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quarta-feira, junho 24, 2026

Novas gestoras usam IA para desafiar gigantes do setor: ‘A máquina nunca fica doente, nunca sai de férias, está sempre disponível’

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Os avanços da inteligência artificial estão nivelando o campo de atuação entre gestores de fundos, facilitando a competição de empresas de nicho com grandes investidores macro e de renda fixa. Da análise de discursos em vários idiomas e do processamento de dados globais de inflação ao acompanhamento de documentos corporativos e do tom das discussões de comitês de investimento, a IA está assumindo grande parte do trabalho que antes era realizado por equipes de analistas, segundo cinco executivos que recentemente lançaram suas próprias gestoras.

“A tecnologia mudou a economia da construção de uma empresa de investimentos”, disse Dharmesh Maniyar, doutor em aprendizado de máquina que fundou seu segundo fundo, a MQT Asset Management, no fim do ano passado. “A IA permite que uma organização de nicho e focada como a nossa desenvolva capacidades poderosas muito mais cedo em sua trajetória.”

Os fundos macro buscam antecipar o impacto de mudanças econômicas e políticas globais nos mercados, em vez de investir em classes de ativos ou setores específicos. Suas estratégias dependem fortemente da análise de enormes volumes de dados e textos — uma tarefa ideal para os grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês), que evoluíram significativamente desde o fechamento da primeira gestora de Maniyar.

“Os mercados macro ficaram mais complexos, mais sensíveis às políticas públicas e mais dinâmicos, enquanto as ferramentas disponíveis para os gestores de investimentos melhoraram drasticamente”, afirmou Maniyar, que anteriormente administrou recursos na Brevan Howard Asset Management e na Tudor Investment Corp.

O hedge fund Palinuro Capital, com cinco pessoas e lançado no ano passado por Alfonso Peccatiello, pretende competir com mesas de operação compostas por 20 a 50 profissionais. A gestora utiliza LLMs para analisar discursos de dirigentes de bancos centrais de países que vão da Hungria à Coreia do Sul, trabalho que anteriormente exigiria especialistas regionais. “Na prática, é como ter um conjunto de analistas imparciais por uma fração do custo”, disse Peccatiello.

Pequenos fundos focados em renda fixa, como a Osmosis NL, enfrentam desafio semelhante em relação aos dados. Pesquisas que antes levavam semanas agora são concluídas em poucos dias, permitindo que a jovem empresa amplie rapidamente sua atuação com uma equipe de apenas 15 pessoas, segundo Victor Verberk, diretor-presidente e diretor de investimentos.

“Uma empresa menor como a Osmosis agora consegue cobrir todo o universo de investimentos”, disse Verberk, acrescentando que a IA permitiu reduzir em 25% seu plano de contratações para os próximos três anos. “A máquina nunca fica doente, nunca sai de férias, está sempre disponível.”

Concorrência mais intensa

A IA já está transformando o trabalho de profissionais de escritório em setores como software, marketing, consultoria e contabilidade. Os bancos estão criando menos vagas de entrada, enquanto gestores de patrimônio concentram cada vez mais seus esforços nos clientes mais ricos, deixando que robôs cuidem do restante.

Na indústria de gestão de recursos, que utiliza aprendizado de máquina e negociação algorítmica há décadas, a tecnologia em rápida evolução vem sendo amplamente adotada. Uma pesquisa realizada pelo Barclays Plc em maio com mais de 400 investidores em renda fixa mostrou que metade dos gestores de fundos long-only e a maioria dos hedge funds utilizam IA diariamente, principalmente para pesquisa.

“Isso aponta para um mercado que está se tornando mais competitivo, mais democratizado e mais acelerado”, disse Zornitsa Todorova, chefe de pesquisa temática de FICC (renda fixa, moedas e commodities) do Barclays.

Além de transformar a pesquisa, as novas ferramentas estão ajudando na gestão de risco e na modelagem de cenários. Durante o choque nos preços do petróleo neste ano, a Palinuro recorreu a um assistente de IA para analisar opções sobre dólar e commodities e identificar a forma mais barata de proteção, afirmou Peccatiello.

Na Alpha Curve Investments, um fundo de renda fixa sem restrições lançado em 2025 com apenas quatro profissionais, Philippe Gougenheim e Pierre Ahlsell de Toulza pediram ao Claude, da Anthropic PBC, que estimasse tendências de preços ao consumidor com base em dados dos EUA, Europa, Austrália, Brasil e Canadá. Em seguida, transferiram 70% da carteira de £ 100 milhões (US$ 132 milhões) para títulos indexados à inflação de curto prazo.

Eric Lonergan, que supervisiona mais de US$ 1 bilhão em ativos como chefe do novo Discretionary Macro Fund da Calibrate Management Ltd, disse utilizar IA para filtrar 100 ativos globais e chegar a 10 ideias de operações, substituindo um trabalho que no passado teria sido realizado por “legiões de analistas”.

Ao contrário das grandes plataformas, empresas recém-criadas geralmente não possuem sistemas legados que dificultem a implementação de novas ferramentas, o que permite uma adoção mais rápida. Verberk, que passou 16 anos na Robeco administrando estratégias de renda fixa, afirma que é mais fácil e barato para empresas menores integrar novas tecnologias. Sua gestora utiliza apenas duas plataformas centrais: Microsoft Azure e Bloomberg.

“Dada a velocidade com que a IA está mudando, é preciso ser altamente criativo e estar disposto a experimentar”, disse Lonergan, ex-gestor de portfólio da Eisler Capital e da M&G Investments.

Ainda assim, empresas maiores e com mais recursos financeiros provavelmente continuarão a ter vantagem, segundo Ben Conway, diretor de investimentos da Hawksmoor Investment Management Ltd. “Isso é algo que estamos levando em consideração na seleção de fundos”, afirmou.

Maniyar reconhece as vantagens que as grandes empresas ainda possuem em termos de capital, distribuição e amplitude de cobertura, mas diz que a tecnologia tornou o “campo de jogo mais interessante”.

“A vantagem está na forma como se integram pesquisa de dados, construção de portfólio com IA, execução e gestão de risco em um processo de investimento coerente”, afirmou. “A tecnologia certamente democratizou a infraestrutura, mas não a competência.”

Dharmesh Maniyar, fundador e CIO da MQT — Foto: Divulgação/MQT

[Fonte Original]

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