O início de 2026 foi marcado por dois meses seguidos de crescimento da produção industrial brasileira. Economistas avaliam que o fôlego recente reflete fatores como recomposição de estoques e uma base de comparação mais baixa, e não altera um quadro de fragilidade do setor ao longo do ano.
Dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), divulgados nesta quinta-feira (2) pelo IBGE, mostram que a produção avançou 0,9% em fevereiro ante janeiro, na série com ajuste sazonal.
Este é o maior crescimento para meses de fevereiro desde 2017, quando foi de 1%. Em janeiro, houve alta de 2,1%, após revisão do dado inicialmente estimado em 1,8%. Na comparação com fevereiro de 2025, porém, a indústria recuou 0,7%.
Segundo André Macedo, gerente da pesquisa, o desempenho positivo no início do ano está fortemente associado à recomposição de estoques. “Janeiro é um mês marcado pela retomada da produção após as paralisações de dezembro, mas a manutenção no campo positivo em fevereiro está mais ligada à recomposição de estoques”, afirmou.
O mesmo fator também é ressaltado pelo economista Stéfano Pacini, do FGV Ibre, e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Tem muito a ver com esse início de ano, vontade de aquecer a produção, botar as máquinas para funcionar e reabastecer estoques”, afirma o economista.
Pacini explica que, embora estoques baixos pareçam indicar demanda aquecida, níveis muito reduzidos trazem riscos: “Nenhuma indústria quer trabalhar com estoque muito baixo, porque isso pode significar dificuldade de atender a uma demanda futura”.
Para a gestora Kínitro Capital, o crescimento foi mais moderado em fevereiro, limitado por uma queda no setor farmacêutico (-5,5%), e mantém um perfil disseminado, ao alcançar 16 das 25 atividades pesquisadas.
Os maiores destaques foram veículos automotores, que acumulam avanço de 14,1% nos dois primeiros meses do ano; derivados de petróleo, que sobem 9,9% desde dezembro; máquinas e equipamentos, que cresceram 6,8% somente em fevereiro.
Em fevereiro, todas as quatro grandes categorias industriais também registraram alta frente a janeiro, com destaque para os bens de capital, que avançaram 2,3% e já operam 7,6% acima do nível pré-pandemia, embora ainda acumulem forte queda de 13,5% na comparação anual.
Os bens duráveis cresceram 0,9% no mês, mas permanecem 9,7% abaixo do patamar pré-pandemia e recuam 9,3% em relação a fevereiro de 2025. Já os bens semiduráveis e não duráveis tiveram alta de 0,7%, mas seguem 2,4% abaixo do nível pré-pandemia, com leve retração de 0,3% na comparação anual.
A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, destaca, em fevereiro, a terceira alta mensal consecutiva da indústria extrativa, que teve expansão de 1,1%. Por outro lado, a indústria de transformação, que sente mais os efeitos dos juros altos, avançou 1,0% no mês, mas recuou 2,6% em relação a fevereiro de 2025 e deve seguir fraca neste ano, avalia.
“Ainda que o Copom promova mais cortes ao longo do ano, a Selic continuará em patamar elevado, o que encarece o crédito e acaba desestimulando os investimentos das empresas nas fábricas”, diz Moreno.
Apesar do resultado positivo em fevereiro, a Kínitro também afirma que nada muda na dinâmica geral. “A indústria segue como o elo mais fraco da atividade, sofrendo com a política monetária restritiva e as incertezas globais, mas começa o ano melhor do que o esperado”, destaca.
Na mesma linha, o economista Pedro Crispim, da G5 Partners, reconhece o desempenho positivo, mas diz que os resultados não são suficientes para mudar um cenário de baixo dinamismo.
“A gente está com essa cabeça de que a indústria teve um desempenho relativamente positivo e deve contribuir para um PIB mais forte no primeiro trimestre. Porém, há uma ressalva: esse crescimento parte de uma base de comparação baixa do fim do ano passado e, em 12 meses, o desempenho ainda é muito fraco”, afirma.
A Fiesp avalia que o setor começou o ano com fôlego, mas continuará pressionado por juros elevados, endividamento das famílias e aumento dos custos industriais. A entidade também aponta a intensificação das incertezas externas, especialmente os conflitos no Oriente Médio.
Para Pacini, do FGV Ibre, uma escalada do conflito pode pressionar preços de commodities, elevar custos de frete e dificultar a importação de insumos, afetando cadeias produtivas. Segundo ele, os impactos podem ficar mais claros nos dados da produção industrial a partir de abril.
Crispim também destaca que os fatores externos podem começar a influenciar o desempenho da indústria, especialmente na área extrativa. “Talvez, por conta desse conflito no Irã, a indústria extrativa possa ter uma resposta positiva. A partir de março, a gente deve ter uma noção melhor se isso vai se concretizar”, diz.
Moreno destaca que a indústria de transformação deve puxar os resultados mais fracos da produção nos próximos meses. A extrativa, que foi beneficiada no ano passado por uma forte produção de petróleo, também deve registrar alguma acomodação, segundo ela.
Por outro lado, a Fiesp afirma que investimentos em infraestrutura já contratados e iniciativas como os programas Move Brasil, Reforma Brasil e a ampliação do Minha Casa, Minha Vida podem contrabalançar parte do cenário negativo.
Já a consultoria Buyside Brazil afirma que o resultado de fevereiro não altera a projeção de estagnação industrial no primeiro semestre. A avaliação é de que mesmo impulsos fiscais do governo, como o programa Nova Indústria Brasil (NIB), não serão suficientes para impulsionar o setor.