Com seis Globos de Ouro e um Oscar de Melhor Atriz, não há dúvidas de que Nicole Kidman é uma estrela multifacetada, e nos últimos anos, mesmo com trabalhos pontuais no cinema — com prioridade para cineastas estreantes —, Kidman tem focado em encabeçar projetos televisivos, o que não importa muito se o resultado não repetir o impacto de Big Little Lies e sim o fato de ter a atriz envolvida com série e minisséries. Parte disso vem do acordo feito para protagonizar e produzir séries e filmes para a Amazon Studios, e no caso de Scarpetta: Médica Legista, a parceria se estende com Jamie Lee Curtis, que uniu forças com a sua produtora Comet Pictures e Blumhouse para adaptar a história da personagem título, patologista que retorna ao cargo de chefe de departamento para investigar uma onda de feminicídio que remete ao seu primeiro caso de anos atrás.
Conhecida por escrever episódios para Barry e Lost, Liz Sarnoff é a responsável por adaptar a famosa legista dos livros de Patricia Cornwell — que funciona como o detetive Hercule Poirot nas obras de Agatha Christie — para as telinhas, e embora a experiência da autora norte-americana como repórter policial tenha inspirado a personagem, é notável que a abordagem de Sarnoff remete a série Hannibal ao trazer um olhar mórbido para os crimes que Scarpetta ajuda a desvendar. Anunciada há mais de cinco anos, o programa tinha a promessa de ser um thriller ambicioso, e talvez essa característica esteja presente na aposta das duas linhas narrativas divididas entre passado — no final dos anos 90 — e presente, como também, na fotografia densa, no flerte com a paranormalidade e visual gráfico dos cadáveres, porém essa imponência não é suficiente quando observamos o desnível em comparação ao que o show consegue entregar e o que consegue ser.
A primeira tentativa de adaptar os casos de Kay Scarpetta foi em 1992, depois do sucesso do livro de estreia de Cornwell. Considerando a influência da obra em séries como CSI e derivadas devido o foco no universo criminalista e detalhamento da tecnologia forense, Scarpetta é uma daquelas produções tardias que reproduz os tropos do gênero como se fosse a primeira vez. Então, se conseguissem levar a história para as telonas com Demi Moore como pretendiam, a personagem seria uma referência revisitada constantemente na cultura pop, visto o seu método de atuação. De certa forma, é assim que Scarpetta é conhecida nesse universo investigativo: sagaz e brilhante, a médica forense não se cansa até utilizar de todos os recursos para solucionar os crimes. Por um momento, na linha narrativa que se passa na década de 90, a série consegue convencer com a premissa, o que se deve a cadência e tom para desenvolver os personagens.
A versão no início de carreira de Scarpetta, vivida por Rody McEwen, é mais interessante e bem trabalhada do que a personagem no futuro, interpretada por Kidman. Se por um lado a linha no passado consegue convencer dos conflitos familiares, das conspirações hierárquicas que ameaçam a carreira da personagem título e do potencial que a prestigiada patologista carrega, no arco presente, o tom é vergonhoso e truncado. A começar por depositar o humor no estilo extravagante da irmã de Scarpetta, papel assumido por Lee Curtis — o que difere da versão extravagante, vaidosa e inconsequente do passado — depois, pela gama de personagens caricatos e sem nuances que fogem da tentativa da conexão meticulosa com forte teor psicológico que Sarnoff quer imprimir. Há uma evidente falta de noção e equilíbrio uma vez que a abordagem na cineasta não encontra o tom; tudo na linha presente soa escrachado, beirando ao ridículo com atuações que gritam intensidade, cenas carregadas de tensão e estética densa como se qualquer cena seria a fita de indicação ao Emmy.
Mas como não deixa de transparecer, Scarpetta perdeu o seu time, o momento de ser inventiva e espetacular como acredita ser. No forro dos suspenses psicológicos, a série parece remeter a tudo o que foi feito, quanto trata a personagem como se fosse a Clarice Starling do mundo forense. E para se juntar ao leque de mulheres misteriosas que Kidman tem vivido, Scarpetta termina sendo uma representação da colcha de retalhos e type cast que a atriz tem vivido, com a promessa de ser thriller ambicioso, intensamente elencado e bem escrito.
Scarpetta: Médica Legista (Scarpetta – EUA, 2026)
Criação: Liz Sarnoff (baseado em obras de Patricia Cornwell)
Direção: David Gordon Green, Charlotte Brändström, Ellen Kuras
Roteiro: Liz Sarnoff, Matthew Zucker, Alison Balian, Maisha Closson, Ahmadu Garba, Iturri Sosa
Elenco: Nicole Kidman,Jamie Lee Curtis, Bobby Cannavale, Simon Baker, Rosy McEwen, Jake Cannavale, Hunter Parrish, Ariana DeBose, Tiya Sircar, Janet Montgomery, Savannah Lumar, Anna Diop, Sosie Bacon, Mike Vogel, Stephanie Faracy, Kassia Conway, Anson Mount, Amanda Righetti, Georgia King, Jennifer Chung, Brittany Belt, Charlie B. Foster, Alex Klein, Graham Phillips, David Hornsby, Austin McMains, Luke Jones, Emma Massalone, Alejandro Barrios, Alanna Giuliani, Quinn Aune
Duração: 412 min. (oito episódios)