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quinta-feira, abril 2, 2026

Análise: Governo dá tiro no pé com novas medidas de crédito

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O governo Lula vai dar um tiro no pé com as medidas de expansão de crédito que estão sendo gestadas pela equipe econômica. Se o Banco Central reagir da forma esperada, mantendo os juros altos por mais tempo, elas vão apenas prolongar o desconforto da população.

O diagnóstico dos economistas do Ministério da Fazenda é que o eleitorado está, paradoxalmente, de mau humor com a evolução da economia. Deveria estar mais satisfeito porque o mercado de trabalho opera em pleno emprego e com expansão da renda real.

O culpado desse descompasso, segundo essa leitura, é o mercado de crédito. A população está superendividada e compromete uma boa parcela de sua renda com o pagamento de empréstimos bancários.

A solução do problema, segundo essa visão, é criar novas linhas de crédito, mais baratas, com subsídios implícitos ou garantias do governo. E também bolar novos programas de refinanciamento de dívidas para tirar a sobrecarga de quem enfrenta dificuldades.

O que falta nesse diagnóstico é reconhecer que o mercado de crédito está apertado porque a taxa básica de juros está em 14,75% ao ano — alta assim porque o Banco Central está isolado, combatendo as pressões inflacionárias alimentadas pela políticas fiscal e de crédito expansionistas.

O remédio em estudo pelo governo — facilitar ainda mais o crédito e resgatar quem está apertado — vai apenas obrigar o Banco Central a manter por mais tempo o aperto monetário. Dito de outra forma, sobra menos espaço para seguir com o ciclo de baixa da Selic iniciado há duas semanas.

Dados divulgados no Relatório de Política Monetária do Banco Central ajudam a compreender a situação. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, os pagamentos líquidos feitos pelas famílias aos bancos subiram de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) para 1,5% do PIB.

Esses dados, do chamado fluxo financeiro, mostram que os pagamentos de prestações pelas famílias aos bancos foram 1,5% do PIB maiores do que as concessões de empréstimos, num prazo de 12 meses. Apesar de as famílias estarem entregando liquidamente dinheiro aos bancos, seu endividamento vem crescendo — aqui fica claro o efeito dos juros altos nas famílias.

Não há nada de especial nesse fenômeno: o Banco Central usa um instrumento para esfriar a economia — a taxa Selic — que age por meio do encarecimento e desaceleração das concessões de crédito. O que há de errado são as ordens de grandeza. Os juros básicos precisam ser muito altos para dar um tranco no mercado de crédito, já que uma parte dele — o crédito direcionado — está relativamente protegida da taxa Selic.

Nas circunstâncias atuais, a dose precisa ser ainda mais forte porque, ao mesmo tempo em que o Banco Central tenta desacelerar a economia, com os juros, o governo coloca o pé no acelerador por meio da política fiscal.

O BC deu uma esfriada no PIB no ano passado, com uma expansão de 2,3%, ante 3,4% no ano anterior. Ainda assim, a economia terminou o ano de 2025 mais sobreaquecida do que o Banco Central esperava. Em fins do ano passado, o BC achava que a economia iria encerrar o ano com um sobreaquecimento de 0,2%, mas no fim acabou concluindo que o sobreaquecimento é um pouco maior, de 0,4%.

O BC esperava seguir com a desaceleração da economia neste ano, fazendo um pouso suave que permitisse controlar a inflação. Mas a perspectiva para a desaceleração ficou um pouco mais complicada com medidas de iniciativa do governo que dão novo impulso ao consumo: a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o reajuste do salário mínimo.

Os economistas do setor privado calculam que a economia vá crescer entre 0,8% e 0,9% neste primeiro trimestre. O Banco Central acha que, se corrigidos alguns problemas estatísticos no chamado ajuste sazonal de dados, esse crescimento pode ser na verdade de 0,4% ou 0,5%. Mas não importa essa divergência: o fato é que a economia está se reacelerando.

Impulsos como esses são responsáveis pela manutenção dos juros tão altos por tanto tempo. Na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de janeiro, havia chances de um início de corte de juros. Mas a economia deu sinais mais fortes, e a inflação também — e o início do ciclo de corte de juros foi adiado para março.

O Copom já tem problemas demais para a sua reunião de abril, sem as novas medidas de crédito. O choque causado pela guerra no Oriente Médio vai causar pressão duradoura nos preços de combustíveis e alimentos, e todos os bancos centrais do mundo adotaram uma postura de maior cautela — no mundo desenvolvido, o cenário está se deslocando de corte de juros para a chance de aperto monetário.

Por aqui, a situação era um pouco mais confortável porque o nível de juros é muito alto, o que sustenta chances de corte na Selic. Mas, dependendo da política fiscal e de crédito oficial, as doses de juros necessárias para o Banco Central evitar um novo surto inflacionário vão se tornando cada vez maiores.

Claro, tudo vai depender de como o Banco Central vai reagir a uma expansão fiscal e creditícia neste ano de eleições. Mas não deve haver muita surpresa: a chamada função de reação do Copom já foi anunciada.

No ano passado, economistas do mercado perguntaram várias vezes ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, como ele reagiria a uma expansão fiscal durante as eleições. Alguns achavam que o BC deveria ter uma postura preventiva, apertando mais para fazer frente ao risco de uma expansão fiscal.

Galípolo, nessas ocasiões, respondeu que o Banco Central não deve reagir a um risco que pode ou não se materializar. Mas, assim que um cenário de expansão fiscal como esse se colocasse de forma concreta, caberia à política monetária estimar os impactos que as eventuais medidas teriam na inflação e tomar as medidas para garantir que a meta de inflação fosse cumprida.

É por isso que a estratégia da equipe econômica coloca o governo Lula numa situação perigosa. Se vier uma expansão de crédito ou fiscal, como se anuncia, a demanda agregada vai se deslocar ainda mais acima da capacidade de oferta. Caberia ao Banco Central reagir, mantendo um nível de aperto mais alto do que seria necessário sem essas mesmas medidas creditícias.

O resultado de tudo isso seria um prolongamento do aperto nas condições de crédito para a população em geral e da sensação de desconforto na economia.
01/04/2026 16:38:31

[Fonte Original]

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