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Augusto Cury, de 67 anos, fez a sua primeira sabatina — aos jornais O Globo e Valor e à rádio CBN —, na manhã de sexta-feira (28/8), após ser um dos três candidatos a participar do primeiro debate presidencial de 2026, que aconteceu no último fim de semana. Neste sábado (29/8), ele será sabatinado novamente, no Jornal Nacional.
“Tenho uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente, que acolha as pessoas que estão querendo produzir, mas não têm condições, seja pelos juros altíssimos, seja pela burocracia”, afirmou Cury à BBC.
“Mas essa mente capitalista tem que ser acompanhada de um coração social, que valoriza os direitos humanos no mais alto nível, a educação de qualidade, a proteção da mulher”, ele acrescentou.
Essa discussão voltou a aparecer na sabatina de sexta-feira. “No mundo todo, nos enganaram, de maneira cruel, dizendo que temos que estar divididos em dois barcos. Mas mais de 90% das dores das pessoas não têm cor ideológica. A dor da mulher morta pelo parceiro não é de direita ou de esquerda. A das pessoas neurodivergentes [também] não é. Quando o professor perde autoridade em sala de aula, [também] não é.”
“Minha mente é capitalista, com todos os pressupostos do capitalismo. Mas meu coração é social porque eu escutei a dor a vida toda. E eu também vivi essa dor da dificuldade financeira — a vida inteira fui aluno de escola pública”, ele acrescentou durante a entrevista, que aconteceu no Rio de Janeiro.
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Cury entrou na corrida eleitoral com o currículo de escritor de autoajuda, médico psiquiatra e palestrante, que decidiu trocar os livros pelo palanque.
Ele se projeta como uma terceira via, ancorando-se no lema de que tem “uma mente capitalista e um coração social”, perfil que, segundo ele, o distanciaria tanto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Na sabatina, Cury evitou responder a perguntas que dividem a sociedade, como a possibilidade de anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro tentaram invadir e tomar o poder nas sedes do Legislativo, do Executivo e do Judiciário.
Ao ser instigado pelos jornalistas a se posicionar, no entanto, Cury disse que formaria um corpo de juristas, composto tanto por brasileiros quanto estrangeiros, para reavaliar as condenações.
“Na minha visão, houve várias condenações desproporcionais”, disse, recusando responder, porém, se daria anistia a Bolsonaro caso seja eleito. “Se houve tentativa de golpe, não serão beneficiados. Por favor, não me coloque no centro dessa guerra política, porque senão vamos alimentar a polarização.”
Ao ser questionado se isso não o colocaria no centro do barômetro ideológico, o escritor rejeitou a ideia e disse que “o centro está no limbo entre ser neutro, estar em cima do muro” e que ele é “contra ser uma pessoa que não tem opinião”.
Cury disse ser possível unir a agenda econômica e social e cita como exemplo a proposta de rever o sistema prisional, que, em sua avaliação, faz “com que a sociedade pague duas vezes, porque são de R$ 3 mil a R$ 4 mil gastos por mês com cada prisioneiro e, quando ele retorna à sociedade, reincide no crime e volta ao presídio”.
“O Brasil aprisiona muito, ao contrário do que se acredita. Os criminosos devem, sem dúvida, ir às barras da Justiça, mas quem estamos aprisionando? São os criminosos de alta periculosidade ou jovens que não têm como sobreviver e acabam cometendo crimes, vendendo drogas?”, questionou.

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O escritor reconhece que pautas como essa podem levá-lo a ser ligado à esquerda e, em última análise, a Lula e ao PT, mas disse ter esperança de que o eleitorado não vá se deixar convencer por essas associações e de que os adversários não vão lançar mão dessa estratégia.
“Isso não é uma pauta da esquerda. As pessoas associam à esquerda, mas é uma pauta suprapartidária, porque também a esquerda não fez nada de grande impacto para mudar a ressocialização e impedir que as prisões se tornem escolas do crime. Essas pautas são sequestradas.”
