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Numa pegada de “vida rural em ambiente violento”, Um Homem Pacato coloca Sam Willer em destaque, mostrando alguns momentos com o irmão Tex na infância e juventude, mas explorando a sua vida adulta, sua administração do rancho da família e os percalços que isso lhe trouxe. Roberto Recchioni assume aqui uma missão delicada. Ele tem pouco material de consulta canônica para considerar, mas não pode dar asas à imaginação, porque mesmo não estando presente, Tex é uma sombra narrativa e emocional no texto, afetando aquilo que deveria ser contado — para não contradizer as ações e narrações do próprio Tex sobre o irmão, como vimos aparecer, nesta mesma série, no arco Os Traficantes de Coffin — e as comparações que fazem entre ele e Sam, servindo de gatilho enraivecedor para o caçula.
O título é a real fotografia da personalidade do protagonista. Temos aqui um homem que se ressente de ter um irmão famoso por agir de maneira impulsiva e violenta no exercício da justiça com as próprias mãos. Sam é o oposto disso. Sem habilidade para atirar e evitando ao máximo confronto com outras pessoas, sua figura tem como inspiração o protagonista de Depois do Vendaval (John Ford, 1952), mas que vive em uma sociedade que não funciona na mesma medida que ele. Ladrões de cavalos, gado, trens, bancos, terras e grandes criminosos de colarinho branco estão o tempo inteiro pairando sobre as pessoas comuns e pacíficas, o que traz, para o texto, outra inspiração cinematográfica: Sob o Domínio do Medo (Sam Peckinpah, 1971), quase como uma negação da primeira grande referência. Sam não procura derramamento de sangue e exibe poucas emoções direcionadas a outras pessoas, mas não evita se engajar em uma luta mortal para defender seu espaço e sua própria vida. Sem a presença efetiva do Estado (os xerifes), o pacto social se dissolve e Sam é empurrado para o “estado de natureza”, onde a violência brutal é a única saída possível.
Simbolizando o corpo e a mente do próprio Sam invadidos, o rancho pelo qual o protagonista batalha é um local altamente simbólico no texto, inclusive na passagem para uma nova vida, como vemos no final do Especial. Ainda assim, há uma diferença constantemente ressaltada pelo autor entre o heroísmo romântico e apegado a um senso de justiça bruto (ligado a Tex) e a “verdadeira civilização”, do ponto de vista de Sam, o homem pacato e trabalhador que realmente constrói a sociedade ordenada, mas que, diante do colapso do pacto social e do ataque ao lar, recorrerá a uma violência muito mais assustadora, visceral e sem honra do que a do pistoleiro clássico. Sob o lápis de Stefano Andreucci, a arte corrobora bem esses dois momentos dramáticos do quadrinho.

No primeiro ato, o traço é mais limpo, luminoso e detalhista, com horizontes amplos, cavalos, porcos e muita gente trabalhando, compondo uma atmosfera bucólica e estável. Daí vem a primeira ruptura visual: a tempestade que cai durante o transporte do gado da cidade, confiado a Sam, uma sequência cheia de tensão. A partir de então, Andreucci enche os quadros de fortes hachuras diagonais (essa chuva é muito mais do que uma manifestação natural; por isso, dá a impressão de “borrar” os personagens) e deixa tudo mais dramático. Durante o cerco ao rancho, por exemplo, o contraste faz a casa parecer uma ilha de sombras contra os clarões dos tiros. Já na icônica luta no chiqueiro, o enquadramento se fecha e os dois homens se distorcem pela violência e pela sujeira, com as expressões faciais se tornando animalescas e todo o restante da cena virando puro instinto, carregando uma maravilhosa diagramação para os bandidos se movimentando pelo cenário (como já destaquei, há uma representação simbólica muito forte entre a propriedade e o próprio Sam) e a conclusão que definitivamente oficializa o romance entre o jovem Willer e a viúva Susan, uma personagem forte, decidida e muito bem escrita.
Alguns diálogos explicativos na fogueira, sobre classes sociais, ficaram um pouco didáticos e fora do tom mais seco do resto da obra, mas não é nada que tire o brilho do Especial. Vale destacar como o roteiro faz um bom contraste entre o modelo de vida de Sam (ganhando a vida com muito suor e estafa) e o da gangue de Cort (roubando e parasitando), outra relação civilizatória que faz parte da história dos Estados Unidos e que nunca deixou de existir. Enxergo aí uma porta escancarada para pensar nos moldes da masculinidade também. Isso porque Cort e McQuarrie veem o pacifismo como fraqueza e adotam uma atitude belicosa — que é desejada e admirada por outros homens –, enquanto Sam se apresenta como um provedor corajoso e resistente que, de forma irônica, se torna mais mortífero que os machões-padrão quando provocado. O quanto isso é uma espécie de repressão, podemos deixar para discussões mais específicas. Mas é fato que há muito mais luz, sombra e sentidos por trás dessa construção tão bem feita de um homem pacato como Sam Willer.
Um Homem Pacato – Tex Willer Especial #2 (Speciale Tex Willer n° 2: Un Uomo Tranquillo) — Itália, dezembro de 2020
Roteiro: Roberto Recchioni
Arte: Stefano Andreucci
No Brasil: Mythos, novembro de 2022
Tradução: Julio Schneider
132 páginas