Na semana passada, a médica-veterinária Fernanda Hoe voltou ao Brasil pela primeira vez desde que deixou a presidência da Elanco Saúde Animal Brasil para assumir uma cadeira na diretoria executiva da unidade de Animais de Produção da companhia, nos Estados Unidos. A viagem teve dois compromissos pessoais, rever a família e visitar a equipe da subsidiária brasileira, e um institucional, participar do primeiro encontro do Forbes Connections FMA, em São Paulo.
Durante a passagem pelo país, ela concedeu à Forbes Agro uma entrevista exclusiva sobre os primeiros meses na matriz da multinacional, dona de uma receita global de US$ 4,7 bilhões e presente em cerca de 90 países. Segundo ela, a missão começou antes mesmo de desfazer as malas em Indianápolis, no estado de Indiana, onde está a sede inaugurada no final de 2025, localizada na região central da cidade e próximo à antiga fábrica da GM Stamping.
“Não encontrei uma estrutura pronta. Foi preciso montar a equipe, definir a liderança, construir o plano de transformação e começar a visitar clientes logo nas primeiras semanas”, afirma Fernanda. A executiva assumiu a recém-criada unidade Package Goods, responsável pelo portfólio de saúde animal para bovinos, além de produtos destinados às cadeias de suínos e aves. Em cinco meses, percorreu Tennessee, Montana, Texas, Flórida e Iowa para conversar com pecuaristas, médicos-veterinários e distribuidores. Antes de tomar decisões, queria entender como funcionava o maior mercado da companhia.
A nova estrutura nasceu exclusivamente para os Estados Unidos. Até então, saúde animal e nutrição estavam reunidas sob uma única liderança, modelo que continua sendo adotado em países como o Brasil. O crescimento acelerado da divisão de aditivos alimentares no mercado americano levou a Elanco a separar os negócios para que cada área passasse a ter estratégia própria. Fernanda foi escolhida para construir essa operação praticamente do zero. Parte da equipe foi remanejada de outras áreas, outra parte precisou ser contratada nos primeiros meses do projeto. Hoje, ela lidera um grupo de 35 profissionais.
“Tudo aconteceu muito rápido. Foi necessário recrutar pessoas do mercado, formar a liderança, estruturar as áreas de vendas, técnica, programas para clientes e transformação digital. Não existia alguém para passar o bastão.”
Uma brasileira não por acaso
A escolha de uma brasileira para liderar uma unidade estratégica na sede global da companhia não aconteceu por acaso. O Brasil ocupa posição de destaque dentro da Elanco e figura entre os três maiores mercados da empresa no mundo. Nos últimos anos, a operação brasileira ganhou relevância pelo crescimento dos negócios e pela capacidade de competir em um ambiente considerado um dos mais disputados da saúde animal.
“A experiência construída no Brasil pesa muito. Trabalhamos há anos em um mercado extremamente competitivo, com milhares de produtores, diferentes perfis de clientes e forte presença de concorrentes. Essa realidade começa a aparecer também nos Estados Unidos.”
A comparação entre os dois países apareceu diversas vezes durante a conversa. Para quem observa a pecuária americana à distância, a impressão costuma ser de um mercado formado apenas por grandes confinamentos e fazendas altamente tecnificadas. Fernanda encontrou um cenário mais diverso. Assim como no Brasil, existem milhares de propriedades familiares, principalmente na pecuária de cria e na produção de leite, exigindo estratégias comerciais adaptadas a diferentes perfis de produtores.
Foi justamente essa semelhança que facilitou sua adaptação. O conhecimento adquirido em um mercado pulverizado, acostumado a lidar com forte concorrência e ampla rede de distribuição, tornou-se um diferencial em um momento de transformação da operação americana.
A adaptação aconteceu também dentro da empresa. A diretoria comercial da divisão de animais de produção sempre foi formada por homens. Fernanda passou a ocupar a única cadeira feminina desse grupo e admite que embarcou para os Estados Unidos sem saber como seria recebida. “Tinha curiosidade para entender como seria a receptividade a uma estrangeira. O time me recebeu muito bem. Existia também uma expectativa natural sobre o que mudaria com a chegada de alguém que vinha de outro mercado. A pergunta mais frequente era se haveria muitas mudanças na forma de trabalhar.”
A nova função colocou a executiva diante de um conjunto de desafios diferente daquele vivido no Brasil. O principal deles é a redução do rebanho bovino americano, que encolheu cerca de 20% nos últimos anos. Ao contrário da pecuária brasileira, que ainda possui espaço para elevar produtividade, os Estados Unidos já operam em um patamar tecnológico elevado. Produzir mais passou a depender menos da adoção de novas tecnologias e mais da capacidade de preservar eficiência com menos animais.
Outro tema que passou a fazer parte da rotina foi o retorno da bicheira ao território americano, problema sanitário praticamente ausente durante décadas e que voltou a preocupar produtores depois dos registros recentes no Texas. Para Fernanda, o desafio não está apenas na enfermidade, mas na necessidade de readaptar práticas de manejo de uma geração inteira de pecuaristas que nunca conviveu com esse tipo de ocorrência.
“Para nós, no Brasil, muitos desses procedimentos fazem parte da rotina das fazendas. Nos Estados Unidos, muitos produtores estão aprendendo agora a lidar com essa realidade.”
Entre uma viagem e outra, a base continua sendo Indianápolis, onde a Elanco inaugurou recentemente seu novo headquarters. O complexo reúne mais de mil colaboradores e mantém parcerias com universidades e startups para acelerar projetos de inovação em saúde animal. É dali que saem as estratégias para um mercado que responde por uma parcela significativa dos negócios globais da companhia.
Fernanda afirma que a estrutura criada para os Estados Unidos não deverá, por enquanto, ser reproduzida em outros países. Fora do mercado americano, o negócio de saúde animal da Elanco continua sendo muito maior que a divisão de nutrição, tornando desnecessária uma reorganização semelhante. O desafio agora é consolidar uma unidade que nasceu para responder às particularidades da pecuária americana, levando para dentro da matriz a experiência construída em um mercado que, durante muitos anos, ensinou multinacionais a competir em ambientes de alta complexidade.