabalho”, diz o economista da Genial.
Segundo a Pnad, a massa de rendimentos real habitualmente recebida por pessoas ocupadas (em todos os trabalhos) foi de R$ 371,1 bilhões no trimestre encerrado em fevereiro. O número aponta variação de 1,1% frente ao trimestre móvel anterior (encerrado em novembro) ou R$ 4 bilhões a mais. Frente a igual período de 2025, há aumento de 6,9% (cerca de R$ 24 bilhões).
A renda média dos trabalhadores avançou 2% no trimestre encerrado em fevereiro, ante o trimestre móvel anterior, para R$ 3.679 (R$ 73 a mais). Na comparação com igual trimestre de 2025, houve alta de 5,2% (R$ 185 a mais). Nesse sentido, o fato de os rendimentos seguirem em alta, o que em tese pressiona a inflação, deve trazer ainda mais incertezas com relação à continuidade do ciclo de afrouxamento monetário, aponta Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre).
“O BC tem tido cautela pela turbulência internacional e pelos riscos para a inflação. A gente acaba percebendo os efeitos de uma política monetária que fez com que a economia desacelerasse e o emprego fosse na mesma linha. É natural que a renda comece a dar sinais de estabilidade, mas demora para a economia sentir o efeito do ciclo de queda e o mercado de trabalho também. Existe dúvida e incerteza a respeito do Copom, se vai mesmo ter corte e qual a magnitude”, avalia.
O economista do FGV/Ibre observa “sinalizações de estabilidade” no mercado de trabalho após a forte melhora observada no ano passado, com recordes sucessivos de ocupação e a menor taxa de desemprego da série histórica em dezembro (5,1%). “Mas, desde a virada do ano, o que a gente tem visto é uma desaceleração da economia como um todo. E o mercado de trabalho vai na mesma linha. O mercado ainda está aquecido, é a menor taxa de desemprego, mas a dinâmica vai perdendo força”, avalia.
Vale destacar que outros motivos para a taxa de desemprego estar nas mínimas históricas dizem respeito ao envelhecimento populacional e à redução da taxa de participação (menos pessoas à procura de um emprego). A força de trabalho – que soma pessoas ocupadas ou em busca de empregos com 14 anos ou mais de idade – estava em 108,4 milhões no trimestre móvel encerrado em fevereiro, 0,25% a menos do que no trimestre móvel anterior, encerrado em novembro (menos 280 mil pessoas), mas 0,34% acima de igual período do ano passado (mais 370 mil pessoas).
“A taxa de desemprego está baixa também porque a taxa de participação tem caído. Houve uma queda desde a pandemia, o que diminuiu a taxa de desemprego. Se não fosse o efeito da taxa de participação, o desemprego poderia ser até mais alto, se voltasse para o patamar pré-pandemia, por exemplo (…) Agora, a ocupação está desacelerando, diminuindo, mas os rendimentos continuam pressionados, o que gera preocupação de inflação e para a política monetária”, destaca Antonio Ricciardi, economista do Banco Daycoval.
Ricciardi também afirma que as expectativas estavam mais alinhadas a um arrefecimento forte do mercado de trabalho desde que os juros chegaram ao patamar dos 15%, o que não ocorreu. “Desde o ano passado o que se vê é um movimento mais lento e gradual”, avalia.