No verão de 1988, os desenhos animados americanos já tinham quase 50 anos de história, com seus personagens atingindo inimigos com bigornas, rolos compressores e caixas de dinamite ACME (American Corporation Manufacturing Everything). Até então, nenhum outro artista tinha explorado a ideia do que aconteceria se essa lógica fosse aplicada a corpos reais, com todas as consequências físicas que isso implica. Luigi Mignacco se perguntou como seria isso e, em setembro de 88, assumiu sozinho o roteiro do Investigador do Pesadelo, acompanhado dos desenhos de Luigi Piccatto e Cesare Valeri, entregando para o público um giallo mesclado de fantasia e metalinguagem, que usa os Looney Tunes como instrumento e a disputa por propriedade intelectual como motor da trama. Seguindo o estilo de exposição narrativa mais realista, explícita e irônica típicas da série Dylan Dog, o autor e os desenhistas fizeram a lógica cartunesca invadir o mundo real e desafiar a lógica de investigação policial, confundir as ideias de Dylan (já bem acostumado com essas coisas bizarras) e criar um embaralhamento dos sentidos, tudo isso terminando por encerrar a trama num tom e consequências inesperadas, mas muito interessante.
Piccatto e Valeri sabem o que estão fazendo. O choque visual entre os dois mundos — o cenário realista de Londres de um lado e o objeto de gag da ACME do outro, sem contar a maravilhosa cena de entrada de Dylan na dimensão animada — é o que dá à história parte de sua estranha tensão. A cena no cinema é muito representativa nesse sentido, com a projeção luminosa de Pink Rabbit na tela contra a silhueta escura do assassino mascarado com a faca na mão (o próprio coelho rosa), numa composição que qualquer fã de Hitchcock vai reconhecer em termos de claustrofobia e construção cênica, com um tiquinho de expressionismo, para melhorar. A transição entre os dois universos no clímax, quando Dylan toma LSD e o cenário perde as linhas duras para ganhar os contornos leves das histórias infantis, é a sequência mais inventiva do número — e a minha favorita! –, pois funde os dois mundos sem cair naquele jeitão de paródia, optando pelo pesadelo de quem não consegue mais distinguir brincadeira de realidade. O LSD misturado na bebida vem para justificar o absurdo, mas é uma solução inteligente, porque mantém o número preso à investigação realista, chocando o leitor com o que revela sobre o que de fato aconteceu nesse momento.

Descartando o “monstro sobrenatural”, o roteiro nos apresenta Willie Slowspeare (o trocadilho com Shakespeare o próprio Dylan escancara em voz alta), roteirista que teve o Pink Rabbit roubado pelos Sandy Sidney Studios, sátira direta à Walt Disney Company. O executivo Sandy Sidney tem bigode, rosto meio paternal e traje que são a cara de Walt Disney, e o próprio Mickey é diretamente citado por Dylan ao longo da investigação. A loucura de Willie é, ao cabo, o que Adorno e Horkheimer descreveram no capítulo A Indústria Cultural: O Iluminismo como Mistificação das Massas, ou seja, o processo mediante o qual os meios de produção subordinam a criação artística à lógica do mercado, transformando tanto o artista quanto sua obra em mercadorias. Freud também teria reconhecido esse mecanismo, pois o que aterroriza, aqui, é o familiar demais (a bigorna que sempre fez rir, a dinamite que sempre voltou sem danos) se tornando aterrorizante porque as consequências, finalmente, se tornam reais. Para mim, a trama também traz alguns problemas com diálogos arrastados, talvez tentando enganar o leitor, mas isso não dura por um grande número de páginas.
Fiquei completamente espantado com o final. Não esperava que Mignacco levasse a metalinguagem até onde levou e não vou entregar o que acontece, mas o desfecho faz com que Dylan “coloque as mãos na massa” e, quadros depois, quebra uma barreira metalinguística de forma maravilhosa, fazendo a ligação final entre mundo real e mundo do desenho animado. Isso aumenta o peso de tudo que veio antes. A violência cartunesca deixa de ser apenas um recurso e passa a ser uma declaração sobre a natureza do próprio quadrinho, sobre o que significa existir dentro de uma lógica de publicação mensal, com um personagem que nunca morre, nunca envelhece e (ironicamente) nunca sai ileso de verdade, mas não transparece essas sequelas, conseguindo disfarçá-las muito bem. Coelhos Cor-de-rosa Matam é um dos números mais instigantes dos primeiros anos da série exatamente porque questiona as regras do jogo enquanto joga, uma premissa sempre divertida, especialmente quando o impossível é, via de regra, possível de acontecer.
Dylan Dog #24: Coelhos Cor-de-rosa Matam (I conigli rosa uccidono) — Itália, setembro de 1988
Roteiro: Luigi Mignacco
Arte: Luigi Piccatto, Cesare Valeri
Capa: Claudio Villa
No Brasil: Dylan Dog 1ª Série – n°26 (Mythos, dezembro de 2004) / Dylan Dog Omnibus n°4 (Mythos, novembro de 2025)
Tradução: Julio Schneider (edição de 2025)
100 páginas