Há pouco mais que uma década, as questões relativas à saúde do adolescente eram sobretudo crescimento, puberdade, acne, a importância da iniciação sexual segura e saudável, da boa alimentação e do esporte, e a prevenção do tabagismo, alcoolismo e uso de drogas. Ansiedade, depressão, automutilação e transtornos alimentares existiam, mas numa magnitude muito menor.
Em pouco mais de dez anos, esse quadro se inverteu de maneira impressionante. A saúde mental e emocional retratada na recém publicada Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar traz dados aterradores. Realizada pelo IBGE com 118 mil estudantes entre 13 e 17 anos de escolas públicas e privadas, ela aponta que um terço dos adolescentes relata tristeza frequente, e cerca de metade sentem-se irritados ou mal-humorados. A saúde mental foi avaliada como ruim por 14,8% deles. Um adolescente em cinco sentiu que a vida não vale a pena ser vivida nos 30 dias anteriores à pesquisa. Um em cada três adolescentes (32%) sentiram vontade de se machucar nos 12 meses anteriores à pesquisa. Os resultados são profundamente perturbadores. E a disparidade de gênero chama a atenção: quase todos esses dados foram de duas a três vezes piores entre meninas.
Se a tristeza é mais feminina, a violência e o machismo predominam entre os homens. Não é parte da pesquisa, mas sabemos que meninos, influenciados pelas redes red pill e incel e pela pornografia, estão desenvolvendo sua masculinidade com uma visão da mulher como inimiga, alguém a ser submetida, subjugada. A ideia civilizatória da igualdade de gêneros está regredindo: quase um terço dos jovens nascidos após 1997 creem que a mulher deve obedecer ao marido — o dobro dos 15% de homens nascidos nas décadas de 1950 e 60. E esse acirramento do machismo e da cultura do assédio e do estupro só faz agravar a saúde física e mental das meninas.
Nos Estados Unidos, Europa e no Canadá, grandes estudos populacionais mostram o mesmo padrão. O mundo inteiro está produzindo adolescentes mais frágeis, mais ansiosos e mais desesperançados.
O que mudou tanto em dez anos? Vivemos um momento de regressão civilizatória. Naturalização do ódio e da violência, ascensão do fascismo, instabilidade geopolítica e guerras, desigualdade crescente e a sensação de um futuro assustador, com a crise climática e a inteligência artificial. Adolescentes precisam de perspectivas e esperança, e o mundo não as oferece.
Famílias estão afastadas pelo excesso de trabalho, pela vida urbana e pelas telas digitais. Escolas e educadores estão sobrecarregados, desvalorizados, despreparados para enfrentar um mundo em profunda mutação. E a percepção dos adolescentes é de invisibilidade e abandono: 25% acham que ninguém se preocupa com eles. A falta de conexão humana é flagrante.
As redes sociais viciam os jovens, reduzem a convivência com a família e com pares, perturbam o sono, abolem a atividade física, e prejudicam o aprendizado. E seus algoritmos tóxicos empurram o conteúdo que produz grande parte dos danos relatados. Os meninos se tornam mais isolados, mais raivosos, menos capazes de construir vínculos reais. A meninas, induzidas à comparação permanente e ao auto-ódio, se afundam na ansiedade, depressão e distorção de imagem corporal.
Diante disso, o que fazer? Para evitar a superficialidade, esse será o tema da próxima coluna. Mas é importante dizer: o cenário, por mais terrível que pareça, não deve nos remeter à desesperança e à inação. Ao contrário: há sinais de que a curva de agravamento começa a se inverter. Movimentos nas famílias, comunidades e nas políticas públicas mostram que a sociedade está reagindo.
Por ora, fica a sugestão para as famílias: preste muita atenção no seu adolescente. Escute, abrace, diga que o ama. É um bom começo.