“Eu não sou ameaça nem pra direita nem para esquerda, porque todos gostam de mim”, disse Cury, que foi instigado a fazer uma curta descrição sobre cada um de seus adversários. A princípio, ele rejeitou a ideia, mas cedeu ao pedido dos jornalistas.
“Renan Santos tem que fazer uma faculdade, se preocupar menos com bomba nuclear […]; Ronaldo Caiado é uma pessoa inteligente, mas está dentro da polarização; Romeu Zema está do outro lado do espectro, mais radical, à direita, quer privatizar tudo […]; Flávio Bolsonaro, temos um livro que estamos filmando agora e que vamos filmar e gastamos dez vezes menos; Lula ficou 12 anos [no poder], para que essa necessidade neurótica de poder?”, disse o candidato.
Críticas a Renan Santos
Antes de sua primeira sabatina, no debate da Band, ao lado do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e de Renan Santos (Missão), Cury chamou atenção ao reagir às críticas de Santos ao eleitorado de Lula, a quem o empresário chamou de “canalha”. “Estão rifando o futuro do Brasil, e eu não quero o voto deles”, afirmou.
“Olha, Renan, você tem um nível de agressividade que me assombra. As ideias podem ter fundamento, mas a agressividade asfixia a capacidade de as pessoas terem suas próprias opiniões. Nós estamos em uma democracia, e a beleza dela está na divergência”, disse Cury.
“Você pode criticar as ideias de Lula, e elas são criticáveis, mas você não pode criticar a pessoa, transformando ela em uma escória humana, quase um lixo. E nem mesmo o eleitor de Lula”, acrescentou o candidato do Avante.
Um desejo antigo para ‘aumentar a régua do debate’
Cury é um sujeito de predicados superlativos. Considerado o escritor brasileiro mais lido da última década, ele vendeu mais de 30 milhões de livros no país e agora quer estender essa ambição à política.
O escritor contou à BBC News Brasil em abril que se lançar à política é um desejo antigo, mas sua família tinha medo de que ele pudesse se ferir em um ambiente “extremamente agressivo e espinhoso”.
Uma década depois, com o amadurecimento de suas filhas, ele contou que teve apoio para se candidatar, com a promessa de que, caso fosse eleito, não buscaria um segundo mandato.
“Não avaliei me candidatar a nenhum outro cargo, seja deputado, seja senador, seja governador, porque não quero fazer carreira política. Meu objetivo é aumentar a régua do debate”, afirmou.
“Só acho que o Brasil não pode ser sequestrado por duas famílias — no bom sentido, sem fazer julgamento dessas famílias, mas o Brasil é muito maior do que a família Bolsonaro e a família Lula da Silva.”
Quais são as chances de Cury nas eleições?
Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a quinta-feira (27/8), a estimativa de intenção de voto em Augusto Cury, no primeiro turno, é de 3%.
A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para os dados.
Até a quinta, Lula era quem liderava as pesquisas para o primeiro turno, com 39% das intenções, seguido por Flávio, com 34%, e Caiado, em terceiro lugar, com 4%.
A ideia da equipe de Cury é atrair eleitores que votaram em branco ou nulo — índice que foi de 4,41% em 2022, o menor desde 1994, mas que tem girado em torno de 10% na última década —, além dos que se abstiveram, que somaram 20,9% no último pleito, o maior percentual desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Em abril, Cury afirmou que rejeita declarar apoio a qualquer candidato em um eventual segundo turno que não o inclua. Ele também evita dizer em quem votou na eleição passada.

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Propostas para o mundo todo
“Se tivesse o privilégio de sentar na cadeira de presidente, nos primeiros dias chamaria vários políticos, como Putin e Zelensky, para conversar, porque sou um especialista em pacificação de conflitos, tenho livros sobre isso”, afirmou ele à BBC News Brasil em abril, quando ainda era pré-candidato à Presidência.
“Quem sabe alguém de fora, de um país como o Brasil, que é pacífico, seja mais ouvido. Não apenas este, mas os conflitos na África e em outros países.”
