Os juros futuros encerraram o pregão desta terça-feira (30) em queda, movimento que se firmou após a divulgação do Caged de maio, que mostrou uma criação de empregos formais bem abaixo do esperado pelo mercado no mês passado. Com o dado, ganhou força a percepção de que o mercado de trabalho passa por um processo de arrefecimento em meio à política monetária bastante restritiva do Banco Central.
Desta forma, os investidores intensificaram a aposta em um novo corte da taxa Selic na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom), levando os juros futuros à sétima sessão consecutiva de alívio.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 exibiu queda de 14,04%, do ajuste anterior, a 14,00%; a do DI de janeiro de 2028 recuou de 14,11% para 14,015%; a do DI de janeiro de 2029 anotou baixa de 14,20% a 14,115% e a do DI de janeiro de 2031 cedeu de 14,28% para 14,21%.
Depois de vários pregões seguidos em queda, os juros futuros até ensaiaram alguma recomposição de prêmios no início desta sessão, mas logo o movimento se desfez e as taxas passaram a operar perto dos ajustes da véspera enquanto o mercado aguardava a divulgação do Caged de maio.
A abertura de 72,96 mil vagas com carteira assinada apontadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego ficou bem abaixo da expectativa mediana de 120 mil apurada pelo VALOR DATA. Assim, os juros futuros passaram a exibir queda mais firme e assim se mantiveram até o fim do pregão – ainda que as taxas não tenham fechado tão perto das mínimas intradiárias.
Helcio Takeda, sócio e economista da Pezco, afirma que o dado o surpreendeu apenas um pouco, uma vez que ele esperava uma geração de pouco mais de 80 mil vagas, bem abaixo das projeções da maioria do mercado. Ainda assim, ele avalia que a composição do Caged mostra sinais mais claros de arrefecimento do emprego, com abertura fraca de vagas em setores mais sensíveis à política monetária do BC, como comércio e indústrias.
“Parece que há um desaquecimento em curso, mas não sei se forte o suficiente para deixar o BC confortável”, pondera Takeda. De qualquer forma, o quadro até aqui parece favorável a mais um corte de 0,25 ponto percnetual da Selic na reunião de agosto do Copom, o que levaria o juro básico brasileiro de 14,25% para 14,00%.
Esse já era o cenário-base do mercado desde a semana passada, mas a expectativa de outro corte ganhou força depois do Caged. No mercado de opções digitais de Copom, a probabilidade precificada para mais uma redução da Selic subiu de 61% para 70%, enquanto a chance de que os juros se mantenham em 14,25% caiu de 36% a 28%.
“A impressão que temos, olhando para os dados já disponíveis, é que tem espaço pra mais um corte de 0,25 ponto”, diz Takeda, que cita não só o Caged, como também o IPCA-15 de junho mais benigno e a PNAD Contínua, que embora tenha registrado outra queda da taxa de desemprego, indicou uma desaceleração similar ao que mostrou o Caged na dinâmica da população ocupada em cada um dos setores da economia.
Para além de agosto, a possibilidade de continuação do ciclo de calibração da Selic dependerá do cenário externo e, principalmente, das discussões fiscais durante o período das eleições presidenciais, diz Takeda. Sem a sinalização de um ajuste dos problemas fiscais do país, é possível que as expectativas de inflação para 2027 e 2028 subam ainda mais e o real se desvalorize, dificultando novos cortes da Selic pelo BC, segundo a avaliação do economista.
“Trabalhamos com a hipótese de Selic a 13% no fim do ano, mas reconhecemos que a probabilidade desse cenário diminuiu bastante. Teria que acontecer uma inversão bastante grande, principalmente do fiscal, para viabilizar esse ambiente de Selic a 13%”, pondera.