Minissérie em seis edições, Tom Strong e o Planeta do Perigo foi a última aventura solo do herói científico criado por Alan Moore e Chris Sprouse em 1999, no selo America’s Best Comics. Peter Hogan, que já havia assinado outra minissérie em seis edições com o personagem, Tom Strong e os Robôs da Destruição (2010), retorna ao roteiro ao lado de Sprouse nos lápis e Karl Story na arte-final, num trabalho de equipe que claramente deu certo visualmente. A trama é construída a partir de um gatilho familiar urgente: Tesla, filha do protagonista, enfrenta uma gravidez potencialmente fatal, pois o bebê herdou a natureza ígnea de seu pai, Val Var Garm. Como a ciência terrestre não pode fazer nada (nem mesmo a partir dos inventos do herói científico), Tom e Val vão à Terra Obscura, réplica da Terra no outro lado da galáxia, em busca do Alosun, o elixir solar criado por Tom Strange, a contraparte de Tom naquele mundo. Hogan faz uma narrativa que liga o universo dos Strong aos heróis de domínio público que Moore resgatou nos números 11 e 12 da série original (Terror na Terra Obscura) e depois expandiu nas duas minisséries de Terra Obscura (2003 a 2005), coescritas com o próprio Hogan.
A chegada à Terra Obscura coloca Tom e Val no meio de uma catástrofe humanitária. Uma praga mortal (a “morte rubra“) dizimou boa parte da população, e os heróis da S.M.A.S.H. estão dispersos, sobrecarregados ou mortos. Hogan guia a dupla por um roteiro itinerante, marcado por diversos encontros com personagens como Terror, Espírito Combatente, Águia Solitária, Fantasma, Set e Toth e tantos outros, cada qual tentando sobreviver ao colapso de seu mundo. Talvez o maior problema de toda essa jornada seja a maneira inicialmente urgente e, depois, solta demais com que o roteiro trata os encontros de Strong e Val com diferentes grupos dessa contraparte terrana. Eu gosto de todos os encontros, mas narrativamente existe uma certa frustração porque são muitos e nenhum deles ganha espaço suficiente para brilhar com toda sua força. Além disso, existe a urgência de retornar à Terra para o nascimento do bebê de Tesla, então, quando a dupla terráquea chega à Lua e se encontra com Strange, o que deveria ser o ponto alto, em termos de tensão em toda a HQ, acaba tendo um número menor de páginas e uma resolução do problema principal (encontrar os anticorpos no sangue de Strong e Val) que tem a maior cara de Deus Ex Machina.

A arte se enquadra bem nas necessidades desse tipo de aventura. A maneira como os heróis da Terra Obscura são desenhados, a paleta de cores escolhida para dar identidade a cada um dos locais visitados por Strange e Val (e, de novo, ressalto que as sequências na Lua, também na parte estética, mereciam uma distinção maior) e a boa alternância entre cenas do presente e do passado formam um mosaico divertido e até tocante de acompanhar. A página inteira com o corpo do Cruzado Americano seguindo em direção ao Sol; a primeira mostra metalinguística mais ampla, com os heróis da Terra Obscura num painel do tipo “quem é quem“; e toda a sequência em “Novo Egito” (região do Grand Canyon) são os maiores destaques artísticos da minissérie. Embora não exista nenhum momento esteticamente ruim aqui, é evidente que alguns blocos narrativos acabaram tendo mais atenção que outros.
O clima aconchegante e familiar que se tornou característico na fase final da série de Tom Strong está por toda a parte ao término de Planeta do Perigo. Tesla dá à luz Faraday e os heróis de Terra Obscura também são agraciados com o nascimento de uma criança, num paralelo temático entre as duas realidades que aquece o coração. A cura para a praga vermelha se resolve em poucas páginas, sem a catarse que cinco edições de acúmulo dramático mereciam, mas a escolha definitivamente funciona. Ainda assim, existe algo comovente na insistência com que a minissérie abraça o otimismo como postura ética diante do desastre, sem aquele cinismo chato que muitos roteiros adotam nessa situação. Tom Strong, nascido como tributo aos heróis pulp do início do século XX, termina sua saga solo olhando para a geração seguinte, após salvar a geração do presente. É verdade que a minissérie tropeça em alguns de seus passos mais ambiciosos e esperados, mas a proposta mais emocional do projeto permanece sólida o bastante para que Planeta do Perigo cumpra o papel de despedida de um personagem que merecia muito mais páginas do que a indústria lhe concedeu.
Tom Strong e o Planeta do Perigo (Tom Strong and the Planet of Peril) — EUA, setembro de 2013 a fevereiro de 2014
Roteiro: Peter Hogan
Arte: Chris Sprouse
Arte-final: Karl Story
Cores: Jordie Bellaire
Letras: Todd Klein
Capas: Chris Sprouse, Karl Story
Editoria: Ben Abernathy, Kristy Quinn, Shelly Bond, Jessica Chen
Tradução: Fabiano Denardin, Octavio Aragão
148 páginas