O fraco desempenho da geração de empregos formais em abril trouxe sinais de alerta para determinados setores e também deve afetar o resultado anual do mercado de trabalho, ainda que certa desaceleração já fosse prevista, avalia Janaína Feijó, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre). “Neste ano, essa foi a maior discrepância entre a projeção dos economistas e o que de fato se concretizou”, diz.
“Foi um resultado muito ruim em termos mensais e isso acaba influenciando no resultado do quadrimestre e do ano. Eu tinha a percepção de que o primeiro semestre poderia ser bem melhor do que o segundo semestre, dadas as obras a serem finalizadas antes da eleição e os incentivos do governo para estimular a atividade econômica (…) Vamos ter que esperar dois meses para saber se a queda brusca é esporádica ou faz parte de um novo patamar de desaceleração que o mercado de trabalho atinge”, avalia.
O saldo de vagas formais alcançou 85.888 mil vagas em abril, enquanto a mediana de 21 estimativas coletadas pelo Valor Data apontava para criação líquida de 215 mil postos de trabalho. A economista destaca que, na perspectiva histórica, é o menor valor para um mês de abril desde 2021, a partir da reformulação da metodologia do Caged, em 2020. Em termos nominais, é o menor valor desde 2017.
“Esse resultado no agregado é fruto do resultado ruim de praticamente todos os setores. Agro, indústria e comércio também com o pior resultado desde 2021. Isso mostra que realmente o mês de abril foi muito ruim para todos os setores”, diz.
Para além da taxa de juros em patamar elevado, e dado que o afrouxamento monetário iniciado pelo Banco Central (BC) em março ainda não teve tempo para impactar o mercado de trabalho, a economista do FGV-Ibre avalia que o alto endividamento das famílias pode estar influenciando a geração de emprego. No caso, com menos disposição de compra, os empregadores acabam gerando menos vagas.
“O que pode estar ocorrendo é que as famílias estão com mais dificuldade para comprar. Com o impacto na atividade econômica, os setores restringem as contratações sabendo que não adianta contratar se não vão vender mais produtos. Eu vejo que a inadimplência gera uma queda na atividade econômica. Isso acaba fazendo com que os empresários, já decidindo postergar a decisão de investir, por conta dos juros e eleições, ainda tenham também essa questão da inadimplência influenciando”, explica.
Na análise setorial, o de serviços puxou a abertura líquida de vagas (69.601), seguido por construção (23.525) e indústria (9.256), enquanto comércio e agropecuária (que inclui produção florestal, pesca e aquicultura), registraram fechamento de vagas de 8.114 e 8.378, respectivamente. Nesse sentido, Feijó destaca que, na comparação com março, houve uma queda de cerca de 152 mil postos de trabalho no saldo mensal.
“Essa queda vem muito por comércio e serviços. Eles responderam por mais de 60% da queda do saldo. Quando a gente olha a variação percentual anual, se destacam o agro e o comércio. Houve uma queda de mais de 320% em agro, na comparação com abril de 2025, uma variação muito forte para o mês. Não aconteceu nada de extraordinário este ano ainda, mas foi uma queda muito grande para o padrão de contratações do agro”, afirma.
Na mesma comparação anual, o comércio registrou a segunda maior retração em termos percentuais, de 117,9%. Com relação ao setor, a economista destaca que a situação deve se reverter à medida que se aproximarem momentos sazonais de alta, como as festas de fim de ano.
No caso da agropecuária, o dado de abril acende um alerta ainda maior, dada a alta probabilidade de um “súper El Niño” interferir com a dinâmica de chuvas no país e prejudicar a safra brasileira. A economista alerta que, a depender das consequências deste fenômeno climático, a situação do emprego no setor pode chegar a patamares inéditos.
“O El Niño tende a afetar a produção de várias commodities e acabar prejudicando o que a gente espera da performance de agro. Em alguns anos, quando ocorre recorde de safra, isso ajuda a mitigar a performance do setor ao longo do ano. Neste ano, com essa queda em abril e o risco de um fenômeno externo afetando, a gente pode ver o setor atingindo mínimas que nunca vimos antes (…) O agro se modernizou muito e, em média, tende a contratar menos. Com o El Niño ocorrendo, só vamos sentir os efeitos no mercado de trabalho de três a quatro meses depois, mais para o final do ano”, afirma.