Poucas criações na história dos quadrinhos geraram o tipo de chacoalhão estético e temático que Arzach gerou. Quando Moebius publicou suas histórias mudas nas páginas da Métal Hurlant ao longo de 1975, ele basicamente remodelou a ideia do que uma aventura da Nona Arte poderia ser, conseguindo chamar a atenção em páginas sem qualquer âncora verbal, apenas a imagem de um guerreiro silencioso montado num pterodátilo branco (ou “pássaro de pedra“) sobre paisagens que pareciam saídas de uma mistura de Pré-História com narrativas tribais. A radicalidade disso foi sentida imediatamente, não só no circuito francês, mas em praticamente todo lugar onde a revista chegou, incluindo o Japão, onde influenciou diretamente Hayao Miyazaki na criação de Nausicaä do Vale do Vento. Dezoito anos depois dessas primeiras publicações, a editora Kitchen Sink Press (que naquele mesmo 1993 passara por uma fusão conturbada com a Tundra Publishing, de Kevin Eastman) lançou Visões de Arzach, uma coletânea organizada por Randy e Jean-Marc Lofficier, com prefácio de Harlan Ellison, reunindo mais de cinquenta artistas de todo o mundo para criar as suas próprias interpretações do personagem. Era, em essência, um experimento sobre a passagem de uma criação bastante peculiar para o domínio de outros artistas.

Visão de Brian Bolland.
O volume começa com uma arte do próprio Moebius, mostrando Arzach como uma espécie de John Ford, sentado numa cadeira, observando algo no deserto, como se estivesse esperando aparecer no horizonte as visões artísticas que fariam sobre ele. O que vem nas páginas seguintes é um projeto com artistas demais para uma crítica só, por isso selecionei apenas as artes que me chamaram mais a atenção para um breve comentário. Sergio Aragonés, com a leveza cômica que define toda a sua obra, apresenta o pássaro se recusando a trabalhar porque estava chocando ovos, e a piada cai muito bem porque respeita a lógica interna do universo de Moebius, a de que o pássaro pode sim tomar suas próprias decisões. Stephen Bissette, num gesto de admiração declarada, se inspirou em uma das páginas de Arzach para reproduzir o voo com “os personagens trocados“, uma cadência bem-humorada que eu esperaria dele num projeto como este. Brian Bolland aparece com um voo raso, sendo observado num cenário oriental e seguindo uma personagem nua, tudo com aquela precisão técnica, sólida e gelada que é a assinatura do britânico. Will Eisner aposta em um encontro rápido, de passagem, no melhor estilo de quem quer mostrar personagens icônicos fazendo o que sabem fazer e se espantando com o trabalho do outro. Frank Kelly Freas, por sua vez, escolhe retratar um momento de ternura: a relação entre Arzach e seu pássaro, juntos desde o instante em que o ovo metálico se quebrou, e a imagem tem uma delicadeza que contrasta com a vastidão árida do cenário, observada pelos “pais” do pássaro, tudo muito grandioso e tocante.

Visão de Angus McKie.
O que torna Visões de Arzach uma HQ de valor para além do simplesmente comemorativo é que vários artistas trataram o personagem com grande carinho, não apenas como um ícone para ser reproduzido a pedido de uma editora, mas como portador de um mistério que, por sua vez, o artista tentaria cercar e responder. Angus McKie desenha o que parece ser o fim de Arzach, ou “a vingança da espécie de símio vermelho“, a mesma que o protagonista engana e faz cair na vegetação devoradora em uma de suas histórias originais, e isso transforma a ilustração em algo que coexiste com o cânone, mesmo sem ser. Dean Motter vai além: coloca o personagem como decoração de um daqueles restaurantes no meio do nada, numa estética atompunk que ressignifica Arzach de um modo completamente inesperado e, por isso mesmo, bom demais. Kevin O’Neill ganha pelo caos bélico da cena que constrói e pela belíssima moldura que adiciona uma impressão tribal ou mesmo de “Idade da Pedra” à sua realidade. Katsuhiro Otomo opta pelo caminho que, de todos, é o mais emocionante, para mim: uma visita ao museu onde, diante do fóssil do pássaro, alguém da espécie de Arzach (ou talvez o próprio viajante), aparece ao lado de uma criança observando a exposição, uma cena de tantas camadas de significado que me fez ficar um tempão pensando a respeito. George Pratt segue na mesma trilha arqueológica, trabalhando diretamente com o crânio do pássaro, numa abordagem que faz sentido para o personagem e sua relação com um mundo de ruínas. William Stout traz uma visão xamânica, um momento de conexão de Arzach com o divino, com uma moldura que incorpora o pássaro, a estética de Pré-História e as paisagens de Moebius de um jeito que poucos aqui conseguiram juntar. Mike Zeck chama a atenção pelas suas proporções: tornou Arzach fisicamente imponente e o pássaro genuinamente amedrontador, uma reinterpretação de escala que muda (e muito!) a leitura dos personagens.

Visão de Katsuhiro Otomo.
Mas o oposto de todas essas ótimas representações do icônico personagem de Moebius também existe, infelizmente. Jon J. Muth transformou o viajante em uma figura militar inspirada em Napoleão, em cima de um cavalo preto, o que não guarda qualquer relação com a essência do que Moebius criou. Pelo menos o artista tentou colocar, na fisionomia do cavaleiro, o rosto inconfundível da criação original. Walt Simonson, por outro lado, faltou com todo o respeito à proposta e entregou um desenho horrendo de um homem (supostamente Arzach) sobre a cabeça de um dinossauro verde (supostamente uma interpretação para o pássaro de pedra) que não tem nem remotamente a ver com o universo visitado. Faço questão de destacar essas duas únicas artes que não me agradaram em nada, porque Visões de Arzach é um exercício sobre interpretar uma obra com identidade muito forte, mas, ainda assim, aberta a tantas possibilidades que não era necessário jogar fora a referência e inventar qualquer bobagem como Simonson fez aqui. A grande maioria dos participantes compreendeu que a abertura artística era um convite à imaginação de cada um, não uma permissão para ignorar o que o Arzach de fato é. Mas o leitor ainda encontrará nessas páginas estudos, cenas, situações e visões desse personagem de Moebius que certamente irão fazer fazer a leitura/observação. É o tipo de quadrinho que exige um olhar mais demorado e muito, muito pensamento sobre o que essas visões querem nos dizer.
Visões de Arzach (Visions of Arzach) — EUA, 1993
Roteiro: Todas as histórias são silenciosas
Arte: Moebius, Sergio Aragonés, Jerry Bingham, Steve Bissette, Mark Bodé, Brian Bolland, Norm Breyfogle, Frank Brunner, John Buscema, Paul Chadwick, Tim Conrad, Richard Corben, Leo Durañona, Kevin Eastman, Will Eisner, Jim Fitzpatrick, Frank Kelly Freas, Dave Gibbons, Scott Hampton, Jaime Hernandez, Kelley Jones, Michael Wm. Kaluta, Cam Kennedy, Joe Kubert, Ted McKeever, Angus McKie, David Mazzucchelli, Mike Mignola, Hayao Miyazaki, Dean Motter, Jon J. Muth, Kevin O’Neill, Katsuhiro Otomo, Wendy Pini, Mike Ploog, George Pratt, Denis Rodier, P. Craig Russell, Stan Sakai, Eric Shanower, Bill Sienkiewicz, Walt Simonson, Jim Steranko, William Stout, Bryan Talbot, Timothy Truman, Charles Vess, Kent Williams, Gahan Wilson, Mike Zeck, Michael Zulli
Editora: Kitchen Sink Press
55 páginas