Entoando o lema de que tem “uma mente capitalista e um coração social”, o escritor disse que, caso seja eleito, espera “inspirar outros atores nas mais diversas nações, seja na Ásia, seja no mundo ocidental”, a pôr fim às guerras e resolver desafios como a fome mundial.
“Se gastasse talvez 20% do que se gasta em armas, a equação da fome teria se resolvido. Eu gostaria de chamar o G20, ou quem sabe os quase 200 países que participam da ONU, e meio por cento de todas as importações e exportações do mundo poderiam formar um fundo. Ou por que não de 2% a 3% de toda compra e venda de armas formassem um fundo para resolver a fome mundial?”, propôs.

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Da autoajuda à política
Nos bastidores, há quem trate a candidatura do escritor como inviável e a associe mais a uma estratégia de marketing para impulsionar os negócios, tanto a venda de livros quanto de cursos.
Seria um movimento benéfico à sua carreira. Afinal, se na década passada Cury se consolidou como o autor nacional mais lido do país, hoje enfrenta forte concorrência de livros de autoajuda que viralizam nas redes sociais e, no mercado de cursos e palestras, concorre com coaches que se criaram não nas livrarias, mas já na internet.
A leitura remete ao movimento de Pablo Marçal (União Brasil), que disputou a Prefeitura paulistana no ano retrasado e agora tenta voltar aos palanques. Ele se anunciou candidato à Presidência pelo Partido Renovador Trabalhista Nacional (PRTB), embora a candidatura ainda deva ser analisada pelo TSE.
Cury, porém, rejeitou essa interpretação e disse que, na prática, a incursão na política pode até prejudicar seus negócios.
“Não pensei muito nisso, mas vários amigos me dizem que vai prejudicar, que vou sair ferido. Mas já tenho muito mais do que mereço, tanto financeiramente quanto socialmente e intelectualmente.”
Propostas para o sistema presidencial e o STF
Ao longo da entrevista por videoconferência à BBC News Brasil, concedida em abril de sua casa na região de Ribeirão Preto, no interior paulista, Cury não se furtou a comentar geopolítica global — citou diversos países, seus problemas e possíveis soluções —, mas também detalhou propostas para o Brasil.
A principal delas envolve mudanças na estrutura de poder, com apoio do Congresso. Ele defendeu mudanças no presidencialismo, com a criação do cargo de primeiro-ministro, e no Judiciário, especialmente no Supremo Tribunal Federal (STF), que, em sua avaliação, estaria “sufocando os outros poderes” e precisa “ser preservado de qualquer interferência política”.
Ele disse que pretendia articular com o Congresso “o fim da vitaliciedade dos ministros”. “Eles ficariam de oito a dez anos. Essa história de entrar com 40 e sair com 75 seria encerrada.”
“Além disso, dois terços teriam que vir da magistratura, ou seja, ser juízes de carreira, não mais escolhidos pelo presidente, mas pela própria classe e, quem sabe, até pelo voto público.”

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Cury criticou a “espetacularização” da atuação dos ministros da Corte e propôs que seus votos deixem de ser transmitidos ao vivo.
“Por mais que sejamos livres para expressar ideias, toda vez que você está debaixo dos holofotes denotam-se vários gatilhos mentais e você acaba dando respostas que não daria se não estivesse sob os holofotes.”
O escritor disse que as mudanças que propõe se baseiam em seus estudos sobre a mente humana e em outro lema de sua campanha, “make humanity great again“, ou “torne a humanidade grande novamente”, baseado no movimento americano Maga (“Make America Great Again”), encampado por Trump.
“Quando alguém te ofende, te rejeita ou te critica, detona o primeiro copiloto do eu, abre uma janela traumática e, se o volume de tensão é grande, a âncora gera hiperfoco”, disse Cury.
“Milhares de arquivos mentais deixam de ser acessados para dar respostas inteligentes. O Homo sapiens se torna Homo bios, instintivo, animal, e comete os maiores erros. Professores, casais e também líderes internacionais têm suas piores atitudes. Dizem palavras que nunca deveriam ser ditas.”
