A inflação subiu pouco em junho, 0,16%, praticamente a metade da mediana de 0,31% da previsão dos consultores e economistas ouvidos pelo Valor. Houve deflação em alimentos e bebidas, que têm grande peso no IPCA, e educação. A variação de preços dos transportes aumentou devido à alta das passagens aéreas, mas os subsídios dados pelo governo à gasolina e diesel levaram os dois itens à deflação também no mês passado. O ciclo de redução dos juros pode ter ganhado sobrevida com os resultados do IPCA. As apostas de que o Comitê de Política Monetária realizará pelo menos mais um corte de 0,25 ponto percentual em sua reunião de agosto são majoritárias, se nenhuma surpresa ocorrer.
Dos nove itens que compõem o IPCA, dois tiveram deflação, e apenas em transportes e artigos de residência os preços subiram mais em junho do que em maio. Nos outros cinco, houve alta menor do que no mês anterior. O índice de difusão, que mostra a porcentagem de produtos e serviços com altas de preços na amostra total, teve forte redução, de 65% em maio para 53,6% agora. Os preços dos monitorados subiram menos (0,29%), mas continuam com variação bem acima do IPCA em 12 meses, de 5,53%.
O IPCA de junho trouxe uma surpresa inflacionária boa para o Banco Central, que previa uma taxa de 0,32% para o mês. Outros índices de inflação relevantes apontaram na mesma direção que o índice oficial de inflação. O IGP-DI, da Fundação Getulio Vargas, teve deflação de 0,79% no mês e 3,59% em 12 meses, com o Índice de Preços ao Produtor Amplo com queda maior, de 1,36%. Todos os itens que compõem o IGP avançaram menos que em maio. O IGP-M registrou deflação de 0,5%, e sua variação (muito usada para corrigir aluguéis, por exemplo) em um ano foi de 3,16%.
A evolução dos núcleos de inflação foi benigna, com recuo de 5,29% em maio para 4,91% em junho. Serviços subjacentes, que reagem mais diretamente ao ciclo econômico, registram desaceleração, de 5,57% para 4,8% de um mês para o outro. Importante para a inflação prospectiva, o setor de serviços teve alta menor de preços (0,34%) do que em maio, embora em 12 meses, ao atingir 5,9%, esteja ainda muito acima do IPCA do período, que caiu para 4,64%.
A perspectiva para a inflação futura, no entanto, não se torna otimista apenas com o índice de um mês. As projeções do boletim Focus, que devem recuar com o IPCA de maio, ainda apontam 5,3% de inflação no ano, bem acima do teto da meta (4,5%). Mesmo com a maior taxa de juros em 20 anos, a atividade econômica não mostrou os sinais de desaceleração esperados. O governo Lula, em modo eleitoral, não parou de lançar programas com gastos fiscais e parafiscais no primeiro semestre, dificultando sobremaneira o caminho da inflação em direção a 3%. Em uma estimativa oficial, o Ministério do Planejamento calculou que os programas de crédito e renegociação de dívidas lançados poderão acrescentar R$ 110 bilhões ao Produto Interno Bruto ao longo do tempo, para além do exercício de 2026 (O Globo, ontem).
O crescimento acima do potencial tende a impedir a queda da inflação. O hiato do produto é positivo (o ritmo da economia é maior do que poderia ser com os recursos existentes), para o Banco Central, mas dá sinais de que voltou a crescer, segundo estudos dos economistas da FGV, Claudio Considera e Henrique Bittencourt (Valor, 8-7). O Fundo Monetário Internacional prevê que o PIB brasileiro crescerá 2,4%, mais do que no ano passado.
O BC avisou que poderá haver pausas e retomadas no ciclo de calibragem dos juros, e há problemas à vista no front inflacionário. A deflação de alimentos e bebidas, que pesam um quinto do IPCA, pode estar com os dias contados com a chegada do El Niño, que tem grande probabilidade de ser forte. O próprio BC já incorporou isso a seus modelos, projetando a normalização da alteração climática a partir do início de 2027. “O efeito sobre o IPCA acumulado em doze meses no horizonte relevante é relativamente modesto em comparação ao efeito que se prevê para o final de 2026 e os três primeiros trimestres de 2027”, registra o Relatório de Política Monetária de junho. Passados os efeitos do El Niño, haverá “contribuição baixista relevante” para a inflação acumulada em quatro trimestres da normalização dos preços dos alimentos.
Preços dos combustíveis, que tiveram deflação de 0,48% em junho, podem subir de novo, seja com o reinício da guerra no Oriente Médio ou mesmo com a retirada dos subsídios oficiais, caso as cotações de petróleo e derivados voltem ao normal. Segundo o IC-Br de junho do Banco Central, as commodities de energia recuaram 12,19% em dólares no mês passado. O mercado de trabalho, que tem sustentado o consumo, dá sinais de desaceleração de emprego e salários, uma tendência ainda não consolidada que pode ser invertida pelos estímulos do governo.
Como a taxa Selic é muito alta, é possível que o BC aproveite janelas de queda do IPCA, como a de agora, para reduzi-la, sem se comprometer com previsões de mais cortes. Abriu-se um espaço para isso agora.