A pergunta que se pode fazer no momento é: até quando? O discurso sobre diversidade de gênero parece ter atingido um platô sem que nada tenha se alterado substantivamente. Esse me parece ser o mesmo destino da “longevidade” até, pelo menos, 2050, quando efetivamente a maioria da população brasileira será composta com 30% de adultos 60+, colocando o país entre os mais envelhecidos do mundo. Até lá vamos conviver com estereótipos que impedem inovação e desenvolvimento econômico e social.
Ainda nos percebemos como um país jovem e, embora a sociedade pareça ter acordado para o envelhecimento da população, a velhice continua estigmatizada. Os velhos são empurrados para “não lugares”. Com raras exceções que continuam sendo aplaudidas nas artes, a maioria precisa se esconder de alguma forma, já que estigmas e bullyings acabam por levar a alguma forma de autoexclusão. Recentemente recebi de um aluno em sala um elogio etarista: “nossa, você é muito jovial”. Traduzindo: “não esperava que velhos como você tivessem esse vigor.” Não estou reclamando da frase, ela foi mesmo dita como elogio, apenas pontuando que expressa expectativas e pré-conceitos sobre o envelhecimento que são tão entranhadas no nosso imaginário que sequer nos damos conta deles.
Vários amigos e amigas já relataram que sempre são inqueridos: “você ainda trabalha?” O “ainda” é revelador de uma ideia antiga de que profissionais mais velhos devem necessariamente se aposentar. Aqui reside a complexidade do momento: em primeiro lugar, do ponto de vista individual, felizmente estamos vivendo mais e melhor – claro que nem todos, a depender de diversos fatores, inclusive classe social e geografias – graças às melhores condições de vida e avanços da medicina. E o trabalho honra a vida, associado à construção da identidade. Trabalho, especialmente para os homens, sempre ocupou a maior parte do tempo da vida, além de trazer reconhecimento social. Como aponta Cristophe Dejours, trabalhar significa manter um lugar social, conectar pessoas, usar a inteligência na solução de problemas, um círculo virtuoso para manutenção da saúde. E, como mostra Arthur Brooks, a “inteligência cristalizada” dos mais velhos, em contraposição à inteligência fluída dos jovens, traz vantagens que decorrem do acúmulo de conhecimento e permite respostas criativas para problemas complexos.
Em segundo lugar, trabalho significa sobrevivência. Nem todos que envelhecem hoje conseguiram poupar suficientemente para uma vida digna na velhice e precisam continuar trabalhando. Considerando a demografia brasileira, enfrentaremos pressões sobre sistemas de saúde e previdência. Hoje a aposentadoria dos mais velhos já é fonte de sustento da família, especialmente em arranjos familiares mais pobres. “Idosos provedores”, em paralelo com desemprego e precarização do trabalho para os mais jovens, têm transformado as relações familiares, nem sempre com a reciprocidade devida por aqueles que recebem esses recursos. Embora associada com famílias mais pobres, as camadas médias também passam por essa reconfiguração em paralelo com as imagens de um idoso improdutivo predomine, assim como várias manifestações de etarismo que chegam até mesmo ao exercício da violência com os mais velhos. No caso das idosas, e o envelhecimento é feminino, a intersecção entre marcadores sociais (gênero, idade e classe social) tende a aumentar a vulnerabilidade das mulheres.
Em terceiro lugar, o mercado de trabalho, que com o avanço das IAs, passa por profundas transformações: desde demissões, nem sempre planejadas, até a redução do número de postos de trabalho permitido pelo uso das inteligências artificiais. Nesse caso, profissionais mais velhos poderiam ser beneficiados por serem portadores de repertórios mais amplos para validação de dados. No entanto, o etarismo ainda permeia as organizações. Como sabemos nem sempre a racionalidade impera na organização do trabalho e isso tem sido destacado em pesquisas sobre produtividade e IA: o foco deveria ser pessoas em treinamento, requalificação e na reorganização do trabalho. Entretanto, nesse cenário, ainda que com repertórios alargados, nem sempre os profissionais mais velhos são os escolhidos.
Longevidade é sem dúvida um ganho imenso que pode ser ainda maior se as pessoas, as organizações e a sociedade puderem olhar, sem estigmas ou estereótipos os mais velhos. Também os mais jovens. Conheço alguns, em tempos de mídias sociais, que aos 11 anos já leem 600 páginas. Coortes geracionais são úteis didaticamente, mas cada pessoa merece ser vista na sua individualidade, sem rotulações.