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domingo, agosto 23, 2026

‘A mudança começa onde vivemos’, diz criador do movimento Cidades em Transição

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Em Liège, na Bélgica, uma pergunta mudou o rumo da cidade, há cerca de quinze anos: e se, em vez de depender de alimentos produzidos a centenas de quilômetros de distância, a maior parte da comida consumida ali viesse do entorno? A ideia mobilizou moradores, fortaleceu as redes locais de produção e inspirou a criação de jardins comestíveis, transformando espaços públicos em áreas de cultivo de alimentos compartilhados.

Na cidade francesa de Ungersheim, na região da Alsácia, a prefeitura adotou princípios semelhantes para fortalecer a produção local de alimentos, ampliar a geração de energia solar e estimular novos negócios. Em Totnes, no sudoeste da Inglaterra, moradores vêm se unindo para construir moradias comunitárias, criar uma empresa local de energia renovável e transformar um antigo prédio escolar em um centro para iniciativas sociais e culturais.

Essas experiências convergem para uma ideia comum – em vez de esperar que governos ou grandes empresas resolvam sozinhos a crise climática e seus impactos, comunidades podem organizar soluções para produzir alimentos, gerar energia, recuperar espaços urbanos e aumentar a resiliência da economia local. Esse é o princípio do movimento Cidades em Transição (do inglês Transition Towns), hoje presente em mais de 50 países.

A iniciativa começou a tomar forma em 2005, quando o escritor e ativista ambiental britânico Rob Hopkins se mudou para Totnes, no condado de Devon. Com experiência em planejamento comunitário, ele passou a reunir moradores para discutir como a cidade poderia responder aos desafios das mudanças climáticas.

Em setembro de 2006, nasceu oficialmente a iniciativa Transition Town Totnes, com a proposta de que a própria comunidade criasse soluções para uma sociedade menos dependente de combustíveis fósseis, e baseada no fortalecimento da produção de alimentos, do uso de energia renovável, da economia local e de redes de apoio. No ano seguinte, em 2007, foi criada a Transition Network, rede que ajudou a levar o modelo para outras comunidades ao redor do mundo.

Hopkins passou os últimos 20 anos reunindo histórias de transformação e mobilização social como essas. Boa parte dessas inspirações ele compartilhará na segunda-feira (24) no Brazil Futures Forum (BFF), no qual dividirá um painel com o ecólogo Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã, em conversa mediada por Lucimara Letelier, fundadora da organizacão RegeneraCultura.

O debate, que ocorrerá no Museu do Amanhã com entrada gratuita, abordará como novos imaginários podem inspirar experiências regenerativas que estão sendo colocadas em prática em diferentes comunidades, incluindo o Brasil. Um exemplo é a iniciativa Vale das Videiras em Transição, de Petrópolis (RJ), que liderou um viveiro de cerca de 1.000 árvores nativas na Mata Atlântica para reflorestamento.

Vale das Videiras em Transição — Foto: Divulgação/UMMA Hub

Sua participação no Brazil Futures Forum será virtual. Hopkins deixou de viajar de avião em 2006 por considerar incompatível defender a ação climática e manter uma rotina de voos.

Em entrevista por videochamada de sua casa em Totnes, ele conta que muitas das respostas para enfrentar a emergência climática já existem, mas permanecem restritas a pequenos grupos ambientalistas, e que é preciso transformar essas experiências em um movimento mais amplo.

“O que dizíamos desde o início era muito simples. Se fizermos isso sozinhos, será muito pouco. Se esperarmos pelos governos, será tarde demais. Mas, se nos organizarmos com as pessoas ao nosso redor, talvez seja suficiente. A mudança começa exatamente onde vivemos”, afirma.

Segundo ele, o primeiro passo não é construir grandes obras nem captar milhões em investimentos, mas conectar pessoas que compartilham os mesmos desejos para o futuro do bairro ou de uma cidade.

“Quando a transição funciona, ela age como um catalisador. Há muita gente pensando que alguém deveria criar uma horta comunitária, uma cooperativa de energia ou um projeto cultural. Elas só não sabem que existem outras pessoas pensando a mesma coisa. Quando se encontram, descobrem que podem fazer isso juntas”, diz.

Hopkins propõe uma nova forma de organizar a economia local. Em Totnes, isso significou criar cooperativas de energia, redes de produtores rurais, processamento coletivo de alimentos, um centro comunitário e, atualmente, a construção de 39 moradias de propriedade coletiva. A lógica, segundo ele, é fortalecer aquilo que torna uma comunidade menos vulnerável às crises.

“Precisamos encontrar maneiras de fazer o dinheiro circular mais vezes dentro da cidade antes de ir embora. Cada vez que ele escapa para grandes empresas de fora, perdemos uma oportunidade de fortalecer negócios locais, cooperativas e empregos na própria comunidade.”

Para Hopkins, esse fortalecimento das relações locais também redefine o conceito de resiliência. “Costumamos dizer que resiliência é a capacidade de voltar ao normal depois de um choque. Eu prefiro pensar diferente. A crise é uma oportunidade para avançarmos. Em vez de reconstruir exatamente o sistema que era frágil, podemos criar outro, mais democrático, mais descentralizado e muito mais preparado para o futuro.”

Segundo ele, isso passa por descentralizar a produção de energia, fortalecer sistemas alimentares locais e reduzir a dependência de cadeias globais de abastecimento. Foi essa lógica que inspirou iniciativas como os jardins comestíveis de Liège, em que moradores passaram a ocupar espaços urbanos com plantas alimentícias disponíveis para a comunidade.

Embora atribua um papel central às comunidades, Hopkins rejeita a ideia de que o movimento alivie a responsabilidade de governos e empresas. “O movimento de transição nunca disse que governos ou empresas estão dispensados de agir. Pelo contrário. As comunidades mostram que outro caminho é possível e acabam influenciando políticas públicas, negócios e universidades. Uma mudança alimenta a outra.”

Reflexões e exemplos práticos dessas transformações aparecem em seus livros, entre eles “The Transition Handbook, From What Is to What If e How to Fall in Love with the Future”. Neste último, Hopkins argumenta que enfrentar a crise climática exige recuperar algo frequentemente esquecido nos debates ambientais: a capacidade de imaginar futuros desejáveis.

“Uma narrativa baseada apenas em colapso mobiliza poucas pessoas. O desafio é convidar as pessoas para participar da maior aventura da história da humanidade: reconstruir nossas sociedades. Ninguém cria um mundo diferente se não consegue imaginá-lo primeiro.”

É essa mesma visão que orienta sua leitura sobre a ecoansiedade, sentimento que cresce sobretudo entre os jovens diante da intensificação dos eventos climáticos extremos e outros problemas ambientais, como a poluição e a perda de biodiversidade global.

“Quando alguém me diz que sofre de ecoansiedade, eu agradeço. Isso significa que essa pessoa tem coração e está prestando atenção. Ecoansiedade não é uma doença, é uma resposta humana ao momento em que vivemos. A questão é transformar esse sentimento em ação.”

Ao imaginar o mundo em 2050, Hopkins diz esperar uma mudança que vai além das tecnologias verdes. Para ele, o maior avanço será abandonar a ideia de que o sucesso de um país pode ser medido apenas pelo crescimento econômico.

“Acho que [no futuro] as pessoas olharão para 2026 com espanto por termos organizado toda a economia em torno de uma única métrica. Quando passarmos a medir o sucesso pelo bem-estar das pessoas e da natureza, muitas das outras transformações acontecerão quase naturalmente.”

[Fonte Original]

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