A recente onda de calor no Hemisfério Norte configura mais do que apenas um dos verões mais quentes já registrados. Do ponto de vista científico, tornou-se “praticamente impossível” explicá-la fora do contexto do aquecimento global provocado pelo homem, nas palavras de um estudo do World Weather Attribution (WWA), consórcio internacional de cientistas que trabalha com modelos meteorológicos para calcular impactos das mudanças climáticas. Temperaturas diurnas acima de 40°C e noturnas além dos 30°C não ocorreriam 50 anos atrás, garantem os pesquisadores de Suécia, Dinamarca, Estados Unidos, Holanda, Irlanda e Reino Unido.
A Europa tem sido o continente mais atingido por períodos de temperaturas elevadas nos últimos anos. Destacam-se o verão de 2022, quando morreram mais de 60 mil pessoas devido ao calor. No ano seguinte, houve mais de 40 mil mortes. No ano passado, foram 2.300 em apenas 12 cidades. A análise do WWA constatou estresse térmico além do limite em 45% de 850 cidades europeias onde foram registradas altas temperaturas. O fenômeno se estende praticamente por toda a Europa Ocidental, inclusive pelos países nórdicos. Cenas mostram gente nas ruas em busca de abrigo e de fontes de água na tentativa de se proteger do calor escaldante, numa região despreparada para isso. Nos Estados Unidos, a temperatura alcançou 38°C em Nova York, com sensação térmica de 43°C, igualando recorde registrado em 1966.
O WWA chama a atenção para o impacto do calor no ecossistema e na infraestrutura de serviços da Europa, com reflexos na vida cotidiana. A probabilidade de incêndios florestais aumentou, sobretudo na Espanha e na França. Há registros de no mínimo 40 mortes na França causadas pelo fogo, além do fechamento de escolas e cancelamentos de eventos ao ar livre. Ao mesmo tempo, trilhos sofrem dilatação com a temperatura, podem se deformar, e o risco de descarrilamentos aumenta. O resultado é a interrupção de linhas ferroviárias, essenciais no continente.
O sistema elétrico europeu é interconectado, por isso as condições das usinas nucleares francesas são acompanhadas de perto. Elas dependem de refrigeração eficiente, prejudicada pela falta de chuvas e consequente redução do nível dos rios, ou pela elevação da temperatura da água. Em ondas de calor anteriores (2003, 2018, 2019, 2022), as usinas francesas foram forçadas a reduzir a potência. O impacto no sistema de saúde é inevitável. Mesmo na Inglaterra, as chamadas de emergência aumentaram em 20%. Há especial preocupação com os idosos, mais vulneráveis ao calor.
A situação mostra que as mudanças climáticas impõem desafios concretos para além da necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Adotar medidas para proteger a população de ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes deve ser uma preocupação de todos os países. Os efeitos do aquecimento, afinal, são globais.