O cenário global aponta para uma tendência de diversificação dos fluxos globais de capital para fora dos Estados Unidos, movimento que deve beneficiar mercados emergentes como o Brasil, afirmou neste sábado (28) o sócio e presidente do conselho do BTG Pactual, André Esteves. Segundo ele, fatores geopolíticos e financeiros têm levado investidores institucionais a reduzir a concentração em ativos denominados em dólar.
O executivo participou de painel no Babson Connect Worldwide (BCW), no Rio. O evento é promovido pela Babson College, universidade americana de empreendedorismo, e tem parceria de mídia do Valor.
Nos últimos anos, disse Esteves, os EUA funcionaram como um “buraco negro financeiro”, absorvendo recursos que tradicionalmente seriam destinados a outras economias, mas uma combinação de dois fatores reverteram essa tendência: um geopolítico e outro financeiro.
No campo geopolítico, a crescente percepção de imprevisibilidade na política externa americana, que começou ainda na gestão de Joe Biden, com sanções à Rússia, e se estendeu na gestão de Donald Trump para outras esferas. Como exemplo, citou os tarifaços, declarações sobre anexação de territórios e, mais recentemente, a deflagração da guerra contra o Irã.
Para ele, esses episódios despertam cautela em gestores globais: “Essas políticas e declarações criam um ruído, uma sensação de que há algo mudando nos EUA na direção de mais imprevisibilidade, instabilidade e falta de confiança e acendeu uma luz amarela sobre até onde a ‘armamentização’ do dólar poderia ir”, disse.
O segundo vetor, segundo o banqueiro, é financeiro. Após anos de forte valorização de empresas de tecnologia, especialmente ligadas à inteligência artificial, investidores passaram a questionar múltiplos e modelos de negócio. “Tivemos essa enorme criação de riqueza, uma revolução tecnológica incrível. Mas agora você tem múltiplos caros e muita incerteza sobre qual é o futuro, quais são os modelos de negócios em IA”, afirmou.
Na avaliação de Esteves, esse cenário tem levado investidores globais a ajustes graduais, mas com impacto relevante. “Se você é um fundo soberano e move de 57% para 53% em ativos relacionados aos EUA, isso é uma mudança pequena no portfólio, mas dramática no fluxo de capital global”, disse.
Para ele, nesse contexto, mercados emergentes entram como destino natural, e tendência à diversificação deve aumentar quando o cenário da guerra estabilizar. “
“Os EUA continuarão sendo a maior parte de qualquer portfólio global, mas a próxima tendência é a diversificação. As pessoas perderam um pouco de confiança de ter todos os ovos na mesma cesta, o que é muito bom para mercados emergentes porque somos parte desse cenário”, afirmou.
Ao comentar a disputa entre EUA e China, Esteves avalia que não há necessidade de o Brasil escolher um lado. “Não vejo que o Brasil precise decidir entre China ou EUA. É irrealista isso acontecer. Continuaremos a fazer negócios com os EUA e continuaremos a fazer negócios com a China”, disse. Segundo ele, os chineses têm sido investidores relevantes, especialmente em infraestrutura, mas os americanos também voltaram a olhar para a região. “Os EUA redescobriram a América Latina depois de 30 anos”, afirmou.
Sobre a relação bilateral com os americanos em meio às eleições brasileiras, o executivo avaliou que o relacionamento tende a permanecer estável. “Lula é pragmático e eu acho que o Trump também é”, disse. Para ele, não há motivo para tensões comerciais. “Os EUA têm superávit com o Brasil. Não faz sentido criar tarifas, acho que os relacionamentos serão ótimos.”
Esteves classificou a inteligência artificial como uma revolução tecnológica comparável a outras evoluções históricas e, apesar das incertezas, descartou cenários catastróficos, como desemprego em massa: “Os empreendedores criarão novos modelos de negócios e a sociedade será melhor daqui a 20 anos por causa da revolução tecnológica.”