Crédito, AFP via Getty Images
- Author, Olga Prosvirova
- Role, BBC News
- Author, Nataliya Zotova
- Role, BBC News Rússia
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Quando sua filha de sete anos precisou aprender um poema sobre o “glorioso exército” da Rússia para um evento escolar, Nina, de Moscou, achou que aquilo era demais.
O aumento da propaganda de guerra dirigida às crianças russas foi retratado para o público global no filme Um Zé Ninguém Contra Putin, ganhador do Oscar de Melhor Documentário deste ano.
O documentário, co-produzido pela BBC, foi baseado nas filmagens do cinegrafista Pavel Talankin, coordenador de eventos de uma escola primária, na pequena cidade provincial de Karabash, nos montes Urais (divisa entre a Europa e a Ásia).
O que mais preocupa Nina é que sua filha gosta de participar do programa patriótico estatal. O seu nome e o de outras pessoas mencionadas nesta reportagem foram alterados para sua segurança.
“Ela gosta do professor, gosta dos colegas de classe — ela se sente parte daquilo”, descreve Nina.
A mãe receia que se opor abertamente às atividades escolares pode isolar socialmente sua filha. E, certa vez, quando ela a manteve em casa para evitar um evento escolar patriótico, a menina ficou abalada.
“Não quero que ela se sinta como se não pertencesse”, afirma Nina.
Livros reescritos
Foram criadas cerimônias de hasteamento de bandeiras e lições patrióticas obrigatórias, ensinando aos estudantes a visão do governo sobre valores russos e eventos mundiais.
Livros de história foram reescritos e atualizados com desenvolvimentos recentes, incluindo a “operação militar especial” realizada na Ucrânia.
As imposições continuam até hoje. Ainda no mês passado, o Ministério da Educação da Rússia anunciou planos de criação de uma lista de brinquedos e jogos aprovados pelo Estado para as creches, promovendo os “valores tradicionais russos”.
As mensagens que o governo quer que as crianças absorvam são claras: a invasão é uma guerra defensiva e o patriotismo significa lealdade inquestionável. Mas, em casa, algumas delas encontram opiniões diferentes.
Maksim, de oito anos, relaciona tudo o que aprendeu nas suas aulas de educação patriótica: grandes poetas e pintores russos, amizade e como evitar brigas.
Ele fica mais animado quando relembra as discussões sobre robôs, tanques e pistolas a laser.
“Eles nos disseram que é assim que se prepara para a guerra”, ele conta.
Como Nina, a mãe de Maksim, Marina, também se opõe à invasão russa. Mas ela evita discutir o assunto diretamente na frente do seu filho, para que ele não repita em público o que ela diz.
“Uma posição ativa contra a guerra poderá atrair atenção indesejada”, declarou Marina à BBC.
Definir uma linha entre as mensagens da escola e o que eles dizem em casa é difícil, segundo a psicoterapeuta Anastasia Rubtsova.
“A criança precisa viver neste ambiente, comparecer à escola e fazer parte deste grupo”, explica ela.
“Isso não significa que os pais devem concordar com a propaganda. Mas não há necessidade de assumir uma posição política em frente ao seu filho.”
A psicoterapeuta sugere que os pais se concentrem em valores universais, como a importância da vida humana, e na ideia de que os conflitos devem ser sempre resolvidos pacificamente, em vez de confrontar diretamente a narrativa da escola.

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Estudos demonstram que as crianças mais jovens são particularmente receptivas às mensagens de figuras de autoridade.
“Se você disser a uma criança pequena que a guerra é boa, ela irá aceitar”, explica Rubtsova.
Para a pesquisadora de genética comportamental Emily Willoughby, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, a infância e a adolescência fornecem uma verdadeira janela de oportunidade para modelar os comportamentos.
A questão principal é se esses comportamentos serão mantidos e é aqui que o mundo social mais amplo do indivíduo tem participação fundamental.
“Quando os pais discordam ativamente das mensagens institucionais, a influência da família normalmente prevalece a longo prazo”, segundo ela.
Mas, quando o Estado controla a maior parte das fontes de informação e as narrativas alternativas são limitadas, é mais difícil prever o resultado. E é o que ocorre na Rússia.
Um conhecido estudo da educação na era nazista concluiu que a doutrinação na escola pode ter efeitos duradouros, principalmente quando é reforçada pelo ambiente social como um todo.
A implementação das orientações do governo russo apresenta grandes variações.
Algumas escolas as adotam entusiasticamente, enquanto outras as evitam ou suavizam. Os professores podem adaptar, diluir ou resistir silenciosamente à difusão das mensagens.

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Em uma cena do filme de Talankin, crianças da cidade russa de Karabash recebem bandeiras do país, enquanto se reúnem no salão da escola para ouvir Putin anunciar a criação de um movimento infantil, reminiscente da organização Jovens Pioneiros, da era soviética.
Em outra, a classe é alertada que o inimigo irá tentar recrutá-los nas suas comunidades e espalhar propaganda para vencê-los pelo lado de dentro.
As aulas de educação patriótica são conhecidas em russo como “Conversas sobre Coisas Importantes”.
Maia tem 14 anos e é de São Petersburgo. Ela se queixa que as aulas são maçantes.
“Ninguém participa da discussão”, ela conta. “Simplesmente nos sentamos ali e ouvimos o professor, depois vamos embora.”
“Forçar os cidadãos a participar de apresentações públicas de patriotismo é uma forma de relembrá-los do poder esmagador do regime”, explica o professor de estudos russos Paul Goode, da Universidade Carleton, no Canadá.
Esta percepção é reforçada pela imprensa estatal, pelas pesquisas de opinião pública encomendadas pelo Estado e pela fraude das eleições, segundo ele.
Em 2023, para aproveitar ao máximo a “educação patriótica” nas escolas, autoridades russas facilitaram a entrada de recém-formados no Exército do país. Alguns foram atraídos por altos pagamentos para inscrição e outros foram simplesmente convencidos a participar do esforço de guerra.
Como seus pais, Maia acredita que a guerra da Rússia é errada, mas não discute isso na escola, nem sabe o que pensam seus colegas de classe.
“No início, fiquei preocupada porque eu não poderia ser amiga daqueles que apoiam a guerra e Putin”, relembra ela. “Mas, agora, todos se comportam de forma tão neutra que tudo parece normal.”
Um Zé Ninguém Contra Putin está disponível no Filmelier e na Amazon Prime Vídeo.