Nos últimos anos tornou-se cada vez mais comum ouvir uma frase curiosa, quase um pedido de absolvição antecipada: “desculpa por ser homem”. Dita muitas vezes em tom irônico, outras em tom sério, ela aparece como uma tentativa de se diferenciar de um modelo masculino historicamente associado à violência, ao autoritarismo e ao privilégio. À primeira vista, pode parecer um gesto de consciência, até mesmo de humildade. Mas será mesmo?
Este texto parte de uma inquietação: o que está por trás dessa necessidade de pedir desculpas pela própria condição de homem? E mais importante, que tipo de política e de prática se constrói a partir disso? A resposta não é simples, mas passa por uma ideia central: a culpa, quando não acompanhada de transformação concreta, pode ser apenas mais uma forma sofisticada de manter as coisas exatamente como estão.
A frase “desculpa por ser homem” revela, antes de tudo, um deslocamento interessante. Em vez de encarar o problema como algo estrutural, isto é, um sistema de relações de poder que beneficia homens enquanto grupo, ela individualiza a questão. O homem que pede desculpas se coloca como exceção, como alguém que reconhece o problema e, por isso mesmo, acredita estar fora dele. É uma estratégia simbólica: ao admitir culpa, ele tenta se inocentar.
Mas há um paradoxo evidente aqui: se o problema é estrutural, não se resolve com declarações individuais de arrependimento. O patriarcado não é desmontado por frases bem-intencionadas, nem por performances de sensibilidade, ele se sustenta em práticas cotidianas, em privilégios silenciosos, em relações desiguais que continuam operando mesmo quando não são nomeadas.
É justamente nesse ponto que entra a figura dos homens que se dizem aliados. Eles leem, compartilham textos, se posicionam publicamente contra o machismo e, em muitos casos, acreditam estar fazendo o seu papel. No entanto, não raro, esses mesmos homens reproduzem, em sua vida privada, as mesmas dinâmicas de poder que criticam em público. Interrompem mulheres, centralizam debates, evitam responsabilidades emocionais, se beneficiam do trabalho invisível de outras pessoas.
A culpa, nesse contexto, funciona como uma espécie de moeda moral. Ao demonstrá-la, o sujeito sinaliza pertencimento a um campo político considerado “correto”. É uma forma de dizer: “eu sei, eu entendi, eu não sou como os outros”, mas, essa distinção, em vez de produzir mudança, pode reforçar uma hierarquia simbólica agora não mais entre homens e mulheres apenas, mas entre “homens conscientes” e “homens ignorantes”.
O problema é que essa hierarquia continua centrada nos homens, continua sendo sobre eles, sobre como se veem, sobre como querem ser percebidos. Enquanto isso, as experiências concretas de quem sofre com o machismo permanecem em segundo plano, se torna uma inversão sutil, mas significativa. As mulheres, que deveriam estar no centro da escuta e da transformação, acabam mais uma vez deslocadas para a periferia do debate. O foco deixa de ser a mudança de práticas e passa a ser a validação de identidades.
Há também um componente performático importante: em tempos de redes sociais, posicionar-se tornou-se quase uma exigência. O silêncio pode ser interpretado como conivência, e isso gera uma pressão constante por manifestações públicas. Nesse cenário, a frase “desculpa por ser homem” funciona como um atalho: ela condensa uma posição política em poucas palavras, sem necessariamente exigir um compromisso mais profundo.
Mas performar consciência não é o mesmo que praticá-la e talvez esse seja o ponto mais incômodo de toda essa discussão. Porque exige um deslocamento real, um questionamento que vai além do discurso e atinge o cotidiano, exige abrir mão de privilégios, dividir espaços, escutar mais do que falar, rever comportamentos que foram naturalizados ao longo da vida.
Isso não significa que a culpa não tenha lugar. Ela pode, sim, ser um ponto de partida e reconhecer que se faz parte de um sistema injusto é importante. O problema é quando esse reconhecimento se esgota em si mesmo, quando a culpa vira um fim, e não um meio, quando ela serve mais para aliviar a consciência do que para transformar a realidade.
