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segunda-feira, agosto 31, 2026

Escolhido pela França para disputar uma vaga no Oscar, drama sobre Auguste e Jean Renoir está no Prime Video

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Pierre-Auguste Renoir está morrendo enquanto pinta mulheres cheias de vida. As mãos deformadas pela artrite já não obedecem com facilidade, a esposa morreu, a Primeira Guerra Mundial devora rapazes franceses e Jean, um de seus filhos, volta do front ferido. Gilles Bourdos poderia ter feito de “O Último Verão de Renoir” uma procissão de despedidas. Prefere colocar uma jovem ruiva diante do velho pintor e observar o que acontece quando um corpo próximo do fim encontra outro que parece ter acabado de descobrir sua força.

Andrée Heuschling chega à propriedade dos Renoir na Côte d’Azur para posar. Christa Théret não a interpreta como musa no sentido passivo que a palavra adquiriu com o tempo. Andrée quer ser vista, quer dinheiro, deseja outra vida e compreende depressa que beleza também é uma moeda, embora não tenha nenhuma intenção de permanecer apenas como superfície para os quadros de um homem célebre. Renoir, vivido por Michel Bouquet, olha para ela profissionalmente, sensualmente, paternalmente, às vezes tudo junto. É um velho que ainda pinta a carne como se não acreditasse na morte.

Bourdos levou o filme ao Festival de Cannes de 2012, onde “Renoir” encerrou a mostra Un Certain Regard. No ano seguinte, a França o escolheu para disputar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. A distinção faz sentido menos pela reverência ao nome Renoir que pela decisão de concentrar-se numa passagem quase doméstica entre duas histórias gigantescas da arte. Auguste já é Auguste Renoir. Jean ainda não é Jean Renoir.

Jean e Andrée

Essa é uma das melhores ideias do filme. Vincent Rottiers encarna o futuro diretor de “A Grande Ilusão” e “A Regra do Jogo” quando ele ainda poderia ter sido outra coisa. Jean volta ferido da guerra, caminha com dificuldade e encontra na casa do pai uma espécie de paraíso indecente, cheio de luz, comida, mulheres e telas, enquanto homens de sua idade continuam sendo destroçados a poucos quilômetros dali. Não há ainda um mestre do cinema. Há um rapaz sem muita certeza do que fazer consigo.

E há Andrée. Ela será decisiva na vida de Jean, que se apaixona por aquela mulher tão inadequada ao universo protegido dos Renoir quanto a guerra que insiste em mandar notícias. O velho pintor percebe o movimento e não o recebe com entusiasmo. Andrée é modelo, energia, matéria de trabalho. Para Jean, torna-se desejo e possibilidade de futuro. Bourdos monta o triângulo sem precisar reduzi-lo a rivalidade amorosa. Pai e filho não disputam propriamente a mesma mulher. Disputam maneiras diferentes de olhar para ela.

A fotografia de Mark Lee Ping-Bing compreende que um filme sobre Renoir corria o risco óbvio de querer parecer uma exposição de Renoir. Algumas vezes sucumbe à tentação. A luz atravessa folhas, a pele das modelos parece reter o calor do verão, frutas, tecidos e corpos ganham uma sensualidade quase pictórica. Mas há algo mais áspero por baixo dessa beleza. Auguste sente dor para segurar o pincel. Jean carrega no corpo a guerra. Andrée sabe que aquele Éden pertence aos outros.

A guerra e o pincel

Michel Bouquet evita o monumento. Seu Renoir é caprichoso, teimoso, sensual, às vezes desagradável e inteiramente submetido à necessidade de continuar pintando. A velhice não lhe trouxe sabedoria universal, apenas a consciência de que o tempo encurtou. Ele pode precisar que amarrem o pincel à mão, mas ainda sabe exatamente o que quer fazer com ele.

A guerra funciona como ruído exterior e ameaça íntima. Jean considera voltar ao front, decisão que para o pai parece uma afronta ao instinto elementar de sobrevivência. O jovem, porém, ainda pertence àquela geração que aprendeu a confundir sacrifício com dever. Andrée oferece outra saída. Não necessariamente uma vida mais virtuosa, mas uma vida.

Bourdos não tenta explicar de que maneira Jean Renoir se tornará cineasta, e nisso acerta. Seria fácil espalhar sinais de genialidade futura, fazer o rapaz olhar para a luz como um diretor ou organizar pessoas dentro de um quadro como quem descobre a mise-en-scène. O filme prefere deixá-lo incompleto. O cinema ainda não existe para Jean como destino; existe como possibilidade.

“O Último Verão de Renoir” é mais interessante quando se lembra disso. Não é a história de dois gênios, um passando a chama ao outro. É a história de um artista que está acabando, de outro que ainda não começou e de uma mulher que se recusa a existir apenas no intervalo entre ambos. Andrée entra na casa para ser pintada. Sai dela levando Jean para outra arte.

[Fonte Original]

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