“Onde estão os nossos desaparecidos?” Essa pergunta continua sendo feita por mães, companheiros, irmãs, filhos e outros familiares de vítimas da violência de Estado. A essa busca se somam os esforços de organizações e núcleos da sociedade civil que seguem procurando respostas sobre mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, entre eles os 434 casos reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade em 2014.
É nesse encontro entre um passado ainda não inteiramente elaborado e práticas científicas do presente que se insere o trabalho de pesquisadores que investigam e buscam identificar restos mortais. A relação entre ciência, memória e justiça em contextos de violações de direitos humanos está no centro da exposição Fazer falar os ossos, que ocupa o Centro MariAntonia a partir de 14 de agosto.
O projeto apresenta o trabalho interdisciplinar desenvolvido no Centro de Arqueologia e Antropologia Forense (CAAF) da Unifesp, cujas atividades vêm sendo documentadas em vídeo pelos pesquisadores desde 2022. Por demanda dos familiares de vítimas da Ditadura, a criação do centro correspondia a um acordo de cooperação entre a Unifesp, a Prefeitura de São Paulo e o Ministério dos Direitos Humanos, para a identificação de desaparecidos políticos entre os remanescentes ósseos da vala clandestina de Perus.
A exposição aborda a corporalidade e as práticas de uma antropologia forense reformulada em contextos pós-ditadura na América do Sul, como explica Edson Teles, curador da exposição, professor da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp e coordenador do CAAF: “Na América Latina, nasce uma outra antropologia forense, que não tem como foco a figura do indivíduo, mas se organiza em torno de uma transdisciplinaridade, de uma relação daquilo que é considerado científico com os movimentos de direitos humanos.”
Para isso, o projeto expositivo exibe vídeos de práticas forenses de especialistas registrados no interior do laboratório, buscando produzir um impacto imaginário sobre o que foi a ditadura a partir da materialidade. “A exposição, assim como as atividades que desenvolveremos, vão fomentar um ganho de imaginário sobre o que foi a ditadura”, afirma Teles.
“As pessoas não veem os ossos, a vala, os documentos produzidos durante o período e as reivindicações dos familiares. O Brasil não criou espaço para essas narrativas. A exposição consegue reunir e apresentar para o público uma materialidade que pode se refletir em um debate político.”
Ao lado de Teles, também assinam a curadoria da exposição Lorenza Mondada, professora da Universidade da Basileia, na Suíça, especialista em vídeo-análise, e Fernanda Cruz, professora da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp. Ambas coordenam o projeto Making Bones Talk: A Multimodal Interactional Perspective on Language, Bodies, Materialities and Knowledge at Work in the Forensic Lab. A iniciativa, financiada pelo Swiss National Science Foundation e pela Fapesp, investiga as práticas forenses desenvolvidas em laboratório a partir de perspectivas multidisciplinares.
Sobre o título da exposição, Mondada explica: “o que faz falar os ossos é o trabalho dos especialistas forenses, não os ossos em si. A ideia é pôr os antropólogos forenses no centro da discussão.” Em vez de transformar os restos mortais em objetos de contemplação, a exposição procura evidenciar as práticas por meio das quais eles são examinados, manipulados e interpretados.
A escolha de olhar para o trabalho dos especialistas também permite aproximar a exposição de uma discussão mais ampla sobre a história da antropologia forense na América do Sul. Embora a disciplina tenha desenvolvido métodos científicos internacionalmente compartilhados, sua prática assumiu características particulares no continente, sobretudo a partir das experiências de investigação dos crimes cometidos pelas ditaduras militares.
Para Mondada, uma das especificidades dessa trajetória está na relação estabelecida entre os especialistas e os familiares das vítimas. Em sua origem norte-americana, a antropologia forense tendia a delimitar o espaço da investigação científica, mantendo familiares e comunidades afastados do trabalho dos especialistas. Na América do Sul, porém, essa separação não se estabeleceu da mesma maneira. “É uma forma de investigação científica rigorosa, mas que não exclui o social”, afirma.
De forma complementar, Fernanda Cruz lembra que a pergunta “onde estão nossos desaparecidos?”, reverberada por familiares de vítimas, encontra corpo e materialidade na prática forense. “Eles também buscam cientificamente os desaparecidos. Essa pergunta retorna para nós, pesquisadores das ciências sociais e da linguagem”, explica Cruz.
Ao registrar em vídeo o trabalho realizado no laboratório, a pesquisa estabelece, segundo ela, uma espécie de rede entre diferentes atores envolvidos na busca, assim como não se restringe ao contexto da ditadura, mas se relaciona também com contextos diversos de violações de direitos humanos: “Os sacos de remanescentes humanos que chegam ao CAAF também reaparecem em imagens que vemos na mídia, que retrata episódios ocorridos no Complexo do Alemão, na Penha, na guerra na Ruanda, na Ucrânia, em Gaza e na Bósnia”.
Fazer falar os ossos: Engajamentos presentes com o passado
Abertura – sexta-feira, 14 de agosto a partir das 18h
Onde | Centro MariAntonia – Edifício Joaquim Nabuco
Rua Maria Antônia, 258 – Vila Buarque – São Paulo, SP (próximo às estações Higienópolis e Santa Cecília do metrô)
De 14 de agosto a 27 de setembro de 2026
Visitação | terça a domingo, e feriados, das 10h às 18h
Grátis
Informações | (11) 2648-5202
A exposição também conta com uma programação paralela, que pode ser conferida na integra clicando aqui