Ser aliado, portanto, não passa por pedir desculpas e aqui é importante insistir: homens que se dizem aliados precisam ir além da identificação com essa posição, passa por agir. E agir, nesse caso, é algo muito menos glamouroso do que postar textos ou fazer declarações públicas, é interromper outros homens quando reproduzem comportamentos machistas, constranger um amigo que faz uma piada misógina, interromper uma conversa em que mulheres são desumanizadas, recusar cumplicidades silenciosas e tudo isso implica risco: de desconforto, de conflito, de perda de pertencimento. E é justamente por isso que tantos homens evitam fazê-lo, mas, sem esse movimento, qualquer ideia de aliança permanece incompleta. Porque é no espaço entre homens que muitas violências são autorizadas, normalizadas e reproduzidas. Ser aliado, portanto, não é apenas se posicionar diante das mulheres, mas assumir um papel ativo na transformação dessas dinâmicas entre pares, é assumir responsabilidades dentro de casa. É aceitar críticas sem se colocar imediatamente na defensiva, é entender que não se trata de ser reconhecido como “um bom homem”, mas de contribuir para que estruturas injustas deixem de existir.
Existe também um desafio importante: abandonar a necessidade de protagonismo. Muitos homens ainda querem ser vistos como parte central da solução, quando, na verdade, seu papel muitas vezes é outro: o de apoiar, de sustentar, de não atrapalhar. Isso implica um exercício constante de deslocamento, que pode ser desconfortável, mas é necessário.
Talvez o mais honesto, no fim das contas, não seja pedir desculpas por ser homem, mas assumir responsabilidade por aquilo que se faz sendo homem. A diferença entre uma coisa e outra é enorme, a primeira é abstrata, quase identitária e a segunda é concreta, situada, prática.
Se a crítica à culpa performática nos leva a um impasse, talvez seja porque ainda falamos pouco sobre o que, concretamente, significa transformar a masculinidade. Não se trata apenas de abandonar discursos explicitamente violentos, mas de questionar um modelo de homem que se sustenta na recusa do cuidado, na dificuldade de lidar com afetos e na constante fuga de responsabilidades emocionais.
O cuidado, historicamente feminilizado e invisibilizado, continua sendo tratado como uma obrigação natural das mulheres, e não como uma responsabilidade coletiva. Homens que se dizem aliados, mas não se implicam na redistribuição concreta desse trabalho, seguem se beneficiando de uma estrutura que dizem criticar. Não basta reconhecer a sobrecarga feminina; é preciso deslocá-la, assumir tarefas, comprometer-se com o cotidiano, com o que é repetitivo, com o que não gera reconhecimento público.
Há também uma dimensão fundamental que frequentemente é negligenciada: a responsabilidade afetiva. Em uma cultura que socializa homens para o distanciamento emocional, para a evitação de conflitos e para a recusa do compromisso, a ausência de responsabilidade afetiva se torna uma forma naturalizada de violência. Não nomeada, muitas vezes não reconhecida, mas profundamente sentida por quem está do outro lado. Ser responsável afetivamente não é apenas “não machucar”, mas sustentar presença, comunicação e compromisso. É não se esconder atrás de ambiguidades, não se esquivar de conversas difíceis, não tratar o outro como descartável. É, em última instância, reconhecer que relações também são espaços de ética.
No fim das contas, talvez a questão nunca tenha sido sobre pedir desculpas.
Porque pedir desculpas é fácil. É rápido, é reconhecível, é até, em certa medida, confortável. Difícil é sustentar a mudança quando ninguém está olhando. Difícil é abrir mão de privilégios que nunca precisaram ser nomeados. Difícil é romper pactos silenciosos entre homens que garantem pertencimento ao custo da violência contra mulheres.
A transformação que se exige não cabe em frases de efeito nem em gestos simbólicos. Ela se constrói no cotidiano, nas escolhas pequenas, nas recusas difíceis, nos enfrentamentos que não rendem aplauso. Talvez, então, o mais honesto não seja dizer “desculpa por ser homem”, mas perguntar, de forma menos confortável e mais implicada:
o que você está disposto a perder para que as coisas mudem?