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domingo, agosto 16, 2026

Crítica | 99 Maneiras de Contar uma História – Plano Crítico

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Experimentos narrativos são sempre um desafio e um deleite para os leitores, e é nesse par de sensações que Matt Madden aposta aqui em 99 Maneiras de Contar uma História (EUA, 2005), que se inspira nos Exercícios de Estilo (França, 1947) de Raymond Queneau. Queneau foi um dos criadores do grupo literário Oulipo (a Oficina de Literatura Potencial que ele fundou com o matemático François Le Lionnais para produzir textos sob regras inventadas de propósito), pegou uma cena boba dentro de um ônibus parisiense e a reescreveu 99 vezes, cada versão obedecendo a uma exigência diferente de gênero, tempo verbal ou vocabulário.

A lição era simples e continua valendo, porque a regra mais rigorosa obriga a imaginação a trabalhar mais. Madden, que representa os EUA na OuBaPo (a Oficina de Quadrinhos Potenciais, criada na França com essa mesma lógica), leva a ideia para o terreno em que texto e imagem dividem o mesmo espaço, e o que temos é a leitura interessantíssima de uma HQ que utiliza metalinguagem e até mesmo experimentos matemáticos, propagandísticos e historiográficos para construir-se. Quando o autor recomeça a mesma cena escrita apenas em números binários, quando narra como anúncio de utilidade pública ou como um neurótico panfleto religioso, o que se mede é até onde uma informação aguenta ser traduzida para códigos que nada têm a ver com o que está adaptando. E, como a matéria-prima nunca muda, toda alteração fica visível, do ângulo escolhido ao formato do balão, da quantidade de quadros por página ao que se decide mostrar ou cortar.

Um homem se levanta da escrivaninha, responde às horas a alguém no andar de cima, abre a geladeira e esquece o que tinha ido buscar. 99 Maneiras de Contar uma História tem essa narração-modelo também como uma referência calorosa para o autor, inspirada numa fotografia dos anos 1990, em sua casa no México. Ao longo do texto, o leitor percebe como essas referências mexicanas e, depois, geográficas, vão se costurando às referências ligadas à palavra, a conceitos estatísticos, jornalísticos, literários e, claro, quadrinísticos. Em todo o processo, o texto permanece quase intacto e, com essa fixação, o autor mantém o leitor vidrado, aproveitando de maneira plena o núcleo da proposta, o velho jogo de “tema e variações”. Comparar passa a ser a única atividade possível e os melhores momentos disso aparecem quando a página mexe em alguma peça da comparação. Já quando há uma mudança drástica no roteiro ou uma repetição sem uma essência própria (como acontece na cena do furry, do casal alegre e do casal triste, por exemplo), o impacto se perde e temos a impressão de que aquela cena só está ali para preencher espaço. No entanto, a maioria esmagadora dos exercícios de estilo propostos é interessante e comunica algo diferente partindo da mesma fonte.

Essa diferença entre os exercícios explica por que a leitura varia de ritmo ao longo do quadrinho, sendo muito rápida nas cenas onde a mudança é apenas superficial, e mais exigente quando o leitor precisa perceber o que foi mudado, fazer as ligações diretas e indiretas com a cena-modelo e, por fim, entender as viradas de chave. Nada disso chega a ser difícil, mas a partir do momento em que algo além do olhar despreocupado é exigido, a coisa fica mais atraente. É aí também que se torna prazeroso acompanhar a dinâmica entre forma e conteúdo sendo reforçada e manipulada através dos desenhos e, no geral, da diagramação e projeto artístico de cada cena. Podemos destacar um enquadramento específico, um formato e composição e contornos (com sequências no estilo de linha clara e silhueta, por exemplo) e até abordagens que trazem momentos preciosos, como uma página à maneira dos gibis de terror da EC Comics ou a divulgação à la curso de fisiculturismo de Charles Atlas, aquele anúncio que prometia músculos a um rapaz humilhado na praia.

E ainda temos a aplicação de texto e imagem ao modo de Mort Walker, com o emanata que ele batizou em The Lexicon of Comicana (as gotas, riscos e nuvenzinhas que saem da cabeça do personagem para indicar susto, suor ou raiva); o dinamismo narrativo de tirinhas e composições como as de Rodolphe Töpffer, o suíço tido como pai da história contada em quadros; da Tapeçaria de Bayeux, com sua faixa bordada de imagens em sequência; de Richard F. Outcault (The Yellow Kid), com um baita painel nostálgico; de Winsor McCay (Little Nemo e os pesadelos de comilança que renderam aqui uma das melhores páginas); de George Herriman (Krazy Kat) e de Jack Kirby. Seja na brincadeira com letras, frases e palavras (há trechos em que o texto se arruma no formato daquilo que descreve), seja na criação de desenhos ou na desconstrução desses, Madden está o tempo inteiro lembrando qual é a sua intenção com essas 99 Maneiras e como as emoções e o entendimento do leitor podem mudar por completo até mesmo na passagem de um quadrinho para o outro, vide a página onde ele cria um centão (obra de arte, poema ou música feita com pedaços de outras obras famosas), com cada quadro mostrando uma arte diferente.

No meio do caminho, o caráter metalinguístico da HQ dialoga até mesmo com a percepção crítica que teremos da obra. A cena do crítico é o maior exemplo disso. Nela, a discussão sobre enquadramento, feição e intenção do personagem, as considerações contextuais sobre o entorno dele (como a voz da namorada no andar de cima) e os sentidos mais filosóficos a respeito do esquecimento diante da geladeira são possibilidades que o leitor não tinha necessariamente considerado e que, de maneira muito inteligente, aparecem na história para adicionar um “tempero” à percepção. É como o próprio autor deseja no texto de apresentação, conseguindo, afinal, o seu intento, quando escreve que, “em vez de requentar a eterna batalha entre forma e conteúdo, estilo e substância”, espera que o livro “questione essas dicotomias surradas e sugira um modelo diferente: forma enquanto conteúdo; substância inseparável do estilo”. Temos aqui um verdadeiro deleite para quem gosta de histórias em quadrinhos e se encanta com o processo criativo de uma obra de arte, pegando atalhos para conhecer cada etapa, cada manipulação possível de atmosfera e, principalmente, cada resultado. É um projeto que nos põe diante de quase uma centena de respostas, com mais de uma centena de perguntas e uma única (e aterradora) pergunta que fica em nossa mente como um kaiju artístico indomável: “que diabos nós queremos, afinal?”.

99 Maneiras de Contar uma História (99 Ways to Tell a Story: Exercises in Style) — EUA, 2005
Roteiro: Matt Madden
Arte: Matt Madden
Editora original: Chamberlain Bros.
No Brasil: Veneta, 2026
Tradução: Daniel Pellizzari
Prefácio: Maria Clara Carneiro
224 páginas



[Fonte Original]

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